O Duque levantou-se num salto e correu para Agera. O copo estilhaçou-se em mil pedaços, espalhando água por toda parte. Devido aos estilhaços, um risco vermelho surgiu no rosto de Agera.
“Um ferimento no rosto….”
O Duque Hosaquin acariciou a bochecha de Agera. A forma como ele mal conseguia tocar perto da parte ferida, mantendo a mão apenas nas proximidades, era extremamente comovente.
Agera, parecendo não compreender o que acabara de acontecer, ofereceu a bochecha docilmente ao Duque. Quando o Duque perguntou se doía, ela balançou a cabeça com maturidade, respondeu que estava bem e até mesmo começou a acalmar o Duque.
O Duque pegou um lenço e enxugou a umidade. Ele havia ordenado que todos os alimentos servidos a Agera fossem mantidos em temperatura morna para evitar que ela tivesse outro surto e ferisse outros criados, e foi uma sorte ter dado essa ordem.
O Duque suspirou aliviado ao confirmar que Agera não havia sofrido queimaduras nem ferimentos graves. Então, voltou seu olhar para Lico, que cometera um erro absurdo. Lico estava parado no lugar, com o rosto mortalmente pálido.
“Mordomo, parece que você está muito cansado.”
Se fosse outra pessoa, ele teria aplicado um castigo severo, mas quem errara não era ninguém menos que Lico. O Duque sabia o quanto Lico trabalhara arduamente por Agera e, sentindo até uma leve compaixão pelo fato de Agera ter se esquecido de Lico, decidiu não repreendê-lo.
Em vez disso, apenas exigiu que ele cumprisse seu dever, chamando-o pelo cargo em vez do nome que costumava usar.
“Peço perdão, Duque.”
Lico sentiu a consideração do Duque e curvou a cabeça em sinal de respeito.
“Agera, já que terminou a refeição, vamos voltar para o quarto.”
“Sim.”
Em outras ocasiões, ela teria feito birra querendo brincar mais, mas como Agera estava em um estado bastante estável após passar os últimos dias com Evangeline, aceitou prontamente o pedido do Duque para encerrar o momento.
“Você está bem? Sua aparência não está boa.”
“S-sim. Peço perdão.”
Agera, que estava prestes a partir com o Duque, perguntou preocupada ao ver o rosto pálido de Lico. Lico curvou-se profundamente para pedir desculpas.
“Ela se preocupou comigo.”
Uma satisfação estranha encheu seu estômago. Por estar com a cabeça baixa, o canto de sua boca, que não estava visível, subia de forma bizarra. O próprio Lico provavelmente nem percebia que estava sorrindo.
Mesmo após a partida do Duque e de Agera, Lico permaneceu parado no refeitório.
“…Com licença, Mordomo. Nós cuidaremos da limpeza, por que o senhor não vai descansar?”
As criadas, que pretendiam organizar o refeitório, perguntaram a Lico com hesitação. Além de atrapalhar a limpeza, elas sugeriram o descanso sinceramente por verem que o estado de Lico não era bom. Lico observou o rosto de cada uma e balançou a cabeça.
“Não. Eu cuidarei da limpeza, vocês podem ir.”
“O senhor mesmo vai fazer a limpeza?”
“Sim. Fui eu quem quebrou o copo, afinal. Devo limpar.”
“Mas o senhor? Além disso, não foi o senhor quem perdeu a força nas mãos agora há pouco…? Por que não vai descansar?”
‘Perdi a força nas mãos, é….’
A criada estava enganada. Lico não perdeu a força; ele jogou a xícara de propósito.
“Está tudo bem, podem ir.”
“Sim….”
Diante da ordem de retirada de Lico, as criadas, que apenas trocavam olhares, limparam superficialmente o local, exceto onde o copo estava quebrado, e se retiraram.
Lico ficou sozinho, sentou-se e começou a recolher os cacos. Com as mãos trêmulas, ele tentou organizar os vidros quebrados.
‘A Lady Agera se feriu por minha causa.’
Durante toda a refeição, Agera mencionou histórias sobre Amaranto. Lico ouvia tudo em silêncio. A Amaranto de quem Agera falava era, obviamente, Evangeline.
Seja sobre preocupar-se por suas mãos estarem frias, sobre ter colhido flores na estufa para fazer uma coroa e presenteá-la, ou sobre os chás e doces que comeram juntas. Dizia que se preocupava por ela ter pouco apetite, mas que, como a criada trazida por Amaranto tinha boas mãos, ela comia bem o que a menina servia, o que era bom de ver.
Embora não se lembrasse do nome de Lico, ela já estava bem familiarizada com o rosto de Kanna, que servia bem a Evangeline. A medida do afeto de Agera estava profundamente impregnada ali. Ouvir Agera falar apenas de Evangeline fazia seu coração doer como se estivesse sendo rasgado.
“Evangeline continua roubando o meu lugar.”
A voz, que parecia murmurar algo, insistia fortemente para Lico que ‘eu’ deveria estar no lugar de Evangeline.
Lico pensou que a voz soava como uma criança mimada que queria ser amada por Agera.
Ele procurava uma maneira de calar a boca de Agera por não querer ouvir mais aquilo, quando alguém em sua mente lhe disse para jogar a xícara. Aquela voz o conduziu como se estivesse manipulando Lico.
Antes mesmo de pensar profundamente, a xícara quebrou. No entanto, o ferimento de Agera foi algo inesperado. Agera foi atingida por estilhaços e feriu até o rosto. Ao lembrar do corte no rosto de sua benfeitora, seu estômago começou a revirar novamente. Sua cabeça latejava.
“Ugh…!”
Lico cambaleou e caiu sobre o vidro quebrado. Por apoiar as mãos no chão, cacos ficaram cravados nelas. Ao tentar se levantar, sua mão foi cortada profundamente por uma parte afiada.
O sangue continuava a escorrer de ambas as mãos.
“Meu Deus, Mordomo Lico!”
Hazel, que encontrou Lico naquela situação, aproximou-se assustada. Ela viera após ouvir das criadas que Lico dispensara que o estado dele estava estranho. Hazel, pensando que Lico pudesse estar ferido, trouxera diligentemente um kit de primeiros socorros.
“Mordomo. O senhor está bem?”
Hazel limpou os cacos de vidro do chão e examinou as mãos de Lico primeiro.
“Meu Deus, Mordomo….”
Hazel não conseguiu esconder o choque ao ver as palmas das mãos de Lico em um estado deplorável. Além dos cortes, havia cacos de vidro de todos os tamanhos cravados por toda parte.
“…Não dói?”
Era doloroso até para quem estava olhando.
“Não dói.”
Hazel franziu a testa diante da resposta de Lico. Na verdade, ela nem estava prestando atenção na resposta dele.
Era algo muito estranho, mas seu apetite despertou. Estava encharcado de sangue vermelho e os grãos de vidro brilhavam refletindo a luz do lustre, parecendo sementes de romã.
Significava que parecia muito apetitoso.
“Ah.”
Hazel, sem perceber, estava com a boca aberta, pronta para morder a mão de Lico.
Sentindo o cheiro ferroso que vinha da ponta do nariz, ela mal conseguiu recuperar a consciência. Hazel levantou-se rapidamente.
“Peço perdão. Vou buscar uma ferramenta para remover os cacos de vidro.”
‘O sangue do Mordomo parecia delicioso e eu quase mordi a mão dele. Será que finalmente enlouqueci?’
Para se recompor, Hazel pegou uma pinça de cozinha na despensa. Então, começou a remover os vidros cravados nas mãos de Lico usando a pinça. Para se concentrar, ela ficou automaticamente em silêncio.
“Pronto, terminei….”
Hazel, que lutou por um bom tempo, enxugou o suor com um suspiro de alívio. Ela tentou limpar o sangue das palmas das mãos com um lenço umedecido, mas o sangue não parava devido à profundidade dos cortes.
‘Devo usar a água benta, não é?’
Hazel não havia estancado o sangue antes de remover todos os cacos porque pretendia usar a água benta.
No entanto, na hora de usar, sentiu um pouco de pena. Hazel mexeu no frasco que guardava no bolso do avental. A sensação fria e lisa característica do vidro era sentida na ponta dos dedos.
Aquilo fora um presente de Evangeline. Era um presente excessivo para uma criada que servira apenas por um dia. Deve ser possível porque ela espalha água benta para todos na mansão. Mas Hazel carregava a água benta que Evangeline lhe dera como um amuleto.
‘O estado do Mordomo Lico não parece ruim, então talvez não seja necessário usar a água benta, que é rara e cara….’
Hazel ficou chocada ao perceber que estava pesando a gravidade do ferimento de uma pessoa.
‘Desde quando eu me tornei uma pessoa tão má?’
Julgar e hesitar diante de alguém ferido. Para negar seu momento de mesquinharia, ela precisava usar a água benta.
‘V-vamos usar só um pouco.’
Hazel abriu a tampa do frasco. Ela pretendia molhar apenas um pouco de algodão, mas acabou derramando tudo na mão dele. A mão estava úmida. Lamentando o desperdício da água benta por um erro, ela encostou o algodão na mão de Lico.
Enquanto observava o processo, Lico pensava naturalmente que era uma desinfecção. No entanto, assim que o algodão tocou, a carne começou a arder. Assim que teve a impressão de que ‘o antisséptico é muito forte?’, ouviu o monólogo confuso de Hazel.
“Por que a mão do Mordomo…?”
Mão?
Lico verificou sua mão seguindo o olhar de Hazel. E ficou sem palavras. A carne onde o algodão tocou estava derretendo e queimando.
‘Por, por que minha mão está assim?’
Lico olhou para sua própria mão, tremendo.
Nem mesmo o próprio Lico conseguia entender a situação. Antes que Lico pudesse deduzir, sua cabeça latejou e a voz começou a fazer um alvoroço. Seu corpo estava pesado e cansado, impedindo um raciocínio rápido. A voz, achando que era o momento, assumiu o controle no lugar de Lico.
“Dói! Você está tentando me matar de novo!”
Hazel, que não conseguia ouvir a voz, estava apenas confusa. A menos que alguém tivesse trocado propositalmente por um veneno extremo que derrete a carne, o que Hazel tinha era água benta de verdade. Na verdade, a água benta respingou enquanto ela tratava Lico, mas Hazel não sentiu nada quando a água benta a tocou.
‘Então por que apenas o Mordomo Lico apresenta sintomas estranhos?’
Os que trabalhavam na mansão não sabiam que o ‘rato’ estava relacionado a demônios ou feitiçaria. A operação de busca também foi tratada apenas como uma prevenção de epidemia.
Mas mesmo que Hazel fosse ignorante sobre o que acontecia na mansão, ela sabia que a água benta não era algo que derrete seres comuns. E não é a caça aos hereges o que está mais na moda agora?
‘É um demônio. É heresia.’
No momento em que Hazel percebeu isso, ela se levantou.
Não deveria ter usado a água benta. Não deveria ter sido intrometida. Não precisava ter vindo, mesmo suportando os comentários de escárnio de que estava bajulando para ganhar a confiança do mordomo.
“P-peço perdão! Mordomo! Lembrei-me de algo que esqueci e preciso ir buscar!”
Hazel esperava que tudo passasse assim.
“O que está fazendo? Foi ela quem nos feriu. Capture-a agora.”
A voz tinha um tom de obrigatoriedade. A voz queria que Hazel fosse dominada. Lico agarrou o pulso de Hazel como a voz ordenou.
“Mordomo? Ei, o que está fazendo? Pode soltar meu pulso?”
A voz de Hazel tremia como um salgueiro e lágrimas acumulavam-se em seus olhos. No entanto, a força da mão que segurava Hazel tornava-se cada vez mais forte.
Comentários