Uma existência estranha, que mal podia ser chamada de humana e que não pertencia a este mundo, observava-me silenciosamente, tendo tomado emprestado o corpo do Bispo Marik. Embora os olhos do Bispo estivessem com o foco disperso, aquela entidade estava, sem dúvida, a perscrutar-me.
— Preparei o descanso para ti, então por que te debates em vãos esforços?
Uma voz estranha preencheu a sala de orações. Aquele som não era uma voz comum. Embora ecoasse do corpo do Bispo Marik, não lhe pertencia.
A voz ressoava em todas as línguas, com inúmeros tons. Era sagrada, como se entoasse um hino, mas, ao mesmo tempo, grotesca. Parecia o toque solene do sino do templo, mas também a voz de uma sereia que seduz as pessoas ao sussurrar nos ouvidos. Sussurros baixos estimulavam os meus tímpanos e faziam cócegas no meu cérebro.
— Tu não escaparás das correntes.
Sussurrou como um buscador cheio de misericórdia. As palavras do Bispo continuaram, zombando da fronteira entre o sonho e a realidade.
— Dorme em paz. Aceita o descanso.
Parecia que ouvia um zumbido agudo nos ouvidos. O chão balançava e agitava-se. A sala do Bispo distorcia-se, as paredes e o teto retorciam-se, e o céu e o chão invertiam-se. Engoli em seco. Por alguma razão, o ar tornou-se excessivamente pesado, dificultando a respiração e apertando a minha garganta. O fôlego cortou-se, como se os meus pulmões estivessem cheios de água. Por um momento, pareceu que a minha respiração pararia ali mesmo.
Quando pisquei novamente, a sala de orações tinha voltado ao seu estado normal. Tapei a boca apressadamente, tossi e inspirei fundo. O Bispo Marik, que estava ajoelhado em oração, apressou-se a amparar-me.
— Ora, ora. Parece que mantive a jovem Lady, que acabou de sair da cama, retida por tempo demais.
Como se a cena de há pouco fosse apenas uma alucinação, o Bispo Marik estava sereno, com o véu bem ajustado. A forma como ele envolvia as minhas bochechas com as mãos enluvadas parecia apenas benevolente. Afastei cuidadosamente as mãos do Bispo e levantei-me.
— Bispo. Parece que o meu corpo ainda não está recuperado, por isso terei de regressar hoje.
Quase perdi o equilíbrio, mas recuperei a postura rapidamente. Tentei falar com a maior calma possível. O Bispo Marik assentiu, talvez convencido pela minha aparência, incapaz de me controlar devido ao choque que ainda não tinha passado.
— Naturalmente. É melhor não se esforçar.
A voz do Bispo era calma, mas a cena bizarra de há pouco não saía da minha cabeça.
Afastei a mão do Bispo Marik, que tentava amparar-me, e levantei-me. O Bispo Marik confiou a Azazel a tarefa de me acompanhar, dizendo que precisava de terminar as suas orações.
— Que a luz do sol brilhe sempre sobre a jovem Lady.
O Bispo Marik inclinou ligeiramente a cabeça em saudação. Embora fosse uma saudação que eu ouvia frequentemente, desta vez soou particularmente amarga.
— Sir Azazel. Acompanhe bem a Lady Rohanson.
— Sim, Bispo.
Azazel inclinou a cabeça em sinal de respeito, como um cavaleiro devoto. Segui Azazel, caminhando lentamente. Só depois de nos afastarmos do Bispo Marik é que Azazel olhou de soslaio para mim e abriu a boca.
— Jovem Lady. Por que está com essa cara tão séria?
Azazel olhou para mim com curiosidade ao ver o meu rosto pálido. Eu é que queria perguntar-lhe isso.
— Azazel. Não sentiste nada há pouco?
— O quê?
Azazel estava sereno, sem qualquer consciência da cena que eu tinha presenciado.
— O Bispo Marik, há pouco…
O que era aquilo que usou a boca do Bispo Marik…? Estava prestes a explicar com uma voz baixa quando uma cor vermelha, que não combinava com o templo, atraiu o meu olhar. Virei a cabeça como se estivesse enfeitiçada.
O corredor do templo tinha esculturas delicadas gravadas nos pilares sagrados. Pinturas sagradas e esplêndidas estavam penduradas ao longo das paredes. Parei subitamente no meio do corredor, por onde pretendia passar sem prestar atenção.
— Jovem Lady?
Azazel inclinou a cabeça, confuso ao ver-me parar de repente.
— Por que esse quadro?
Será que Azazel não sentiu nada de estranho? Mesmo com um quadro que nunca deveria estar pendurado num templo diante dos meus olhos?
Cores manchadas com tons desagradáveis. Era um quadro sinistro, retratando um cadáver cujos membros tinham sido queimados, restando apenas o tronco. O corpo ardia em chamas e o círculo de conjuração que surgia atrás da cabeça do cadáver brilhava como uma auréola sagrada, mas a sensação que transmitia estava longe de ser santa.
Isto é… o retrato de Donau.
Por que é que isto está aqui…? Não conseguia compreender, por isso perguntei a Azazel.
— Por que é que isto está pendurado no templo?
— Por que? É um quadro que sempre esteve aqui. Foi a Saraka quem mandou pendurá-lo.
Azazel explicou como se fosse óbvio. Não conseguia entender que tipo de disparates Azazel estava a dizer.
— Saraka?
Por que é que a história de Saraka volta a surgir?
— Azazel. Disseram que Saraka desapareceu deste mundo. O que…
Azazel respondeu como se eu estivesse a falar de coisas sem sentido, parecendo perplexo.
— Saraka desapareceu? Por que é que ela desapareceria?
— …O quê?
— Jovem Lady. Do que é que está a falar? Acabámos de nos encontrar com a Saraka.
A minha mente girava. Que disparates é que este Azazel está a dizer?
***
Após interrogar Azazel, descobri que as situações que cada um de nós recordava eram muito diferentes.
— Azazel. Qual era o meu objetivo ao visitar o templo hoje?
— Hã? Para provar que eu e a Saraka já não temos vontade de nos opor à jovem Lady. Como a Saraka não tem memórias, vamos dar-nos bem a partir de agora.
Azazel respondeu sem hesitar. A sua aparência, sem qualquer dúvida, sugeria que ele acreditava piamente nas suas próprias palavras.
Se eu não estou louca, as memórias de Azazel foram alteradas. A única razão que me ocorre é “aquilo” que me falou através do corpo do Bispo Marik.
Como fiquei calada, Azazel sentiu algo estranho e franziu as sobrancelhas.
— Não me diga que mudou de ideias agora?
— ……
— Jovem Lady!
Não estou com disposição para brincadeiras com um Azazel cujas memórias foram alteradas. Ignorei o apelo de Azazel e pressionei as têmporas. A confusão pairava na minha mente e os meus pensamentos dispersavam-se como grãos de areia. A minha cabeça latejava.
— Tenho de ver a Saraka.
— O quê?
— Tenho de verificar pessoalmente.
Deixei Azazel para trás e voltei pelo caminho por onde tinha vindo, em direção à sala de orações. O cavaleiro sagrado que guardava a porta viu-me regressar, pareceu confuso, mas inclinou a cabeça em saudação.
— Lady Rohanson.
Retribuí a saudação e perguntei:
— O Bispo Marik ainda está lá dentro?
— Sim. Precisa de algo do Bispo?
O cavaleiro sagrado assentiu.
— Parece que deixei o meu lenço na sala de orações há pouco. Importa-se que eu entre apenas para o buscar? Terei cuidado para não interromper as orações do Bispo.
— Eu entrarei com a Lady Rohanson.
Azazel também se ofereceu para acompanhar.
— Nesse caso…
O cavaleiro hesitou por um momento, olhou para mim e para Azazel, e abriu a porta.
Dentro da sala de orações, o Bispo estava ajoelhado, com as mãos postas, rezando piedosamente. Embora o som da porta a abrir-se e a presença de alguém devessem ter sido notados, ele não virou o olhar na minha direção.
Aproximei-me do Bispo e estendi a mão para retirar o tecido que cobria o seu rosto.
— O que está a fazer?
O meu pulso foi agarrado imediatamente por Azazel. Azazel, que agarrou o meu pulso com força, mostrou os dentes e encarou-me.
— Larga-me.
— Não posso.
Azazel, pelo contrário, apertou ainda mais a mão que me segurava. O aperto tornava-se cada vez mais forte.
Fiquei perplexa com a atitude de querer protegê-lo para que nem a ponta dos meus dedos tocasse no Bispo. Era uma atitude claramente diferente daquela em que ele próprio nocauteou o Bispo Marik para me mostrar o seu rosto. Ao ver aquela cena, pelo menos uma coisa era clara: o facto de Azazel acreditar que o Bispo era a Saraka não era uma atuação, era real.
— Sir Azazel. Está tudo bem.
Com a repreensão do Bispo, Azazel hesitou por um momento e soltou o meu braço. Depois, colocou-se à frente, como se estivesse a proteger o Bispo. Ha, que absurdo. Olhem só para ele, a agir como se fosse um grande cavaleiro.
— Então, Lady Rohanson? Precisa de algo de mim?
Perguntou o Bispo. A sua voz era apenas calma.
— Peço desculpa. É que tenho algo a perguntar.
— Pergunte. Àqueles que receberam a bênção de Deus, devemos responder a tudo com toda a sinceridade.
— Antes disso, pode retirar o tecido por um momento?
Comentários