Mesmo antes, eu já vivia enfiada no quarto, comendo e dormindo na cama, então ser trancada em uma cela não mudou muito a minha rotina, mas parece que o ambiente de uma prisão exerce uma influência psicológica negativa.
Isso só não foi pior porque Jelly trouxe minha cama e algumas roupas, caso contrário, eu teria passado meus dias no chão de terra, vestida com um vestido manchado de sangue. Se tivesse sido assim, eu já teria dado a mão para Jelly e fugido há muito tempo.
Ah, a propósito, ninguém confiscou as coisas que Jelly trouxe. Os guardas ficaram confusos com a mudança repentina no visual da cela, mas acabaram assumindo que algum dos vigias havia aceitado suborno para permitir a entrada dos itens.
Eles começaram a suspeitar uns dos outros e a criar um alvoroço, aumentando o número de guardas apenas para vigiarem uns aos outros; parecia um jogo de “Mafia” sem o próprio Mafia. Tcharam, o culpado era o moderador.
Enquanto eu lia o livro que Jelly me trouxe, pensando em bobagens, um guarda chutou as grades da cela. Ora, mas que sujeito insolente? Fechei o livro e olhei para ele. Pelo visto, era a hora da refeição.
“Sua vida parece bem confortável, não é?”
A voz sarcástica era familiar. De novo ele… Era aquele Cavaleiro Imperial que, por ser fã de Gabriel, estava profundamente ressentido comigo. Não sei se era por ciúmes de ter “perdido” Gabriel para mim, mas ele sempre demonstrava uma hostilidade imensa.
“Argenti, pare com isso.”
O outro cavaleiro que entrou junto tentou repreendê-lo, mas ele nem deu ouvidos.
“Quem trouxe os livros desta vez? É impressionante como a jovem lady nobre, protegida por um paladino, recebe um tratamento tão bom mesmo sendo suspeita de tentar assassinar um membro da família imperial.”
Foi o meu cachorrinho de estimação que trouxe, e daí?
“Você acha que vai continuar vivendo com tanto conforto? Em breve, sua cabeça será cortada. Ou melhor, como disseram que você praticou magia negra maligna, talvez você seja queimada viva.”
Pois é, seja por decapitação ou na fogueira, ambas são mortes clássicas para uma vilã.
“Como você vai morrer logo, não precisa de comida.”
O cavaleiro zombou de mim e jogou a refeição no chão. Trazer a comida só para jogá-la na minha frente… a falta de caráter é real? Você não sabe que, se morrer depois de fazer isso, vai ter que comer toda a comida que desperdiçou?
Esse tipo de bullying infantil deveria ter acabado no ensino fundamental, mas como este mundo de romance de fantasia não tem educação obrigatória, eles não se formam, e é por isso que um Cavaleiro Imperial acaba sendo desse jeito.
Os outros mal conseguiam me encarar de medo… será que ele não tem medo de mim? É a primeira vez que sou tratada assim desde que possuí o corpo de Evangeline. Ou talvez ele só se sinta seguro para atacar porque há grades, como se estivesse olhando para uma fera em um zoológico.
O cavaleiro fez um bico ao ver que eu não reagi. Não sei o que ele esperava, mas é só eu chamar Jelly mais tarde e comer a refeição que veio da Mansão Rohanson. É tão gostosa que nem dá para comparar com a comida da prisão, então não estou nem um pouco triste.
Realmente, a melhor forma de lidar com esse tipo de gente é não dar atenção. O cavaleiro, frustrado por ser ignorado, não teve escolha a não ser sair da cela quando o turno de troca chegou.
Os próximos da escala eram um cavaleiro sombrio e outro, corpulento, que parecia um gângster.
Mas, por algum motivo, o cavaleiro sombrio estava com o rosto cheio de gaze. Vendo-o mancar, parecia que ele tinha se envolvido em uma briga ou um duelo. O Império deve estar com uma escassez de pessoal bem séria para colocar alguém ferido para trabalhar.
O cavaleiro sombrio se aproximou mancando e limpou, de forma patética, a comida que o cavaleiro anterior havia derrubado. O outro, que entrou em dupla, não tinha nem camaradagem nem ética, apenas observando o colega ferido limpar tudo. Espera. Isso não é assédio moral no trabalho?
O gângster ficou parado na porta, observando, até que começou a cochilar. Depois, como se pretendesse dormir de verdade, pegou uma cadeira e se ajeitou.
“Estou de olho em você, não tente nada estúpido.”
O gângster murmurou para si mesmo, reclamando de sono, e começou a dormir profundamente encostado na cadeira. Ele roncava tão alto que dava para ouvir. É, já está quase amanhecendo, é normal ter sono.
Mesmo com o gângster dormindo, o cavaleiro sombrio continuava limpando o chão.
“Como você se machucou assim?”
Perguntei por compaixão, e o cavaleiro sombrio se assustou, olhando para mim. Depois, ele lançou um olhar cauteloso para o gângster que dormia.
Então foi aquele cara que bateu nele! Olha só como ele nem consegue falar, já que o agressor está logo ali… Deve ser assédio moral mesmo! Ver um abuso desses acontecendo bem na minha frente e estar trancada em uma cela, sem poder ajudar, é frustrante.
“…É por sua causa.”
O quê? Por minha causa? Olhei para ele, confusa, e o cavaleiro sombrio murmurou baixinho, destilando seu ressentimento.
“É por sua causa que estou assim. Disseram que fui eu quem aceitou suborno para permitir a entrada das coisas que estão dentro desta cela.”
Então, esse cavaleiro sombrio era a vítima injustiçada no jogo de “Mafia” sem o Mafia. Então a culpa é minha mesmo… Ele está sendo intimidado por minha causa? Minha consciência, que eu achei que já tinha desaparecido, deu um sinal de vida. Se eu conseguisse entrar em contato com Gabriel, acho que poderia resolver isso.
Mas Gabriel não veio me visitar… Como ele já tinha me contado segredos internos e até feito o pedido absurdo de ficarmos a sós, acho que as visitas foram proibidas.
Eu queria mandar um recado através de Jelly, mas ele reclamou que Gabriel não tem tempo sozinho e nem dorme, tornando a aproximação difícil.
Já que ele foi acusado injustamente, será que não posso pedir para ele entrar em contato com Gabriel para que ele não sofra mais? Será um pedido muito descarado?
Nesse momento, o gângster acordou. Ao ver o cavaleiro sombrio murmurando para mim, ele pareceu entender tudo errado, achando que eu estava conspirando com ele.
Fazendo jus ao seu apelido, o gângster agarrou o cavaleiro sombrio pelos cabelos e começou a agredi-lo. E fez questão de fazer isso bem na frente das grades, como se quisesse que eu visse.
“O que você está fazendo?”
Ver alguém sendo intimidado bem na minha frente me deixou furiosa, e eu o questionei rispidamente. Ele não é um Cavaleiro Imperial, mesmo que pareça um gângster? Um cavaleiro agredindo um colega?
“O que estou fazendo? Estou apenas ensinando boas maneiras.”
Ele não tem medo de uma vilã só porque estou trancada atrás das grades? Eu tenho uma arma secreta.
“Pudim.”
Minha nova arma secreta era o Pudim. Desde que ele se transformou naquele homem incrivelmente bonito, parece que alguma restrição foi removida e ele começou a usar magia à vontade. Talvez ele não tivesse capacidade mágica quando era pequeno, mas agora que cresceu, pode usar. Lembro-me de ter visto algo parecido em algum lugar.
Se a especialidade de Jelly era o teletransporte, a de Pudim parecia ser a invisibilidade. Ele não era visível, mas aparecia sempre que eu chamava seu nome para me ajudar. A especialidade do meu Jelly é o teletransporte, ele não consegue usar magia de invisibilidade. Ele diz que sua presença é grande demais para ser escondida. Ah, sim, entendi…
Pudim agarrou o gângster, que foi suspenso no ar. Ele começou a se debater, engasgando e segurando o pescoço como se estivesse sem ar. Que exagero. Não sei por que ele faz tanto drama, já que os pulsos do Pudim, que parecem frágeis, nem têm tanta força assim.
“Não acha que deveria começar tratando os outros com respeito?”
Espero que ele aprenda o valor da empatia. Pudim, talvez por ter visto isso em algum lugar, sacudiu o gângster de um lado para o outro de forma fofa antes de soltá-lo.
“Huf, huf. Argh.”
O gângster, talvez envergonhado pelo seu próprio exagero, caiu no chão e não se moveu mais.
“O que foi isso… Ele morreu?”
Impossível. Ele só está fazendo cena. Morrer? Nem pensar, o Pudim é tão bondoso que não mataria nem uma mosca. Bem, talvez não seja verdade, já que ele e Jelly costumam caçar na natureza, então eles matam animais. Mas isso é para sobreviver, eles não matam pessoas.
“Ele vai levantar logo.”
Assim que terminei de falar, o gângster se levantou cambaleando. Não sei se ele estava envergonhado pelo exagero ou se refletiu sobre o que fez, mas ele mantinha a cabeça baixa.
“Você nunca mais vai ousar agredir alguém, não é?”
Depois de sentir na pele o que é ser intimidado e ver como ele está cabisbaixo, ele certamente não vai mais incomodar ninguém. Pelo menos por um tempo, ele vai ficar quieto. E, nesse meio tempo, vou sugerir que ele mude de emprego. Os Cavaleiros Imperiais parecem estar todos fora de si, então vou perguntar se ele não quer trabalhar para o Gabriel. Vou começar expulsando esse gângster que ainda está de cabeça baixa.
“Por que você não vai embora?”
Se fosse eu, me esconderia em um buraco. Assim que dei a chance de fuga, o gângster saiu da prisão rapidamente. Agora, só restávamos eu e o cavaleiro sombrio na cela.
“Quer que eu te ajude?”
Mesmo com minha oferta, o cavaleiro sombrio hesitou. Seu bobo, peça ajuda quando precisar! Claro, entendo que ele desconfie de mim, já que sou suspeita de assassinar o Príncipe Herdeiro e estou trancada na prisão.
***
“Antenor e Polus, preparem-se para a troca de turno.”
Ao ouvirem o chamado, os chutes finalmente pararam. Antenor estava caído no chão, segurando o estômago onde foi chutado, ofegante. Logo acima, ouvia-se o som de risadas e conversas.
“Polus. O que você vai fazer se matar seu colega? Você não está indo longe demais ultimamente?”
“Não diga bobagens. Colega? Ele é só um sujeito sujo que se curva por dinheiro. É por isso que não se deve dar cargos importantes a gente de classe baixa. Tsc.”
Cuspiram no rosto de Antenor. Antenor não podia limpar a saliva suja com seu uniforme de cavaleiro, que ele tanto prezava, então esfregou o rosto no chão de terra. A areia grudou em sua bochecha por causa da saliva viscosa.
“Eu… já disse. Eu nunca aceitei suborno.”
“A cela virou uma pousada de luxo enquanto você estava de guarda e você quer negar? Que falta de vergonha.”
Polus zombou, estalando o pescoço grosso de um lado para o outro.
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