[pensamento]“Sir Gabriel?”[/pensamento]
Levantei-me de um salto e coloquei a mão no ombro de Hyssop. Ele estremeceu com o toque repentino.
— Obrigada, Hyssop.
Eu pretendia dar um tapinha em seu ombro junto com o agradecimento, como prometido, mas Hyssop congelou, como se não esperasse por aquilo.
Sem me importar se ele estava paralisado ou não, segui direto para o quarto ao lado. Ao abrir a porta, Gabriel estava deitado no leito.
— Sir Gabriel, você recuperou a consciência?
— …Lady Evangeline.
Seus longos cílios tremularam, revelando o brilho azul que se escondia sob eles.
— Aqui… parece ser o Ducado Hosaquin.
Gabriel observou os arredores, compreendendo a situação rapidamente. Ele mencionou que gostaria de agradecer ao Duque por fornecer um lugar para descansar, mas foi severamente repreendido pelo médico por se esforçar demais, considerando que acabara de escapar da morte.
Minha posição era a mesma. O Duque apenas cumpriu um acordo, então não havia necessidade de gratidão.
Além disso, embora estivesse consciente, o estado de Gabriel ainda era deplorável. Ele não conseguia andar direito e, embora pudesse mover os braços, o controle preciso dos dedos era impossível.
Quando perguntei se a recuperação total era viável, a resposta não foi um “sim”, mas um “farei o meu melhor”.
Como Gabriel havia acordado, discutimos suposições e contramedidas sobre como o Bispo Marik agiria daqui para frente.
Por ser um paciente, ele poderia simplesmente ficar deitado, mas Gabriel insistiu em se sentar. Pudim, cuja distância de Gabriel havia diminuído, ajudou-o a se levantar, apesar de parecer desgostoso.
Dispensamos os médicos, e Pudim e Kanna se juntaram a nós. Lico também estava presente.
— Aquele rato…
— É a Lico.
— Fico feliz que tenha acordado, Sir Cavaleiro.
— …Obrigado por se preocupar.
Gabriel, com um ar de quem não entendia nada, inclinou a cabeça em agradecimento ao rato. Lico, para não ficar atrás, retribuiu com uma reverência profunda.
Gabriel trocando cumprimentos com um rato era tão fofo que quase caí na risada, apesar da situação do paciente.
Conversamos sobre coisas que não tivemos tempo de discutir na prisão.
Quando mencionei que as pessoas da Mansão Rohanson seriam levadas para a vila indicada pelo Duque, Gabriel, com um tom de quem se sentia culpado, perguntou se eu poderia evacuar seus cavaleiros também.
— Meus subordinados devem estar no Condado Toten.
— No Condado Toten?
Eu me perguntava por onde andava a Ordem dos Cavaleiros de Phararos, e parece que Gabriel agiu antes do Bispo Marik.
Gabriel explicou por que estava sozinho na cela subterrânea do palácio imperial, enquanto seus cavaleiros haviam partido. Ele possuía uma constituição onde a Água Benta não tinha efeito, um fato que nem mesmo seus subordinados conheciam.
— Originalmente, apenas Rafaela sabia sobre o meu corpo.
Era evidente que Rafaela teve uma contribuição gigantesca para transformar alguém que se dizia amaldiçoado em um Comandante da Ordem. Sendo filho de um Duque e um Paladino, Rafaela não temia as consequências?
[pensamento]Para ser o ajudante do protagonista masculino, é preciso ter esse nível de coragem… De fato, o cargo mais extremo em um romance de fantasia é o de ajudante do protagonista.[/pensamento]
Enviei meus aplausos mentais para Rafaela, que ainda devia estar na Mansão Rohanson.
Gabriel percebeu que o Bispo Marik o encorajou prontamente a se tratar porque já conhecia sua constituição.
Se ele tivesse retornado ao templo com os cavaleiros para receber tratamento, como Marik sugeriu, e fosse descoberto que a Água Benta não funcionava no Comandante em quem todos confiavam, o prestígio de Gabriel cairia no abismo.
Até a base de apoio que lhe restava seria destruída. Por isso, Gabriel enviou os cavaleiros sob o pretexto de proteger o Condado Toten, especialmente o Jovem Mestre.
Ele mencionou que, quando seus subordinados tentaram ficar ao seu lado mesmo sem ele conseguir se mover, ele os ameaçou usando ordens e justificativas.
— Até pouco tempo atrás, não havia boatos de que o Jovem Mestre estava amaldiçoado? Eu disse que o Bispo Marik estava visando aquela criança.
Ele estava falando de Melek. Os cavaleiros justos, que se assemelhavam ao seu Comandante, não puderam ignorar o perigo da criança. Ele enviou até mesmo aqueles que queriam ficar.
Para o mundo exterior, a Ordem de Phararos havia fugido, abandonando seu líder. Marik deve ter pensado que seus desafetos haviam se dividido internamente. Além disso, como Gabriel permaneceu, os Paladinos não se deram ao trabalho de perseguir a Ordem de Phararos.
A Marquesa Toten também não tinha motivos para recusar. Como Melek não estava apenas amaldiçoado, mas era um demônio habitando um cadáver, o Condado seria reduzido a cinzas se o Bispo Marik o capturasse. Naquela situação, a proteção da Ordem de Phararos deve ter sido bem-vinda.
Não houve contato da Marquesa Toten, mas era óbvio que ela estava sendo cautelosa, já que minha caligrafia havia sido roubada anteriormente através das cartas que trocamos. Melek também não tinha como entrar em contato primeiro. Não havia necessidade de correr riscos desnecessários.
Prometi a Gabriel que também evacuaria a Ordem de Phararos.
— Então, por que o senhor estava na prisão em vez de ir para o templo?
O objetivo inicial do Bispo Marik era revelar ao mundo que Gabriel tinha um corpo amaldiçoado. Mesmo sem a Ordem de Phararos, não bastaria mostrar a outros cavaleiros ou clérigos que a Água Benta não funcionava nele?
Gabriel respondeu, desviando o olhar, parecendo sem jeito.
— …Como eu não podia ficar no templo com o corpo debilitado e ser usado pelo Bispo Marik, revelei minha identidade.
— Que você é um Príncipe?
— Sim.
[pensamento]Ele não queria ser usado, então revelou um segredo com ainda mais valor de uso… Não, se for o Bispo Marik, ele talvez já soubesse.[/pensamento]
— Eu declarei que o Bispo Marik me tirou secretamente de lá e me criou sem o conhecimento do Imperador. Descobri que o Sacerdote Berga, que me trouxe, já era um subordinado de Marik. Se minhas palavras estivessem erradas, eu seria um criminoso grave por fingir ser da realeza e deveria ir para a prisão; se estivessem certas, eu ainda seria da realeza e minha custódia pertenceria à Família Imperial.
Acima de tudo, se o nascimento de Gabriel fosse revelado, o Bispo Marik perderia sua reputação de devoto, e o nobre Bispo seria visto como alguém que finalmente sucumbiu ao poder.
A escolha do Bispo Marik era óbvia. Ele julgou ser mais vantajoso transformar Gabriel em um impostor da realeza do que se tornar a pessoa que sequestrou e criou um Príncipe secretamente.
Assim, Gabriel foi parar na prisão pelo crime de fingir ser da realeza. Embora ele fosse o próprio Príncipe, era quase milagroso que o boato sobre a personificação não tivesse se espalhado amplamente. Parece que o Bispo Marik silenciou a todos de forma impecável.
Quando a história de Gabriel terminou, foi a minha vez de continuar a explicação. Basicamente, compartilhei as informações que Jeremia havia extraído arriscando a própria vida.
No trecho em que mencionei que o paradeiro de Jelly era desconhecido, Gabriel ficou triste e tentou me consolar. Francamente, quem está consolando quem?
Ao contar que o Bispo Marik era a mesma pessoa que a criada chamada Saraka e descrever sua aparência, Gabriel respondeu que se lembrava da criada com a cicatriz de queimadura.
— Agora que penso nisso, já mostrei meu torso para aquela criada.
— O quê?
Involuntariamente, meu olhar se dirigiu ao peito de Gabriel. Ele acrescentou, apressado e confuso:
— Lady, eu jamais faria algo impuro.
Eu sei. Só fiquei surpresa por um momento.
Gabriel explicou que a criada que o auxiliou a trocar de roupa suja de vinho, no dia do aniversário do Príncipe Herdeiro, parecia ser o Bispo Marik.
— Ela pode ter percebido ao ver minha cicatriz naquela hora. Afinal, o Bispo Marik deve ter participado do processo de me marcar com o estigma.
Na verdade, mesmo sem a cicatriz, apenas olhando para o rosto dele, daria para notar que Gabriel tem o sangue da Família Imperial. Ele se parece com eles, por que ninguém percebeu? Será que só eu notei por ser uma possuída?
Tudo bem. Vamos aceitar que o Bispo Marik reconheceu que ele era um Príncipe porque deixou a marca da realeza em Gabriel há 26 anos.
A nova dúvida era sua aparência jovem, que parecia estar na casa dos 20 anos. O Bispo Marik deveria ser, no mínimo, um homem de meia-idade com mais de 50 anos, mas a aparência de “Saraka” era definitivamente jovem.
[pensamento]Será que, com Azazel por perto, o Bispo Marik convocou um demônio e pediu o desejo da juventude eterna? Se ele fez isso e ainda posa como o santo salvador da nação, é realmente uma fraude nacional sem precedentes.[/pensamento]
Gabriel encontrou uma resposta mais plausível que a minha. Ele contou que já havia lido em livros antigos guardados no templo que, quando a influência do Deus Sol era grande, aqueles que recebiam o favor divino desfrutavam de uma vida longa, quase imortal.
O slogan do Bispo Marik era justamente ser o “Favorito de Deus”. Como diziam, ele poderia não envelhecer por receber as bênçãos divinas em seu corpo.
Talvez o motivo de o Bispo Marik andar com o rosto coberto fosse para esconder o fato de que não envelhecia. Claro, isso não passava de uma hipótese.
— Por que alguém que recebe tal favor cometeria massacres?
Kanna, que ouvia atentamente ao lado, não conseguiu esconder seu sentimento terrível e soltou um lamento. Havia um toque sutil de inveja em suas palavras.
Considerando o passado de Kanna, que passou a vida inteira sofrendo em um leito, as ações do Bispo Marik deviam parecer extremamente hipócritas.
— Pode ser justamente por causa disso.
— Por quê?
— Ele mata pessoas para provar esse favor. Como os hereges não são filhos de Deus, matá-los não é pecado. Se ele comete massacres e nada muda em seu status, que prova de favor divino seria mais clara do que essa?
— Que pessoa devota.
Kanna ironizou o Bispo Marik com admiração sarcástica. Gabriel assentiu, concordando.
— O Bispo Marik parece ser alguém dedicado ao templo em vários aspectos. Tanto o massacre de hereges quanto o toque na realeza visam, em última análise, elevar o nome do templo.
As palavras de Gabriel pareciam uma interpretação construída ao longo de muito tempo.
Como exemplo, a quantidade de Água Benta em posse do templo aumentou drasticamente. Quando se mata hereges, aqueles que não querem morrer demonstram uma fé ainda maior. Quando a fé aumenta, a Água Benta aumenta.
Aqueles que são curados através dessa Água Benta demonstram uma fé ainda maior. O ciclo se repete, e o templo alcançou recentemente sua maior restauração em 20 anos.
— As ações do Bispo Marik são ainda mais temíveis porque parecem desprovidas de interesses pessoais.
Gabriel estava certo. O “bem maior” era temível justamente por isso. Porque fazia com que os assassinatos e as ações cometidas pelo Bispo Marik parecessem justificados.
O mais irônico era que as pessoas que deveriam ser eliminadas do ponto de vista do Bispo Marik e do templo estavam reunidas ao meu lado.
Evangeline Rohanson, a Bruxa de quem o Bispo Marik falava.
Gabriel, que foi abandonado por não ser afetado pela Água Benta, mas enganou o templo e se tornou um Paladino.
O gato monstro, hospedeiro de um demônio.
Kanna, além de ser a criada da bruxa, era alvo de boatos de que seu pescoço fora cortado e colado de volta por causa da cicatriz. Nem que ela fosse um Dullahan…
Não sei como, mesmo sem eu pretender, formamos um grupo que se opõe tão drasticamente ao Bispo Marik.
— …O Bispo Marik gosta de coisas simbólicas. E é um excelente roteirista. Assim como definiu o dia da morte do Príncipe Herdeiro como o dia de seu nascimento, há uma alta probabilidade de que ele faça algo em uma data monumental.
Gabriel perguntou a data de hoje. Quando respondi, ele contou os dias e mordeu o lábio com força.
— Coincidentemente, daqui a dez dias. Haverá um evento muito significativo.
— Qual seria?
Dez dias era um prazo muito mais curto e urgente do que eu imaginava. Era estranho que houvesse tal evento e eu nunca tivesse ouvido falar. Gabriel respondeu com a voz sombria:
— É o [glossario termo=”Um ritual ou festival religioso onde sacrifícios são oferecidos à divindade, muitas vezes com conotações sombrias ou proféticas no contexto da história.”]Rito de Sacrifício[/glossario].
Era um evento que soava sinistro apenas pelo nome.
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