Quem deteve a Bispa Marik foi Harut. Ele arquejava, com o rosto corado pelo esforço de ter corrido desesperadamente.
— Por favor. Não fira esse rosto.
Harut implorou com a voz embargada, sua expressão contorcida em angústia. Ele parecia tão desesperado que segurou a lâmina com as mãos nuas, fazendo o sangue escorrer por entre seus dedos. Com a outra mão, que não segurava a espada, ele a estendeu em direção ao rosto da Bispa Marik. Ele segurava um lenço.
Com a delicadeza de quem limpa algo extremamente precioso, Harut enxugou a umidade no rosto da Bispa Marik. À primeira vista, parecia um gesto carinhoso de cuidado, mas ele estava, na verdade, removendo a Água Benta. Ele queria garantir que, mesmo que a Bispa Marik se ferisse novamente, o ferimento não cicatrizasse de imediato.
— …Sacerdote Harut.
A Bispa Marik rangeu os dentes enquanto o encarava. Seu olhar era muito mais sombrio e viscoso do que quando olhava para mim. Harut não era o sacerdote favorito dela? Estranhamente, o que transparecia nos olhos da Bispa Marik era um ciúme vívido. Por que uma Bispa sentiria ciúmes de um sacerdote?
Afastei as dúvidas que surgiam.
— Poderia segurá-la para que a Bispa não fira a si mesma?
Diante do pedido de Harut, os cavaleiros hesitaram por um momento, mas acabaram segurando os braços da Bispa Marik. Mesmo com ela gritando e ordenando que a soltassem, eles não cederam.
De repente, percebi. Agora que Harut havia detido a Bispa Marik, era a minha chance. Eu precisava falar antes que ela cometesse outro ato impulsivo.
Neste momento, a Bispa Marik estava com a razão quase completamente estilhaçada, entre o trauma de ter sido queimada viva, a confusão de ter seu véu removido e a falsa acusação de estar amaldiçoada.
Então, o que aconteceria se a existência do porão e das pessoas presas lá dentro fosse revelada nesta situação? Ela lutaria ainda mais ou desmoronaria de vez, sem chances de recuperação?
Elevei minha voz novamente.
— A Bispa Marik mantém sua juventude tirando a vida de outras pessoas.
[pensamento]Não sei exatamente que método a Bispa Marik usa para se manter jovem. Mas eu realmente preciso descobrir a verdade? Aprendi muito bem com ela que, para a Bispa Marik, a fabricação é mais importante que a verdade. E acabei de aprender que não devo baixar a guarda e que devo atacar primeiro.[/pensamento]
— Ouvi dizer que o Sacerdote Harut permaneceu ao lado da Bispa Marik por muito tempo. Você não presenciou nada suspeito?
Eu havia preparado o palco para que ele falasse sobre o porão. Achei que ele falaria imediatamente, mas Harut hesitou por um momento, refletindo, antes de abrir a boca lentamente.
— …Existe um subsolo no quarto da Bispa Marik.
— Um subsolo? Havia um subsolo no quarto da Bispa Marik?
— Não, nunca ouvi falar disso. Você sabia, sacerdote?
— Não… É a primeira vez que ouço isso também…
Parecia que a maioria desconhecia o porão da Bispa Marik. Era surpreendente que Harut soubesse disso e que a Bispa Marik tivesse feito vista grossa até agora. Conhecendo-a, ela teria silenciado Harut ou garantido que ele não deixasse rastros. O olhar que ela lançava a ele era sombrio demais para acreditar que ela o poupou por afeto.
Harut olhou para a Bispa Marik uma última vez, fechou os olhos com força e continuou.
— A Bispa mantinha uma criança trancada naquele quarto.
— Uma criança?
— A Bispa Marik trancou uma criança? O Sacerdote Harut está mentindo…
— Você não ouviu o que Lady Rohanson disse agora há pouco? Ela disse que houve uma revelação divina!
— Você acredita em Evangeline Rohanson?
— E você acredita na Bispa Marik, que nos enganou com esse corpo amaldiçoado? Aliás, nem precisamos mais chamá-la de Bispa.
Agora, as pessoas estavam me colocando em uma balança contra a Bispa Marik, pesando nossas palavras. O impacto de ter sido revelado que a Bispa Marik estava “amaldiçoada” foi imenso.
A Bispa Marik lançou um olhar furioso para Harut e para mim, como se quisesse nos jogar vivos no fogo, e apressou-se em se defender.
— Era uma herege. Qual é o problema em aplicar a punição devida a uma herege?
[grito]— Era uma criança! Da minha idade![/grito]
Harut explodiu diante das palavras da Bispa Marik.
— Era apenas uma criança…
A voz de Harut fraquejou no final. Não parecia tanto uma censura ou sarcasmo contra a Bispa Marik, mas sim uma confissão dolorosa. Talvez ele estivesse se culpando por não ter conseguido salvar a criança naquela época.
— Para começar, aquela criança era realmente uma herege? Ou foi apenas mais uma de suas calúnias convenientes, como a senhora sempre faz?
Ouviram-se suspiros de choque vindo de todos os lados diante da coragem de Harut.
Até então, ninguém ousaria mencionar calúnias na frente da Bispa Marik sem estar preparado para perder a vida. Agora que ela não tinha mais esse poder, a Bispa Marik só podia encará-lo com um olhar feroz. [pensamento]Nossa, ela vai matar alguém só com o olhar.[/pensamento]
— Sacerdote Harut, eu deveria ter me livrado de você há muito tempo…
— Eu também penso assim. Eu deveria ter detido a senhora muito antes. Por você e… por Saraka.
— …Se fosse por mim, você deveria ter ficado de boca fechada.
[pensamento]Será? A Bispa Marik não parecia apenas zangada; sua expressão era um tanto ambígua. Se eu tivesse que comparar… sim. Era o rosto que um mendigo de rua, vivendo intensamente, faria se um homem rico lhe desse uma moeda com os olhos marejados de pena. A expressão de quem percebe que a única coisa que lhe resta é o orgulho.[/pensamento]
Ah, agora entendi. Aquela era uma expressão de quem achava ser alvo de piedade não apenas desconfortável, mas humilhante. No entanto, a pessoa por quem Harut sentia piedade não era a Bispa Marik, mas a criança chamada Saraka…
Mas Harut, parecendo não notar o significado daquele olhar, virou o rosto.
— Certamente haverá evidências no porão de que a Bispa usou métodos malignos para manter sua juventude.
[pensamento]Não sei se essa evidência é a Saraka, mas pelo menos há uma prova viva lá embaixo.[/pensamento] Com essas palavras, Harut se calou.
Ele parecia ter envelhecido cinco anos naquele curto intervalo, exausto. Não deve ser fácil denunciar as atrocidades da Bispa Marik, a quem ele seguia e confiava como se fosse sua mãe ou mestre. Além disso, ele acabara de ouvir dela que deveria ter sido “eliminado”.
Mesmo assim, Harut pensou na Bispa Marik até o fim.
— Lady Rohanson.
Havia mais alguma coisa? Harut me chamou e, após hesitar por um momento, falou.
[sussurro]— O… o rosto da Bispa e o rosto da Saraka que eu me lembro são idênticos.[/sussurro]
Foi um sussurro tão baixo que apenas eu pude ouvir. Parecia uma consideração da parte dele para evitar que a reputação da Bispa Marik caísse ainda mais no abismo se ele falasse alto para todos ouvirem.
— O rosto?
— Sim. Eu nunca esqueci o rosto daquela criança por um segundo sequer, então não há erro. Se Saraka tivesse crescido, ela seria exatamente como a Bispa é agora.
Harut acrescentou que foi por isso que, instintivamente, impediu a Bispa Marik quando ela tentou levar a faca ao próprio rosto.
— Como a senhorita disse… a Bispa realmente usou aquela criança… para roubar seu corpo ou rosto para manter a juventude?
Harut apertou a palma da mão ferida. Ele ainda segurava o lenço que usara para limpar o rosto da Bispa Marik. O lenço estava manchado de vermelho, e parecia que nunca mais voltaria à sua cor original.
— O que… o que a Bispa fez com aquela pobre criança…
Harut rangeu os dentes, parecendo desolado. [pensamento]Então… ele está perguntando se a Bispa Marik possuiu a Saraka?[/pensamento]
Ao ouvir as palavras de Harut, não pude evitar ficar boquiaberta.
[pensamento]‘Não… Não é isso.’[/pensamento]
Não era possível.
[pensamento]Como Harut sugeriu, a Bispa Marik não deve ter tomado o corpo de Saraka. Afinal, a Água Benta funcionou perfeitamente nela.
Quando ouvi sobre a possessão de Jeremia no corpo de Azazel, me disseram que, sem as habilidades de um demônio, não seria possível transplantar uma alma. Se ela tivesse roubado o corpo daquela forma, a Água Benta não teria efeito na Bispa Marik.
Para começar, Harut só pensou nisso porque eu afirmei que a Bispa Marik tirava a vida de outros.
Mas aquilo não passava de uma fabricação que eu inventei do nada. Não era verdade. Harut parece estar preso na suposição que eu criei e não consegue pensar em mais nada…[/pensamento]
Conclusivamente, a suposição de Harut estava errada.
[pensamento]‘Então, como?’[/pensamento]
Então, por que diabos a Bispa Marik tem o rosto de Saraka? Que método ela usou? Foi no momento em que eu listava mil e uma suposições em minha mente.
Uma hipótese absolutamente incrível me ocorreu.
A Bispa Marik, que diziam ser contemporânea do Bispo Jabaniya e uma figura central do templo desde que ele era um sacerdote aprendiz.
Saraka, que era da mesma idade de Harut.
E o rosto sob o véu, que não parecia nada além de alguém da mesma idade de Harut.
Harut tinha certeza de que Saraka estava morta, mas e se… e se…
— Lady Rohanson?
Despertei abruptamente de meus pensamentos.
— Ah.
Acho que entendi.
— Lady Rohanson, a senhorita está bem?
Será que fiquei imersa em pensamentos por tempo demais? Gabriel me chamou com um rosto preocupado. Tranquilizei-o, dizendo que estava tudo bem.
— A senhorita suspeita de algo após as palavras do Sacerdote Harut?
— Sim.
Assenti. Não sei se minha suspeita é real…
Mas, se for assim, basta testar.
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