— Um castigo divino?
Saraka torceu os lábios em desdém.
— Sir Gabriel, o senhor deve estar enganado.
— …….
— O castigo de Deus só pode ser executado por Marik.
Saraka explicou, como se estivesse instruindo Gabriel.
Gabriel parecia não saber, mas Deus não pune diretamente. Por isso, aquele que executa a punição em nome de Deus não é ninguém menos que o “Bispo Marik”? Portanto, Deus não pode condenar o Bispo Marik. Pois Marik é um ser mais devoto e puro do que qualquer outro.
É claro que a própria Saraka sabia bem que o “Deus” de quem Gabriel falava não era o sol a quem ela servia. Certamente, ele se referia à única coisa que reverenciava. A atitude arrogante de chamar Evangeline Rohanson de deus era patética.
Enquanto Saraka discutia brevemente com Gabriel, o salão foi tomado pela confusão. O padre que trouxe a notícia tinha a voz excessivamente alta, e todos no salão ouviram o que ele gritou.
[grito]“O sol desapareceu? O que isso significa?”[/grito]
Alguém inclinou a cabeça, olhou pela janela e esfregou os olhos freneticamente, como se estivesse vendo coisas. No entanto, não importa quantas vezes esfregasse os olhos e olhasse de novo, a paisagem não mudava.
Lá fora, havia apenas uma escuridão absoluta, como se alguém tivesse despejado nanquim. Incapaz de acreditar no que via, a pessoa colou o rosto no vidro para olhar para fora, e viu um estranho brilho abaixo.
— O que é aquilo lá embaixo?
Chamas oscilavam no chão, como se houvesse um incêndio. A resposta veio pela boca de outro padre que invadiu o salão logo em seguida.
[grito]“Bispo! Aproveitando a escuridão, as pessoas invadiram o templo!”[/grito]
[grito]“O anexo, o anexo está pegando fogo!”[/grito]
[grito]“Bispo Marik, as pessoas estão clamando para que devolvam seus filhos e familiares mortos!”[/grito]
Saraka franziu o cenho profundamente. Felizmente, graças ao véu, não havia risco de sua expressão ser descoberta.
— As pessoas entraram? Como?
— Al-Alguém parece ter aberto os portões….
O padre, alvo da fúria gélida do bispo, encolheu-se. Saraka percebeu que havia cometido um erro momentâneo e respirou fundo. Desde que Gabriel apontou que ela era Saraka, sua razão estava se desgastando.
[pensamento]Acalme-se.
Aja como o Bispo Marik.[/pensamento]
Na verdade, não havia necessidade de perguntar ao padre quem era o culpado. Quem mais teria o poder de escancarar as portas firmemente trancadas do templo? Isso também era claramente um estratagema de Evangeline. Saraka lançou um olhar furioso para Gabriel.
— Não vai lá fora verificar se está tudo bem?
Gabriel perguntou, olhando para Saraka. O brilho em seus olhos, que se curvaram levemente, era límpido.
A voz que perguntava era suave, como se estivesse preocupado com o interlocutor. Saraka sentiu náuseas com o fato de que aquilo um dia carregou o sol.
Ela queria cortar o coração dele agora mesmo, mas Saraka não podia tocar em Gabriel. Os amaldiçoados deviam expiar seus pecados através da vida.
Saraka aprendeu isso com o Bispo Marik. Além disso, como aquela era uma vida salva pelo Bispo Marik, Saraka não podia tirar o fôlego dele pessoalmente.
— …Vou lá fora.
Primeiro, era preciso conter o tumulto. Após ordenar aos padres que vigiassem bem Gabriel, Saraka dirigiu-se à saída.
Em seguida, os nobres, hesitando junto com os padres, seguiram atrás. Talvez pela escuridão densa que se instalou com o desaparecimento do sol, muitos, enquanto observavam a situação, pegaram discretamente as velas colocadas diante do altar.
Ao abrir as portas fechadas do salão, as pessoas estremeceram. As chamas das velas oscilaram com o vento frio, como se estivessem prestes a apagar. O calor de pouco antes parecia ter sumido, dando lugar a um calafrio arrepiante.
— A noite realmente chegou…?
No entanto, embora fosse noite, nem mesmo a lua era visível no céu. Ao redor, havia apenas inúmeras estrelas. O sol, que deveria estar flutuando no topo do templo, ainda não podia ser encontrado.
Será que a lua ousou cobrir o sol? No lugar onde o sol deveria estar, havia apenas um anel branco puro.
[grito]“Tem alguém lá em cima, no pináculo!”[/grito]
— Quem poderia estar…
As pessoas se calaram. Como muitos olhavam para um único lugar, aqueles que olharam na mesma direção, curiosos, também perderam a fala. O mesmo aconteceu com Saraka.
No limite de sua visão, um vestido branco puro flutuava. Por ser inteiramente alvo, a princípio parecia apenas uma escultura celestial esculpida no [glossario termo=”A parte mais alta de uma torre ou edifício, geralmente em forma de pirâmide ou cone.”]Pináculo[/glossario]. Uma obra-prima que levou incontáveis horas para ser finalmente concluída.
Somente quando o cabelo e o vestido balançaram com o vento é que perceberam ser uma pessoa. O vestido, feito de camadas sobre camadas, brilhava a cada ondulação, cativando o olhar.
Aquilo existia em substituição à lua. Era algo feito da condensação das estrelas.
Um halo brilhava atrás da garota. Ao ver aquela cena, Saraka lembrou-se de uma pintura bizarra que outrora estivera na parede do templo.
Na obra pintada pelo artista Jim Nopedi, um cadáver era retratado como um anjo. No corpo do cadáver morto pelo fogo, brotavam asas feitas de cinzas, e atrás da cabeça do cadáver flutuava um [glossario termo=”Círculo de luz que rodeia a cabeça de figuras sagradas em pinturas religiosas; auréola.”]Halo[/glossario] que oscilava sagradamente. Aquele halo não tinha o formato de um círculo de conjuração? Parecia exatamente uma cena retirada daquela pintura para a realidade.
A garota de branco puro, envolta pelo halo, parecia um ser celestial que descera à terra. Era uma figura mais próxima de uma escultura ou de uma pintura famosa do que de um ser vivo.
Sua beleza excessiva, que não conhecia limites, perdia a humanidade, fazendo-a parecer algo não humano. Aqueles que se comovessem com essa beleza a chamariam de anjo, e aqueles que sentissem desconforto com seus olhos vermelhos a chamariam de demônio.
Mas uma coisa era certa. Ninguém ousaria desvalorizá-la chamando-a de humana. Se a derrubassem, não se sabia que tipo de calamidade poderia ocorrer.
O vento soprou forte. Era agoniante pensar que a garota parada na ponta do pináculo pudesse cair. Se ela caísse e seu corpo se despedaçasse, inúmeras mãos se amontoariam para possuir seus restos.
Mãos cruéis roubariam pedaços de carne e arrancariam pedaços de suas roupas. Até a última gota de sangue que penetrasse no chão seria lambida e desapareceria. Seria isso uma bênção ou, afinal, a calamidade causada por Evangeline?
Para Saraka, a queda da garota seria uma bênção. Saraka se infiltraria sordidamente entre eles e conquistaria o maior pedaço como troféu.
Curiosamente, mesmo a uma distância tão grande, cada cílio parecia gravado em sua visão de forma bizarra. Os olhos vermelhos, mais do que joias, pareciam pedaços de carne expostos após a pele ser removida.
Os olhos vermelhos olharam para baixo, para Saraka. Isso também era claramente perceptível, apesar da distância. Saraka soltou um suspiro. Se fosse para ser assim, sim. Se Saraka pudesse ter uma parte da garota, que fossem aqueles olhos vermelhos.
— Evangeline Rohanson….
Ao pronunciar o nome doce como mel, o êxtase preencheu todo o seu corpo. A vítima que ela escolhera finalmente revelara sua face.
***
Céus, que demora irritante!
Não sei há quantas horas estou presa nesta carruagem. Talvez porque as coisas ficaram um pouco, só um pouquinho estranhas com Gabriel, a percepção do tempo pareceu ainda mais longa. Quando diabos vamos chegar ao templo? Sinto como se já tivessem passado alguns dias.
Será que vou acabar me atrasando para o rito de sacrifício? Se eu entrar tarde, o Bispo Marik não vai zombar dizendo: “Vejam aquela Lady Rohanson que acabou de entrar. Chegar atrasada prova que ela é uma bruxa!”?
Minha vontade era pegar o Pudim pela mão e fazer um teletransporte direto para o templo agora mesmo. Mas isso seria apenas adicionar mais um testemunho à hipótese de que sou uma bruxa.
Por que tem tanta gente assim?! O Bispo Marik não teria convocado todas as pessoas do império só para eu sofrer com o trânsito, teria? Não, ele não seria uma pessoa tão mesquinha.
Nesse momento, o rato que estava deixado de lado veio correndo. Quando ele avançou em minha direção, Pudim rapidamente pisou em sua cauda para contê-lo. O rato, com a cauda presa, continuou correndo como alguém em uma esteira e gritou apressadamente.
— Lady Rohanson! É um problema sério!
— Rico? O que houve?
— Pessoas entraram na prisão. Parecem estar tentando me… me levar!
— Sir Gabriel?
O rato assentiu vigorosamente e acrescentou:
— Acho que são paladinos. Antes de meus olhos serem vendados, vi o [glossario termo=”Símbolo oficial da divindade Rahel, usado pelos membros do templo.”]Símbolo do Sol[/glossario] sob o manto.
Ao ouvir “paladinos”, apenas uma coisa veio à mente imediatamente. Meus olhos encontraram os de Gabriel. Gabriel parecia estar pensando o mesmo que eu.
— É o Bispo Marik.
O destino para onde os paladinos estavam levando Gabriel certamente era o templo.
Será que ele pretende usá-lo como isca? Mas o Bispo Marik nem mencionou Gabriel quando me convidou. A isca não deveria ser apenas o Jelly? O que ele está tramando?
— Rico, primeiro, conte-nos detalhadamente o que os cavaleiros estão dizendo e para onde estão indo.
— Sim. Farei isso.
Só porque os olhos foram vendados, não significava que não havia como observar o que acontecia lá fora. Rico, assim como nos deu um rato, criou vários outros para servirem de olhos e ouvidos, observando os arredores e nos transmitindo informações constantemente.
O que os cavaleiros diziam, para onde estavam indo, tudo. Até as calúnias que os cavaleiros proferiam contra Gabriel foram transmitidas sem filtro.
Disseram que todos os cavaleiros da Ordem de Phararos abandonaram seu comandante e fugiram, e que certamente fugiram porque sabiam que seriam amaldiçoados se ficassem com ele. Diziam que era nojento e que poderiam ser amaldiçoados só de tocá-lo, e que vê-lo amarrado era patético, rindo de sua situação decadente.
Quem é patético? Rangendo os dentes internamente, pedi a Rico que lembrasse bem dos rostos deles para que eu pudesse me vingar depois. Eu sentia que só ficaria satisfeita se desse um tapa na nuca de cada um quando os encontrasse. Como ousam insultar Gabriel por falta de assunto? Verão se eu deixarei isso passar.
— Chegamos ao templo.
Como esperado, o lugar para onde levaram Rico era o templo. Mesmo tendo partido depois de nós, Rico disse que já havia chegado. Com o caminho tão congestionado, como eles conseguiram?
Surpreendentemente, a resposta era simples. Ao verem o símbolo do templo, as pessoas abriam caminho sem hesitar. Incrivelmente, não houve ninguém que bloqueasse a passagem. Gabriel também ficou com o rosto rígido, incrédulo.
Após dizer que chegou ao templo, Rico ficou em silêncio por um momento.
Será que Rico se machucou? Será que descobriram que não era Gabriel e o feriram? Mais alguém vai se ferir por minha causa? Minha respiração vacilou por um instante.
O rosto de Mavka, que chamava o rato nojento de mãe e o abraçava apertado até dormir como se fosse um tesouro precioso, passou pela minha cabeça. Eu teria que ferir Mavka novamente?
Inquieto e ansioso, o som do meu coração batendo forte ecoava em meus ouvidos. Parecia que um buraco se abrira no chão e meu coração continuava caindo por ele, me deixando tonta, quando Gabriel me segurou.
— Milady.
O tom com que ele me chamou era fervoroso.
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