O que foi que ele disse agora há pouco? O Ducado Hosaquin? Caramba. Eu não esperava ouvir sobre a família materna de Evangeline aqui. Nem no diário estava escrito com precisão, e como Kanna e Hena também não sabiam, eu não tinha a quem perguntar.
Mas olhe só o jeito que ele fala, esse canalha. Achei que ele estivesse apenas tentando flertar, mas estava tentando criar um senso de cumplicidade falando mal dos outros pelas costas.
Ele falou mal de mim e ainda humilhou Kanna e Hena. Dois coelhos com uma cajadada só. A etiqueta aristocrática é assustadora.
‘Mas, afinal, por que Gabriel não vem?’
Eu estava pensando se teria que continuar ouvindo as críticas a meu respeito, quando, na hora certa, Gabriel apareceu ao longe. Gabriel, entre em ação logo! Salve a Kanna! Eu estava torcendo com todas as forças, mas Gabriel nem se moveu. Pelo contrário, parecia estar observando Kanna. Ei, ei, o que esse cara está fazendo? Por que não a impede?
Não me diga que ele está agindo assim porque se apaixonou por mim em vez da Kanna, né? Mesmo que ele seja um homem que só é gentil com a sua mulher, ele é um cavaleiro, deveria ter um mínimo de ética profissional.
Gabriel não dava sinais de que iria intervir, enquanto Kanna mantinha a cabeça baixa, como se estivesse ferida, e Hena, ao lado dela, parecia inquieta.
Não aguentei mais ver aquilo e me levantei. Mesmo que eu tenha possuído este corpo e a história tenha se transformado em um romance de fantasia com uma vilã, o tratamento dado à protagonista original não é exagerado demais?
— Vamos descer.
Minha voz saiu grave, talvez pela irritação. Percebendo meu mau humor, Jelly, que estava atento, abriu a porta da carruagem rapidamente.
Assim que a porta se abriu de repente, o cocheiro, que estava parado à frente cuidando dos cavalos, levou um susto e caiu sentado.
— …Por, por que a senhorita?
É. De repente, Evangeline sair de uma carruagem que parecia vazia assustaria qualquer um. Peguei um táxi lobisomem, tá bom! Como é urgente, explico depois.
Jelly desceu primeiro e me escoltou. Como havia muitos nobres por perto, ele parecia preocupado em manter as aparências. Pensando bem, ele parece mais um mordomo faz-tudo do que um membro de um harém reverso.
Segurei a mão de Jelly, desci e abri a sombrinha. Ele tem bom gosto, a sombrinha era bem bonita.
Além disso, como Jelly é muito bonito, os olhares das pessoas já estavam concentrados em nós. E Evangeline também é bonita o suficiente para fazer jus ao nome de vilã.
Quando o ambiente ficou em silêncio, Kanna e Hena também se viraram.
— …Senhorita.
— Milady!
Hena parecia aliviada, como se tivesse visto uma salvadora, e Kanna, que estava abatida, abriu um sorriso radiante ao me ver. Caminhei a passos largos e parei diante das duas.
— …Se, senhorita Rohanson?
Isso mesmo. Sou a senhorita Rohanson, aquela de quem você estava falando mal com tanto empenho até agora! Ele gaguejou, provavelmente sem imaginar que a própria pessoa apareceria.
— Vo, vocês vieram juntas? Mas por que desceram tão tarde…?
Traduzindo para a linguagem de romance de fantasia: se você tivesse descido da carruagem e mostrado o rosto antes, eu saberia que você estava aqui e não teria falado mal de você, é isso que ele quer dizer.
— Minha saúde é frágil, então estava descansando um pouco na carruagem. E o senhor é…?
— Ah. Peço perdão. Sou Anulen Benzen, do Marquesado Benzen.
Droga. Achei que fosse apenas um figurante, mas parece ser o filho de um marquês. O que eu faço! Evangeline é filha de um conde, então perde em poder! Ele tem um status social mais alto que o de Evangeline. Não, por que Evangeline é uma vilã, mas não é uma duquesa? Ah, é por isso que o Ducado Hosaquin é a família materna.
— Mas, jovem mestre, sobre o que você estava conversando com as minhas criadas?
Não sei, que se dane. Como achei que o tempo estava curto, decidi abandonar a rota da neta que se torna próxima do avô, mas parece que não deveria ter feito isso. Embora pareça que eles cortaram relações, vou ter que conviver e interagir um pouco mais no futuro.
***
— Como vi que as duas pareciam estar de primeira viagem, tentei oferecer ajuda.
— Aha…
Olha só, veja como ele tenta se esquivar. Eu ouvi tudo, como ele tem a cara de pau de mentir assim!
— Eu pensei que você estivesse fazendo piadas envolvendo o Condado Rohanson e o Ducado Hosaquin.
Como o status de um condado não era suficiente, ele mencionou até o ducado. Anulen empalideceu ao perceber que eu tinha ouvido toda a conversa. Falar mal dos outros pelas costas é algo que qualquer um pode fazer, mas considere-se azarado por ter sido pego justamente por mim.
— Por acaso, minhas roupas também são humildes demais para o templo?
Eu também não comprei roupas novas e saí usando um vestido simples, sem um único enfeite, que estava jogado no fundo do closet. Ao ver as pessoas no jardim, percebi que, com suas roupas luxuosas, apenas eu e minhas meninas parecíamos deslocadas.
Tentei me vestir assim de propósito para me livrar da imagem de vilã, mas fiquei irritada ao ver que, como Anulen disse, parecia que o condado era pobre. Eu também tenho dinheiro!
— Qual é a resposta?
Anulen Benzen tremeu, sem esperar que eu fosse perguntar na lata. Ele acha que se fingir de assustado eu vou perdoá-lo? Eu disse que ia escapar do papel de vilã, mas isso não significa que eu seria uma idiota, certo? Não vou recuar até ter uma resposta.
Enquanto eu observava Anulen Benzen em silêncio, Gabriel, que estava parado ao longe, apareceu tardiamente.
— De forma alguma. O Grande Templo sempre dará as boas-vindas à senhorita.
— Sir Gabriel!
— Você deve ser o jovem mestre Benzen.
Anulen Benzen exclamou, contente.
Ele não salvou a Kanna e ficou apenas observando, mas apareceu assim que eu saí? E olha que eu até mandei uma carta pedindo para ele cuidar bem das meninas!
— Não sabia que viriam juntos.
Eu também não queria vir, mas foi bom ter vindo. Gabriel é realmente um fracasso como protagonista masculino. Bem, ele já era um fracasso desde o momento em que se apaixonou por mim, deixando a protagonista de lado!
— Ah… Vocês dois se conhecem?
— Sim. Eu a convidei, dizendo que a guiaria, senhorita Rohanson. Como me atrasei, o jovem mestre Benzen estava fazendo as honras. Agradeço a ele.
— Não, não há de quê. Se fui útil ao senhor, é uma honra.
Anulen Benzen curvou-se e aproveitou a oportunidade para fugir rapidamente. Não vou esquecer esse rancor. Enquanto eu observava as costas de Anulen Benzen, prometendo a mim mesma que veríamos isso depois, Gabriel chamou minha atenção.
— A senhorita veio para ver as pinturas?
Gabriel mantinha uma atitude cortês. Se eu não tivesse visto a cena de pouco tempo atrás, onde ele ficou em silêncio enquanto a protagonista era humilhada, eu teria pensado que ele era um personagem realmente sério.
— Não. Como eu estava preocupada em enviar as duas sozinhas e também estava curiosa sobre o Grande Templo. Como sabe, minha saúde não tem estado boa e recebi bastante ajuda.
Pensando bem, a culpa não é do Gabriel. Ele não escolheu as próprias configurações de personalidade. É apenas porque o personagem foi construído como um cavaleiro taciturno que só é caloroso com a sua mulher. É isso, que vontade própria ele teria?
Acho que me envolvi demais. Pensar assim me acalma.
No fim das contas, se for para culpar alguém, a culpa é minha por ter roubado a rota. Não é culpa do Gabriel, que é um bobo apaixonado por uma vilã e ignora a protagonista original.
— Enquanto elas olham as pinturas, eu poderia fazer uma oração?
Então, vou cobrar isso lá em cima. Já que vim ao templo, pelo menos vou rezar. Se der sorte, como um privilégio de quem possuiu um corpo, talvez eu consiga até conversar com um deus.
***
A porta da carruagem do Condado Rohanson se abriu. Hena ficou chocada ao ver a senhorita Evangeline aparecer de uma carruagem que deveria estar vazia. Evangeline Rohanson pisou no chão, escoltada pelo monstro que a senhorita chamava de ‘Jelly’.
Com uma sombrinha branca, cabelos brancos e um vestido de chemise imaculado, Evangeline Rohanson estava toda de branco.
A luz do sol se espalhava sobre a cabeça de Evangeline. Mesmo com o sol brilhando no céu, parecia que a noite havia caído de repente. Todos os sentidos desapareceram e apenas Evangeline Rohanson permanecia nítida.
— Milady!
Kanna chamou a senhorita Evangeline, cheia de alegria.
A senhorita Evangeline, que apareceu atraindo todos os olhares, caminhou a passos largos e parou diante de Hena e Kanna. Quando a senhorita se aproximou, os olhares que antes os ridicularizavam desapareceram. Pelo contrário, as pessoas mal respiravam para não serem notadas pela senhorita.
Hena fez uma reverência, agradecida pela senhorita ter aparecido no momento certo, embora não soubesse por que ela, que dissera que não viria ao templo, mudara de ideia.
Se a senhorita tivesse chegado um pouco mais tarde, Anulen teria… Hena balançou a cabeça ao pensar nisso. Não havia como seu irmão fazer algo assim.
Como Kanna cresceu apenas em casa e não conhece o mundo exterior, ela deve ter sido apenas um pouco insolente por não saber como tratar os nobres. Que força Kanna teria para tentar ferir um homem? Não havia como isso acontecer.
***
— Sou Uriel, senhorita.
— Uriel a guiará até a sala de orações.
A senhorita disse que faria uma oração em vez de visitar o templo. A imagem da senhorita rezando parecia, de certa forma, profana e, por outro lado, parecia uma pintura clássica.
A senhorita se separou deles, guiada pelo cavaleiro chamado Uriel, que Gabriel havia designado.
— Eu guiarei vocês duas.
Gabriel também se ofereceu para guiar Hena e Kanna.
O Grande Templo é muito luxuoso. Talvez por ter o templo luxuoso como pano de fundo, Gabriel, vestindo seu uniforme branco, parecia particularmente delicado e esplêndido. Ou talvez fosse porque, como eu só o via ao lado da senhorita, sua presença só se tornou evidente depois que ela se afastou.
Hena cerrou e abriu os punhos, tensa, observando as costas de Gabriel enquanto ele caminhava à frente.
Pouco antes, quando todos explodiram em risadas no jardim, Gabriel estava observando Kanna. Gabriel também parecia ter notado a estranheza de Kanna. Foi por isso que ele se ofereceu para nos guiar, e não a senhorita.
A senhorita mencionou o histórico de doenças de Evangeline no passado para dizer que iria rezar, e como ela não agiria de forma rude enquanto estivesse encenando a oração no templo, tudo ficaria bem.
— Como está o progresso do caso?
— Tentei dar o meu melhor, mas, infelizmente, não há avanços. Pelo contrário, o boato acabou se espalhando…
— Então, essas pessoas também vieram para ver as pinturas?
— Sim. A maioria delas.
Seguindo a orientação de Gabriel, eles entraram no Grande Templo.
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