‘Vamos acabar com isso de uma vez!’
Talvez o diário que não encontrei ontem apareça. Já revirei o quarto da Evangeline, então vamos vasculhar os outros cômodos.
Aqui é o banheiro, aqui é a lavanderia, aqui é a sala de visitas e, ah! É aqui!
A porta estava emperrada e foi difícil abrir, mas parecia ser um depósito. Havia objetos cobertos por panos e caixas de madeira, não de papel, contendo artigos diversos. Uau… como eles fazem para se mudar daqui?
As coisas cobertas por panos eram todas pinturas. Enquanto procurava, encontrei tintas também; parece que Evangeline tinha o hobby de pintar. Havia uma estante de livros, então devia ser um ateliê e sala de leitura ao mesmo tempo. Com razão as cortinas estavam fechadas.
Deixei as pinturas de lado e examinei os livros. Não sei ler as letras, mas como o diário foi escrito à mão, deve ter um aspecto diferente. Então, fisguei um peixe grande! A capa é bem preta, o que é um pouco estranho, mas com certeza foi escrito à mão. Havia até marcas de tinta borrada. Ao ver os números escritos no topo, tive cem por cento de certeza.
Folheei as páginas rapidamente e algo estranho caiu. Seria um bilhete? Peguei o papel.
‘Um Círculo de Conjuração?’
Um padrão geométrico dentro de um círculo. Isso é cem por cento um círculo de conjuração! Um círculo de conjuração saiu de um diário maluco!
Ao ver isso, percebi que o lugar onde possuí um corpo parece ser uma novel de época. Hoje em dia, não se costuma fazer contratos com seres não humanos.
Não hesitei. Vou desenhar o círculo de conjuração. Quer apareça um espírito ou um dragão, preciso desenhar. Uma vilã precisa de pelo menos uma habilidade para proteger o próprio corpo.
Por sorte, havia tintas. Não tinha telas vazias e não vi nenhum papel adequado, então decidi desenhar no chão. Geralmente, esse tipo de coisa é desenhada no chão mesmo.
Com medo de que a tinta acabasse, decidi usar a vermelha, que era a que tinha em maior quantidade. Como os pincéis estavam todos secos e rígidos, apenas mergulhei os dedos na tinta.
Primeiro, desenhei um círculo grande, depois um triângulo, uma estrela… e está cheio de letras também. Enquanto desenhava com afinco, espetei a mão no piso de madeira. Felizmente não entrou farpa, mas sangrou. Como isso doía absurdamente, terminei o resto com um pincel rígido. Mesmo sendo desconfortável, deu para desenhar. Devia ter feito isso desde o início. Quem não tem cabeça, sofre com o corpo.
‘Terminei!’
Estava um pouco torto e estranho, mas desenhei tudo! Achei que, como nas novels, algo saltaria imediatamente ou haveria alguma mudança, mas nada aconteceu. Será que preciso terminar o desenho e recitar um encantamento? Abaixo do círculo de conjuração chamativo desenhado no papel, há um encantamento escrito, mas… de que adianta? Eu não sei ler!
Já que deu trabalho desenhar, vou apenas balbuciar qualquer coisa.
“Rei dos Espíritos? Espírito? Dragão? Ei…?”
Nada aconteceu.
“Ei… eu quero fazer um contrato, alguém poderia aparecer?”
Não adiantou nada implorar de forma patética. Pelo visto, preciso mesmo recitar o encantamento. Vou aprender a ler e tentar de novo. Que mundo de merda é esse onde um analfabeto nem conjurar consegue?
***
O Conde Rohanson olhou para a criada à sua frente.
Embora não fosse uma criminosa, Daisy estava de olhos fechados, tremendo e curvando a cabeça. Considerando que o Conde Rohanson à sua frente não era um empregador cruel com seus funcionários, ela parecia estar com mais medo do que o necessário.
E não era para menos, já que Daisy serviu a senhorita Evangeline de perto nos últimos dois dias. Como a aparência externa era muito semelhante, independentemente do que estivesse dentro, ela deve ter vislumbrado fragmentos da senhorita no Conde Rohanson.
O Conde Rohanson, que sabia bem disso, não repreendeu a criada. A Daisy à sua frente era alguém que, independentemente do status, era muito próxima de sua falecida filha, e por isso se voluntariou prontamente para servir ‘Aquilo’. O Conde Rohanson abriu a boca lentamente.
“Então. O que Aquilo tem feito?”
“Ela perguntou sobre a senhorita Evangeline. Quantos anos ela tinha, como era a relação familiar. Se havia alguma comida favorita ou hábitos frequentes. E ela age como se fosse a verdadeira senhorita. Quando eu disse que a senhorita costumava sair para caminhar às 8 horas, ela disse que faria o mesmo. Ela vestiu as roupas da senhorita e caminhou…”
A expressão fofa, cheia de sardas, se contorceu. Os cílios que ela mantinha fechados tremiam. Daisy falou como se estivesse fazendo uma confissão a um padre.
O grito cheio de rancor foi morrendo e desaparecendo. ‘Parecia que Aquilo queria se tornar a senhorita Evangeline.’ Ela não completou a frase porque percebeu que tinha sido emocional demais. Afinal, quem mais considerava isso terrível era o pai de Evangeline, o Conde Rohanson.
“Ela não parecia se importar se as criadas que a viam desmaiavam ou não.”
Não era só isso. Daisy lembrou-se da senhorita Evangeline observando a criada que foi levada com a boca amordaçada. Ela gritava desesperadamente por socorro, mas a emoção contida nos olhos vermelhos que observavam aquilo era claramente de aversão. Havia um desprezo, como se olhasse para uma minhoca se contorcendo na beira da estrada.
A senhorita Evangeline que Daisy conhecia não era assim. Aquela garota frágil, mesmo que adoecesse, não conseguia dizer uma palavra dura a ninguém. Se ela quisesse se tornar a senhorita, não deveria olhar para as pessoas com tanto desprezo. Não olhe assim. Daisy abaixou a cabeça, com medo de que seus olhares se cruzassem. Aliás… Aquilo, aqueles olhos, ainda estariam me observando?
“Então, de repente, ela disse que queria aprender a ler.”
“Ler?”
Daisy assentiu e continuou.
“Ela disse que, como perdeu a memória, não se lembrava das letras e pediu para eu comprar livros.”
Como Daisy prometeu servir Aquilo, ela não podia ir comprar livros, então, para pedir a outra pessoa, ela se ausentou brevemente apenas para transmitir o recado.
Naquele curto intervalo, o quarto estava vazio. Pensando que ela poderia ter fugido com o corpo da senhorita, ela revistou todo o quarto andar. E viu que o último quarto estava aberto. Era o quarto que a senhorita não permitia que ninguém entrasse. Como não conseguia encontrar a chave, ela tinha deixado como estava. Surgiu uma dúvida momentânea sobre como ela abriu, já que estava trancado.
A porta estava entreaberta, apenas uma fresta. Se abrisse mais, faria barulho. Então Daisy também receberia aquele olhar de desprezo. Ela prendeu a respiração e espiou o quarto pela fresta. Aquilo estava claramente segurando um livro.
“Como ela não sabe ler, o pedido para comprar livros foi claramente uma mentira para me afastar. Quando voltei, vi ela lendo. E, e…”
O que aconteceu depois disso veio à tona vividamente. Ela queria esquecer, mas quanto mais tentava, mais nítido ficava.
“Estava saindo sangue dos dedos dela. Parece que ela desenhou um padrão no chão com aquele sangue. Era um desenho que causava desconforto só de olhar.”
Ela desenhava no chão com os dedos, mas fazia um som áspero. Parecia o som de unhas arranhando o chão violentamente.
“E depois que terminou de desenhar, ela murmurou algo. O que ouvi com certeza foi… apenas ‘contrato’.”
O som não estava claro. Daisy aproximou mais o ouvido da porta. Então, acidentalmente, empurrou a porta levemente. Ela rezou para que Aquilo não tivesse percebido. No entanto, seus olhos se encontraram. Aterrorizada, Daisy fechou os olhos com força. E isso foi tudo o que Daisy viu.
“Um contrato, é…”
O Conde Rohanson acariciou o queixo. Um padrão desenhado com sangue e um contrato. Por mais que pensasse, não parecia uma situação muito boa. Que tipo de feitiço seria? Ele já estava angustiado por causa daquilo que entrou no corpo de sua filha, e agora não seria que outro monstro invocado com sangue apareceria?
O Conde Rohanson suspirou. Tudo isso porque sua filha cometeu suicídio. Como o templo não realizou o funeral e nem pôde ser sepultada, um espírito maligno se alojou naquele corpo. O problema era que nem mesmo com Água Benta aquele espírito maligno podia ser expulso.
Sem solução, não havia escolha a não ser continuar vigiando. Ele ia encorajar Daisy a aguentar mais alguns dias, mas a imagem da criada, que ainda mantinha os olhos fechados com força, tornou-se subitamente intrigante.
“Mas por que você está de olhos fechados desde agora?”
“Como assim por que? É óbvio que é porque estou com medo. Aquilo continua me olhando. Conde.”
Daisy, por sua vez, perguntou de volta como se estivesse intrigada. Olhando? O Conde virou a cabeça de repente.
E encontrou o olhar de olhos aglomerados que o observavam.
***
Fui escolhida por um gato de queijo com padrão de leopardo e três olhos. Que qualidade de Isekai é essa…? Por que até o gato é extraordinário?
Não sei de onde ele entrou, mas quando acordei, ele estava deitado na cama comigo. Será um gato criado no Condado? Vou perguntar à criada que veio me servir.
Mas é uma pessoa diferente da anterior. Bem, como o trabalho deve ser ocupado, eles devem fazer um rodízio.
“Tem muitos gatos no Condado?”
“Gatos? Faz tempo que matamos todos.”
Mataram todos?
A criada explicou que foi por causa de uma epidemia causada pelos gatos. Parece que uma doença como a Peste Negra também se espalhou por aqui.
Miau.
“…Você não ouviu um miado de gato?”
“Não ouvi nada.”
“Que estranho… ouve-se tão perto.”
Tentei desesperadamente fingir que não sabia. É claro que ouve-se perto! Não! Bebê, não chore! Se você chorar, vão descobrir! Você vai morrer!
Felizmente, a criada foi embora sem revistar o quarto.
Uau, achei que meu coração fosse sair pela boca. Eu era do tipo que se opunha a adotar animais de estimação sem a permissão da família…! Eu odiava conteúdos que mostravam o cotidiano de ‘meu pai, que era contra gatos, agora está…!’. De que adianta? Eu me tornei a pessoa que pegou um gato na rua sem o consentimento da família!
Não, mas dizem que eles morrem! Disseram que mataram todos por causa da epidemia, então a família dele também deve ter morrido. Será que não posso criá-lo depois de passar por uma boa inspeção com o padre e o médico? O gato de estimação da filha do Conde não será morto, certo?
Primeiro, preciso pedir permissão ao Conde.
Ele disse que estava no escritório? Ainda bem que me lembro pelo menos de onde fica o quarto. Desci as escadas e fui em direção ao segundo andar. Bati na porta e o mordomo apareceu.
“Quero ver o Conde.”
“Vou perguntar um momento.”
O mordomo voltou logo em seguida.
“Sinto muito, senhorita. O Conde disse que está ocupado agora e não pode vê-la.”
“É mesmo?”
Uau. O pai da vilã é realmente terrível. Já sabia disso desde que ele não veio me ver nem uma vez, nem jantou comigo, mesmo depois que a filha morreu e voltou à vida. Ele me dá um fora mesmo eu vindo procurá-lo? É por isso que a filha se tornou uma vilã. Dizer que está ocupado demais para ver não é uma desculpa?
“Se tiver algo a dizer, pode dizer a mim.”
O mordomo curvou a cabeça. O que a Evangeline fazia para receber uma reverência de noventa graus de um idoso? Coloquei a mão no ombro dele para que se levantasse, e o mordomo se assustou. Ah, eu não vou bater!
“Quero criar um gato.”
“Um gato…?”
“Não pode?”
“Não…”
Isso! Consegui a permissão!
Voltei com passos leves, cantarolando.
“Seu nome é Pudim!”
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