Azazel ergueu o canto da boca e disse de forma brincalhona.
Como não havia mais ninguém nos perseguindo, Azazel diminuiu a velocidade gradualmente. Assim que paramos diante da mansão, o portão principal do Condado Rohanson, que estava firmemente fechado, abriu-se de par em par com um rangido metálico. Parecia que tínhamos recebido um convite de alguém.
“Você quer que eu entre, não é?”
Respondi à fala de Azazel respirando fundo e dando um passo à frente.
No momento em que entrei, uma paisagem familiar surgiu diante dos meus olhos. Era exatamente como eu me lembrava da Mansão Rohanson: antiga, mas com um canto sombrio. Com apenas uma exceção.
Sob a cerejeira em flor, a visão de uma sombrinha girando incessantemente ficou gravada em minha retina. Logo, os olhos vermelhos da mulher que segurava a sombrinha fixaram-se diretamente em mim.
“Amaranth….”
Sua voz tremia.
“Mãe….”
Será que é certo chamá-la assim? Meus lábios estavam secos.
‘Quem diria que a outra carta de Rahel seria uma mãe que nem sequer está nas minhas memórias.’
Eu sei muito bem que não é uma possessão, que eu sou a verdadeira Evangeline e que apenas minhas memórias desapareceram. No entanto, a mulher à minha frente é tão estranha que a palavra “mãe” não sai facilmente.
“Evangeline.”
A mulher, que morreu há muito tempo e ainda mantinha um rosto jovem, chamou por mim e estendeu a mão. A ponta dos dedos acariciou suavemente minha bochecha.
“Você cresceu muito.”
O amor vívido que transparecia em seus olhos gentis fez com que eu baixasse a guarda sem perceber.
“Esta deve ser a última chance de conversarmos, por que não bate um papo com a mamãe por um momento?”
Sentamo-nos frente a frente em uma mesa ao ar livre. O chá foi servido em xícaras de porcelana antiga, e alguns petiscos simples foram preparados. Amaranth estava tão calma e relaxada que, ao encará-la, parecia que eu tinha sido arrastada para um país das maravilhas.
“Pachira. Pode servir o chá?”
A pedido de Amaranth, uma criada desconhecida serviu o chá com gestos elegantes. Aquela criada estava na Mansão Rohanson? É um rosto que nunca vi antes. Quando lancei um olhar para a criada, Amaranth acrescentou:
“Aquela criança não morreu. Se você voltar, cuide bem dela.”
“Você… vai me mandar de volta?”
Tão facilmente?
Será que Amaranth, a ‘mãe’ à minha frente, não era uma carta preparada por Rahel para me prender?
À minha pergunta, Amaranth cobriu a boca e riu como uma menina. Seu riso era caloroso, mas, por outro lado, parecia distante, como se estivesse desconectado da realidade.
“O benevolente Deus Sol parece querer te acolher, mas eu não vou te segurar.”
Amaranth pegou um pedaço de fruta do prato.
“Diga ‘ah’.”
Hesitei por um momento, mas abri a boca como uma criança e aceitei o que ela me oferecia. A polpa macia derreteu em minha boca.
“Fiz um pedido a Leah duas vezes. O primeiro foi para que você fosse minha. Você era tão adorável. Minha filhinha fofa, que se parecia tanto comigo.”
A história que Amaranth contou era sobre um passado que eu não conseguia lembrar. O olhar de Amaranth, ao relembrar o passado, estava repleto de amor.
“Mas, à medida que você crescia, eu me arrependi. Não deveria ter feito tal pedido. Se fosse para pedir algo, eu não deveria ter pedido que você amasse apenas a mim.”
A sombra que passou pelo rosto de Amaranth era profunda. Sua expressão, onde arrependimento e tristeza se sobrepunham, era tão vívida que era difícil encará-la.
“À medida que eu morria, eu me preocupava com você.”
Amaranth ergueu a cabeça e olhou para o céu. A luz do sol que filtrava entre as árvores era quente, mas nem mesmo aquela luz parecia capaz de consolá-la.
“Se você pudesse amar apenas a mim, que significado o mundo sem mim teria para você?”
Isso certamente seria como ler um livro, uma sensação de isolamento. Como se estivesse flutuando no mundo, sentindo-me a única pessoa estranha. Outras pessoas não teriam valor algum, e eu só conseguiria vê-las como meras formigas.
“Por isso, pedi a Leah. Se por acaso você morresse me seguindo, que ela apagasse todas as memórias sobre mim de você.”
Prendi a respiração. Como Amaranth havia pedido isso, no dia do funeral de Evangeline Rohanson, eu esqueci Amaranth completamente e despertei novamente.
“Porque, se fosse assim, pelo menos você não morreria me seguindo.”
Toda essa história, ouvida diretamente de Amaranth, continha um afeto inesperadamente profundo. Minha garganta apertou.
“Eu encontrei uma criada.”
Foi uma frase que escapou dos meus lábios de repente.
Uma já morreu, e a outra está presa em um ‘sonho’. Eu sabia que não era o momento para conversas triviais como essa. Mas, de alguma forma, senti que precisava dizer isso.
“Tenho um gato e um cachorro que crio; eles são travessos, mas quando deitamos juntos, consigo dormir profundamente. Pudding adora a coleira que fiz para ele, e Jelly também me oferece as costas docilmente quando o escovo.”
Falei sem parar, de forma desconexa, como uma criança contando sua rotina diária.
“E tem uma… pessoa de quem gosto.”
Meus lábios tremeram. Lembro-me de quando ele apareceu na Mansão Rohanson e me convidou para dançar.
Ele era alguém que ansiava pelo meu afeto, que arriscava a vida por mim, que dizia que me admirava e amava, ficando com as orelhas vermelhas. Seus olhos sempre me continham por inteiro, e neles residia uma sinceridade inabalável.
“Então, agora estou bem.”
Sorri abertamente. Eu sabia, mesmo sem olhar no espelho, que tipo de expressão eu estava fazendo.
“É mesmo? Entendo. Sim.”
Porque eu certamente estava fazendo a mesma expressão que Amaranth.
“Que bom.”
Amaranth sorriu suavemente ao ouvir que eu não a amava mais apenas a ela. Amaranth, em minhas memórias, resumia-se apenas ao retrato ou ao que vi agora, mas, de alguma forma, parecia o sorriso mais aberto que já vi.
“Você está procurando um jeito de sair, não é?”
Balancei a cabeça.
“Já que tivemos uma conversa satisfatória, vou te ensinar o método. É muito simples. Basta nadar para fora.”
“O quê?”
Pisquei os olhos diante da solução inesperada.
Amaranth apontou para o céu.
“Estamos dentro de um lago, como poderia haver um céu?”
Ao ouvir as palavras de Amaranth, o céu azul, sem uma única nuvem, ondulava como a superfície da água.
“Vá logo.”
Amaranth empurrou minhas costas.
“Mã…e.”
“Vá e encontre o seu amor.”
Quando olhei para trás novamente, as flores que enchiam o jardim junto com Amaranth tinham todas murchado. Azazel, que observava o céu em silêncio, murmurou baixinho:
“Jovem Lady. O céu está desabando.”
***
O ‘sonho’ parou de fingir que imitava a realidade. Como sua identidade foi descoberta, talvez não houvesse mais necessidade de mantê-lo, e ele estava desmoronando, incapaz de cumprir seu papel.
O chão se partiu e as casas se retorceram. A tela azul que formava o céu se rasgou, e água começou a jorrar pelas fendas como chuva. Posso chamar aquilo de céu? Como Amaranth disse, era mais parecido com um lago ou mar gigantesco.
“Isso é água benta.”
Azazel murmurou enquanto seu corpo tremia. No momento em que uma gota caiu sobre o dorso de sua mão, sua pele começou a queimar e chiar.
“E é água benta de verdade, com eficácia garantida.”
Azazel sacrificou seu próprio corpo para provar isso. Onde quer que a água benta atingisse, sua pele derretia.
“Uau. Isso aqui é o inferno?”
Azazel exclamou com desgosto. Não seria o oposto? Bem, para Azazel, a visão de um lugar cheio de água benta era, de fato, o inferno.
Do céu, a água benta continuava a cair como uma cachoeira, e a cada passo que dávamos, o sonho se tornava cada vez mais distorcido. Nem mesmo o chão em que eu pisava era seguro; não sabia quando desabaria.
‘Ela disse para nadar para fora.’
“Não parece que temos muito tempo. Não há um lugar onde os cavaleiros da verdadeira Jovem Lady possam estar, além do falso no Palácio Imperial?”
Às palavras de Azazel, um lugar surgiu em minha mente.
O lugar onde Gabriel, abandonado pela família imperial, ficou antes de se juntar ao templo. O lugar dentro do pesadelo de Gabriel.
“Azazel, lembra do prédio do templo que foi construído após demolirem a favela?”
“O quê? Não tem como eu lembrar de algo assim… Ah, lembrei!”
Azazel bateu palmas, como se Rahel não o tivesse colocado ali como guia à toa.
“Aquele deve ser o prédio da Ordem dos Cavaleiros de Phararos, não é?”
A resposta que se seguiu foi inesperada. Azazel olhou para seu próprio corpo derretido e me puxou, como se não houvesse muito tempo.
“Ótimo. Vamos logo!”
No entanto, o caminho para o prédio da Ordem dos Cavaleiros de Phararos não foi fácil. Assim que saímos da Mansão Rohanson, pessoas nos cobriram como uma onda.
“Parece que eles não pretendem nos deixar ir, não é?”
Azazel cerrou os dentes e sacou sua espada.
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