Saraka franziu a testa. Felizmente, graças ao véu, seu rosto carrancudo não ficou exposto.
Não sabia se eles estavam vigiando a Mansão Rohanson ou se tinham seguido Saraka, mas foi uma aparição verdadeiramente precoce. Embora fossem chamados de Ordem dos Cavaleiros de Phararos, o número deles, incluindo Gabriel, não passava de dez.
“Desgraçados… Eles devem ter nos seguido, não é?”
“Não há vergonha maior para o templo!”
Os cavaleiros ao lado de Saraka cuspiram insultos em direção à Ordem dos Cavaleiros de Phararos. Como se os olhares afiados não fossem nada, Gabriel desmontou de seu cavalo e entrou calmamente na Mansão Rohanson. Talvez por Gabriel ter visitado a mansão algumas vezes, os criados que o conheciam pareceram visivelmente aliviados.
“Primeiro, verifiquem se há sobreviventes dentro da mansão e ajudem na evacuação.”
“Sim, Comandante.”
Sob as ordens de Gabriel, os cavaleiros, exceto ele, começaram a se mover agilmente. Algumas pessoas com resistência física, como Uriel, jogaram água em seus corpos e entraram na mansão em chamas sem hesitação, enquanto os restantes ignoraram a vigilância dos outros cavaleiros e começaram a examinar os ferimentos das pessoas da mansão. Rafaela dirigiu-se a Daisy.
Saraka observou aquela cena descarada e zombou de Gabriel.
“Parece que o Comandante dos Cavaleiros não consegue me ver?”
“Peço perdão, Bispa. A situação é grave devido à intensidade do fogo, então não consegui notar a presença da senhora.”
Gabriel inclinou a cabeça respeitosamente, como se não tivesse sido intencional. Ele quis dizer que, com uma mansão queimando diante de seus olhos, como poderia notar outra coisa? Isso era o mesmo que criticar Saraka, que estava apenas observando sem fazer nada diante da mansão.
“A Bispa Marik também não estava com o olhar cativado? Por isso deve ter ficado apenas observando o fogo.”
Era uma atitude verdadeiramente insolente, sem conhecer o seu próprio lugar.
Para Saraka, Gabriel era uma peça útil. Uma ferramenta usada pela Bispa Jabaniya, um filho ilegítimo condenado que permitia manipular o Imperador. Este era o papel que Gabriel desempenhava.
O fato de Gabriel ter sido amaldiçoado era para ser usado por Saraka. Não foi por isso que ele apareceu no palco que Saraka estava montando, exatamente no momento oportuno?
Diziam que, quando estava sob as ordens da Bispa Jabaniya, ele era extremamente obediente, sem nunca dizer uma palavra. No entanto, Gabriel estava se envolvendo com Evangeline mais do que o necessário e se rebelando contra Saraka.
“Posso ajudar a Bispa a resgatar os sobreviventes?”
“Você ordena que façam isso primeiro e depois pede minha permissão? A ordem está invertida.”
“Cometi um erro porque sabia que a Bispa Marik naturalmente permitiria. Para a Bispa, o resgate também é a prioridade, não é?”
Ele não estava apenas bloqueando Saraka como se não tivesse medo de nada, sendo que, se fosse revelado que a água benta não surtia efeito nele, ele seria queimado vivo ali mesmo? Era uma atitude de quem não considerava sua própria vida preciosa por causa de Evangeline.
O fato de tal fé ser direcionada a Evangeline, e não ao Sol, parecia extremamente impuro. Quem diria que seria possível seduzir um paladino tão fiel e corrompê-lo a esse ponto? O fato de ele ter persuadido Azazel também era algo que tornava a habilidade de Evangeline verdadeiramente admirável.
“Você não deve ter passado por aqui por acaso a esta hora da noite, o que o traz até aqui?”
“Eu estava patrulhando para ver se algum demônio apareceria e causaria um incêndio, e apenas vim porque as chamas estavam intensas.”
“É mesmo? Uma coincidência….”
Gabriel não escondeu que estava observando Saraka.
“Como a Bispa queimou uma família inteira até a morte anteriormente sem demonstrar misericórdia, vim preocupado.”
“Não seria melhor do que tomar medidas ineficazes como o Comandante dos Cavaleiros?”
Gabriel insultou Saraka por ter queimado dezenas de pessoas vivas, e Saraka ironizou Gabriel, que interferia em tudo o que ela fazia e capturava apenas um herege de cada vez.
“Eu me enganei, pensando que o Comandante dos Cavaleiros tinha planos de um encontro secreto com alguém que ama no meio da noite.”
Saraka apagou toda a hostilidade que havia demonstrado até então e falou casualmente, como se estivesse cumprimentando alguém que encontrou por acaso na rua.
“Infelizmente, você se atrasou. Se tivesse chegado um pouco mais cedo, teria conseguido encontrá-la….”
“O que quer dizer?”
“Ora, quem ateou este fogo não foi o ‘demônio’ que você temia, mas sim a sua amada.”
“…Isso é impossível.”
Tanto Saraka quanto Gabriel sabiam muito bem que Evangeline estava hospedada na mansão do Duque. Gabriel respondeu, mas Saraka ignorou e trouxe Henna para a frente.
“A criada da Lady Rohanson testemunhou.”
Gabriel arregalou os olhos, como se estivesse surpreso.
“…Henna.”
Gabriel chamou o nome de Henna com um sentimento desolador, ao descobrir a identidade da traidora que tanto procurava.
“Haha. Como ela é uma pessoa próxima de quem você ama, não é de se admirar que o Comandante dos Cavaleiros a reconheça.”
Saraka estava muito alegre. Mesmo assim, seu tom e atitude não fugiam da aparência benevolente da Bispa Marik. Isso graças ao aprendizado de ter sido queimada pelo fogo por um longo período.
“…Henna. Por que você está dando um falso testemunho?”
Henna evitou o olhar de Gabriel. É claro que Gabriel não ficou muito chocado, pois, considerando o histórico de Daisy, ele suspeitava de todos, exceto de Evangeline e dos dois demônios.
Ele apenas se preocupava com Evangeline, que ouviria esse fato. Isso porque Henna era uma das poucas pessoas que recebia um tratamento semelhante ao que Evangeline valorizava.
Até mesmo Kanna, que bajulava Evangeline por querer monopolizar seu afeto, ficaria muito chocada se soubesse que sua irmã traiu a Lady que ela tanto adorava.
“Falso testemunho? O Comandante dos Cavaleiros está cego pelo afeto e ignora a verdade mesmo quando ela é mostrada.”
Gabriel encarou Saraka como se ela tivesse um plano enorme, o que a deixou muito ofendida. Na verdade, se olharmos apenas para o resultado, é satisfatório, mas, analisando bem, não foi algo que Saraka planejou e liderou.
“Henna. Você poderia explicar novamente o que acabou de me dizer?”
“Eu… vi com meus próprios olhos quem ateou fogo na mansão. A Lady Rohanson ateou fogo na mansão.”
Henna respirou fundo e continuou.
“Além de mim, haverá várias outras pessoas que testemunharam.”
Aquela voz era particularmente clara.
“É verdade… Eu vi a Lady ateando fogo…!”
O começo foi uma palavra dita com medo. E então, seguiu-se a concordância de alguém.
“Eu também! Eu também vi!”
“É, é verdade. Eu também vi. Tentei impedir, mas a Lady era tão assustadora que fiquei quieto….”
Pessoas começaram a concordar e participar de todos os lados. Isso porque todos viram o ‘rato’ circulando e pensaram que era Evangeline. Algumas pessoas, seguindo o fluxo, concordaram dizendo que também testemunharam, mesmo sem nunca ter visto Evangeline.
“A Lady Rohanson….”
Saraka murmurou, como se estivesse genuinamente chocada.
“Eu já havia sentido uma energia maligna na Lady Rohanson anteriormente. Se eu tivesse capturado a Lady Rohanson com certeza naquela época, esse dano não teria ocorrido….”
Com as palavras de Saraka, olhares ferozes foram direcionados a Gabriel. Isso porque todos ali se lembravam de que, naquela época, Gabriel se esforçou muito para provar a inocência de Evangeline.
“Como o Comandante Gabriel também disse, eu sou alguém que detesta profundamente a heresia. Como uma sacerdotisa, como posso ignorar a existência de alguém que se rebelou contra Deus? Por isso, cheguei a purificar até mesmo o ninho onde o demônio estava hospedado.”
Saraka disse muito calmamente que ela mesma havia queimado a família inteira. Ouviu-se o som de alguém engolindo seco.
Aqueles que foram cegados pelas moedas de ouro distribuídas pelo mordomo e ignoraram a existência de Evangeline Rohanson tremiam de medo, sem saber qual seria o seu destino.
“Seria melhor matar todos eles?”
Muzeta desembainhou sua espada. A espada afiada saiu da bainha, emitindo um som agudo. No entanto, a voz que perguntava sobre a morte sem qualquer sentimento pessoal era ainda mais cortante.
Seguindo-o, os outros cavaleiros também desembainharam suas espadas. Gabriel franziu a testa. Com apenas dez homens, era impossível parar os cavaleiros da Bispa Marik.
“Hic…!”
Uma criada não conseguiu conter o medo e começou a chorar.
Eles finalmente perceberam o significado de Saraka não os ter resgatado das chamas e apenas observado.
Ao encontrar o olhar de Saraka, ela quase teve uma convulsão. Para uma criada de Evangeline Rohanson, ela era muito medrosa. Aquela Lady devia tratar seus criados de forma muito gentil.
“Bem….”
Saraka fez uma pausa.
Pelo princípio, seria correto matá-los sem hesitação. Na verdade, Saraka estava pensando se deveria cortar suas cabeças ou queimá-los vivos, em vez de decidir sobre a vida ou morte.
“Claro, todos os hereges possuídos por demônios devem ser punidos com a morte, mas….”
Saraka ponderou e examinou os rostos das pessoas. Os olhares que olhavam para cima, ajoelhados no chão sujo, não viam mais Saraka como uma sacerdotisa, mas como uma assassina.
Saraka calculou a utilidade das pessoas. Seria mais vantajoso mantê-las vivas? As vidas delas seriam úteis para capturar Evangeline Rohanson? Saraka pediu conselhos a Henna.
“Henna, você acha que as pessoas da Mansão Rohanson têm valor como reféns?”
Desta vez, foi um sussurro muito baixo que apenas Henna pôde ouvir. Saraka confiou a vida e a morte das pessoas da mansão a Henna.
Henna também percebeu esse fato. A vida de outras pessoas dependia de sua resposta. Henna ficou um pouco assustada com o peso da morte, que se aproximava de forma muito mais direta do que quando ateou fogo.
“É, é melhor mantê-las vivas.”
“Sério? Não seria um pouco mais dramático matar todos e dizer que a Lady Rohanson massacrou seus criados? De qualquer forma, eles são hereges possuídos por demônios, então não precisa ter nenhum sentimento de culpa.”
Henna balançou a cabeça porque achava que Saraka realmente mataria todas as pessoas.
“A Lady Rohanson tenta não sair do papel que lhe foi atribuído. As pessoas da mansão serão as correntes que prenderão a Lady Rohanson.”
Henna não estava mentindo. Não sei por qual motivo, mas Evangeline se esforçava para imitar ‘Evangeline Rohanson’ como se estivesse sob um feitiço. Ela imitava os hábitos alimentares da verdadeira Evangeline, e o mesmo valia para seu comportamento e tom de fala.
Evangeline não valorizava tanto os outros criados como valorizava Kanna, mas, mesmo assim, ela não os expulsaria como uma ‘Lady Rohanson’ faria.
Saraka olhou fixamente para Henna, como se estivesse avaliando, e logo assentiu. Se eles tivessem valor como reféns, seria melhor cercar a mansão em vez de matá-los.
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