Não se passou nem um dia desde que Evangeline Rohanson foi trancada na cela, e o interior da prisão, antes desolado, tornou-se aconchegante. Alguém certamente aceitou suborno de Rohanson e fez vista grossa para a entrada dos móveis. O principal suspeito disso era Antenor.
No entanto, Antenor jamais recebeu suborno nem ajudou na entrada de qualquer mobília. Polus, furioso, agiu como se fosse chutar Antenor novamente. Foi o superior deles quem impediu o início de mais uma rodada de violência.
— O que estão fazendo! Por que não vão logo fazer a troca?
Polus afastou-se, contrariado, e diante da ordem apressada, Antenor cerrou os dentes e levantou-se do chão de terra.
Antes mesmo que os ferimentos que Antenor sofrera ontem pudessem cicatrizar, novos cortes cobriram seu corpo. Talvez por ter sido chutado no lugar errado, cada vez que pisava no chão, suas articulações latejavam, forçando-o a caminhar mancando. Ao arrastar seu corpo destruído para o subsolo, Argenti, que esperava pelo turno, deu tapinhas no ombro de Antenor com um sorriso debochado.
— Deve ser difícil, mas bom trabalho. Ah, eu sujei um pouco o chão, você poderia limpar para mim, Antenor? Se for muito para você fazer sozinho, pode chamar o pessoal da Rohanson.
Os cavaleiros riram como se tivessem ouvido uma piada brilhante. Antenor rangeu os dentes enquanto observava as costas de Argenti subindo as escadas com total desleixo.
— Parece que o Argenti fez uma bagunça de novo. Limpe isso logo.
Parecia que Argenti havia virado toda a refeição destinada a Evangeline Rohanson no chão. E cabia a Antenor limpar aquela sujeira. Polus agia como se o lixo que sujava o chão representasse a integridade de Argenti.
Antenor sempre fora um pária, mas desde que Argenti começou a demonstrar hostilidade abertamente, a violência física tornou-se muito mais brutal. Todos haviam se aliado a Argenti. Ele era sobrinho distante de Sir Muzeta, desfrutava do favor dos superiores e sua família de origem também não era qualquer uma.
Em comparação, o que era Antenor? Seus pais eram meeiros no campo, e por ter uma personalidade difícil, em vez de ser querido, era tratado como um espinho nos olhos.
Um cavaleiro plebeu com cheiro de pobreza. Um idiota sem jeito cuja única característica era ser obstinado. Um meio-termo que vendeu a honra por ganância. O capacho da ordem que não recusava nenhum trabalho sujo. Era assim que Antenor era chamado.
Por isso, ele admirava Sir Gabriel.
Mesmo vindo de um histórico diferente, Gabriel era alguém que, sendo órfão e sem apoio familiar, ascendeu sozinho ao posto de Comandante da Ordem. Sir Gabriel era verdadeiramente incrível. Até mesmo tipos sujos como Argenti o admiravam. Antenor projetava a si mesmo em Sir Gabriel, imaginando que, se aguentasse firme naquela ordem imunda, um dia chegaria o dia em que seria recompensado.
No entanto, Sir Gabriel estava arruinado. Será que se pode chamar de paladino alguém que abandonou o deus e escolheu a luxúria? Pode-se chamar de cavaleiro alguém que abandonou suas convicções?
Tendo perdido tanto a religião quanto a cavalaria, Gabriel não passava de um tolo que nem o título de “Sir” merecia mais. E a existência que transformou Sir Gabriel em um mero idiota estava bem diante de seus olhos.
Alguns diziam que ela era uma bruxa que enfeitiçou o paladino, outros diziam que era um demônio atroz que assassinou o Príncipe Herdeiro.
A forma como ela estava recostada no sofá, virando as páginas de um livro com total tranquilidade, transmitia tanta leveza que parecia que não era Evangeline Rohanson quem estava presa na cela, mas sim o próprio Antenor, que limpava o lixo e recolhia os restos.
— Ghrrr… Snore…
Dizendo que havia passado a noite em claro em uma mesa de jogo, Polus, ao contrário de sua bravata de que vigiaria Antenor rigorosamente, começou a cochilar sentado na cadeira.
Exceto pelo som do ronco de Polus, o subsolo estava extremamente silencioso. Teria continuado assim, se Evangeline Rohanson não tivesse falado de repente.
— Como você se machucou desse jeito?
A voz que enganava Antenor sussurrou. Como ele se machucou? Por causa de quem ele estava ferido?! Não era porque Evangeline Rohanson trouxe móveis por conta própria e a culpa recaiu sobre o inocente Antenor?
— É por sua causa.
Antenor, que despejava sua raiva em Evangeline, pensou ter gritado alto demais por estar excitado demais e desviou os olhos para verificar Polus. Então, seus olhos encontraram os de Polus, que estava com os olhos bem abertos. O rosto desagradável estava enrugado e ele sorria amplamente, imerso em êxtase. Agora que pensava nisso, quando foi que o ronco parou?
— O que vocês dois estão conversando secretamente? Veja só. Eu sabia que vocês estavam conspirando.
Polus pisou na cabeça de Antenor, esmagando-a contra o chão. Em seguida, puxou-o pelos cabelos e levou-o até a frente das grades. Como não podia tocar em Evangeline diretamente, ele descarregava sua raiva daquela maneira.
— Jovem Lady Rohanson. Veja bem, ele está apanhando por sua causa.
Pela visão turva de Antenor, ele viu Evangeline. Mesmo sendo um subsolo escuro, dependente apenas de uma vela fraca, ela era excepcionalmente nítida e brilhante. Seus olhos vermelhos encontraram os dele. Era uma cor assustadora apenas de olhar. Quando o sorriso desapareceu, o lado cru escondido sob a pele revelou-se. Uma bruxa que enfeitiçou Sir Gabriel? A verdadeira natureza de Evangeline não era algo que pudesse ser subestimado daquela forma.
Evangeline não era um ser que pudesse ser menosprezado com a palavra “enfeitiçar”, pois ela existia para ser adorada. Quando uma leve insatisfação surgiu em seu rosto indiferente, Antenor sentiu vontade de se enforcar para pedir perdão.
Antenor passou a temer mais os olhos de Evangeline do que Polus, que o agredia naquele momento.
Uma existência tão avassaladora e bizarra estava contida em um corpo frágil, sentada calmamente dentro da cela. Será que os outros pensavam que meras grades de ferro poderiam restringir Evangeline Rohanson?
Deve ter sido por isso que Argenti pôde zombar dela virando a comida, e Polus pôde relaxar e cair no sono. Estupidamente, o próprio Antenor não pensara da mesma forma até agora e ficara com raiva?
Na verdade, as grades não exerciam nenhum poder de restrição sobre Evangeline Rohanson.
— Argh… O, o que é isso…!
O corpo de Polus começou a ser lentamente erguido no ar. Ele agarrou o pescoço, sofrendo como se estivesse sendo estrangulado por mãos invisíveis. Polus tentou soltar o que apertava seu pescoço, mas como não havia nada para agarrar, ele apenas arranhava a própria pele.
Evangeline inclinou a cabeça enquanto observava Polus sofrer. Seu cabelo fluiu suavemente para o lado conforme o movimento.
— Não seria o caso de começar tratando os outros com cortesia?
Ela estava se vingando da frase “tratar com cortesia” que Polus usara há pouco, enquanto enterrava a cabeça de Antenor no chão. Não, na verdade, talvez ele estivesse pagando o preço por ter sido insolente com Evangeline.
Polus derramou lágrimas. Parecia que as vértebras de seu pescoço iriam quebrar, incapazes de suportar a força. Sua traqueia foi comprimida, fazendo-o tossir e arfar por ar. Antenor observou cada segundo do sofrimento de Polus sem desviar o olhar.
Logo depois, ouviu-se um som de algo quebrando. O corpo de Polus ficou flácido e foi jogado no chão. O som da respiração de uma pessoa desapareceu. Como a respiração pesada foi interrompida, o ambiente ficou subitamente silencioso.
— Ele morreu…?
Ele morreu! A sensação de alívio durou pouco; o rosto de Antenor ficou pálido. Como Evangeline estava dentro da cela, o crime de matar Polus não recairia novamente sobre Antenor? Assim como Argenti e Polus, os outros cavaleiros não consideravam Evangeline, trancada atrás das grades, uma ameaça.
No entanto, Evangeline Rohanson disse que Polus se levantaria novamente. Como uma pessoa morta poderia se levantar de novo!
Mas, como ela disse, Polus realmente se levantou. Como seu pescoço estava quebrado, ele não conseguia suportar o peso da cabeça e o pescoço continuava dobrando, mas ainda assim, ele se levantou vivo.
— Ele nunca mais poderá usar violência contra você.
Certamente seria assim. Aquilo que ressuscitou não era o Polus de antes. Não era uma pessoa viva, mas apenas uma marionete que se movia conforme as palavras de Evangeline Rohanson.
Quando Evangeline ordenou que ele saísse, Polus segurou a cabeça dobrada com as duas mãos para endireitá-la e saiu do subsolo. Quando ele soltou as mãos no meio do caminho, a cabeça balançou, oscilando.
— Quer ajuda?
Evangeline perguntou, fazendo seus olhos vermelhos brilharem. Uma mão branca foi estendida lentamente através das grades. A mão fina e delicada seduziu Antenor, como se dissesse para ele segurá-la logo. A garra impiedosa que estrangulava Polus pareceu a Antenor uma mão de salvação.
— Farei com que essas coisas não possam mais atormentá-lo.
Antenor percebeu como a bruxa seduziu Sir Gabriel. O monstro era tão deslumbrante que podia enfeitiçar a todos, e só dizia as palavras que as pessoas mais queriam ouvir.
Ela realmente poderia salvá-lo da violência dos outros cavaleiros? Mesmo sendo uma suspeita de assassinar o Príncipe Herdeiro e estando na prisão, Evangeline Rohanson falava como se pudesse realizar tudo.
— Você realmente, realmente… vai fazer com que os outros não possam me tocar?
Não era como Antenor desejava quando vestiu o uniforme de cavaleiro pela primeira vez; não era ser respeitado e estar em uma posição superior como Sir Gabriel. Mas o que Evangeline Rohanson acabara de mostrar também não era subjugar o oponente com força avassaladora e, no final, estar em uma posição superior? Antenor segurou a mão estendida de Evangeline com as mãos trêmulas.
— Eu… o que eu devo fazer?
Quando Antenor perguntou, Evangeline contou-lhe as instruções do que ele deveria fazer a partir de agora.
— Estou ansiosa porque não consigo entrar em contato com Sir Gabriel.
Se Evangeline desejasse, ele seria o pombo-correio que levaria as mensagens.
— Quero saber das notícias do lado de fora.
— Sim. Se for algo que eu saiba, direi qualquer coisa.
Como se a resposta de Antenor tivesse lhe agradado, Evangeline sorriu abertamente. O sorriso era tão belo que, ao saber que dentro dele havia algo capaz de destruir uma pessoa com um único olhar, a dissonância tornou-se ainda maior.
— Qual é o seu nome?
— É Antenor. Antenor Nine.
— Ótimo, Sir Antenor. Agora é hora da troca de turno, não é? Vamos nos ver novamente.
Comentários