Uma mulher caolha, com um dos olhos coberto por um tapa-olho, examinou Rafaela com um olhar de desprezo antes de soltar uma ameaça.
“Silêncio. Feche a boca antes que eu te jogue para fora.”
A Duquesa Baal estalou a língua. Rafaela, seguindo as ordens da mãe, calou-se obedientemente. Embora o olhar que ela lançava a Rafaela ainda estivesse carregado de fúria, já era uma melhora em relação a antes.
Logo após ter se despedido do pessoal de Rohanson e da Ordem dos Cavaleiros de Phararos e retornado para casa depois de muito tempo, Rafaela foi levada à presença da mãe, amarrada firmemente pelos guardas. E, sem mais nem menos, recebeu um tapa na cara.
“Seu filho desgraçado! Eu te mandei para o templo para que você pudesse purificar sua mente e não atrapalhar sua irmã, e você se voluntaria para ser um lacaio do demônio? Seu maldito! Vou te levar ao templo agora mesmo, te oferecer lá e aproveitar para estreitar meus laços com o bispo!”
“Até os outros inúteis estão se agarrando ao templo, mas você nem isso consegue. Fui apunhalada pelas costas pelo meu próprio filho!”
Disseram-me depois que a Duquesa Baal desmaiou, segurando a nuca, ao saber que Rafaela estava detida na mansão Rohanson. Enquanto ela sofria para decidir o que deveria ceder ao bispo para libertar Rafaela, a própria Rafaela escapou da mansão Rohanson e fugiu para casa.
Foi uma sorte imensa que tudo tenha terminado apenas com um tapa. Só de pensar, meu rosto ainda ardia. Se os vassalos não tivessem segurado os braços da duquesa para impedi-la, Rafaela já teria sido entregue ao templo, devidamente amarrada.
A Duquesa Baal olhou para a construção branca que começava a revelar sua imponência pela janela e abriu a boca. Era porque o termo “cor de neve pura” a fez lembrar de alguém.
“O dono da mansão onde você estava hospedado vai comparecer?”
“A Jovem Lady Rohanson? Com certeza ela virá.”
Rafaela, que respondeu honestamente, de repente ficou alerta e perguntou o motivo, desconfiada da Duquesa Baal.
“Mas por que a senhora está perguntando de repente se a Jovem Lady Rohanson vai comparecer?”
“Não há um motivo especial… É só que… Quero ver o rosto dela, já que dizem que ela se parece com a mãe.”
Rafaela inclinou a cabeça, confusa.
“A senhora conhece a Condessa Rohanson?”
“Claro que conheço. Naquela época, as únicas filhas de duques no império éramos eu e ela.”
Rafaela lembrou-se, tardiamente, de que o avô de Evangeline era o Duque Hosaquin. Pensando bem, a Jovem Lady Rohanson estava hospedada na residência do Duque Hosaquin agora. Foi um erro não ter feito a conexão com a Condessa Rohanson, mesmo sabendo disso.
Só existiam três famílias ducais no império, e a Condessa Rohanson era a única filha da família do Duque Hosaquin. Seria mais estranho se a Duquesa Baal não tivesse laços com ela.
A Duquesa Baal estalou a língua, recordando memórias vagas.
“Uma criatura verdadeiramente estúpida. Abandonar os pais, que lhe deixariam tudo, para perseguir uma ilusão como o amor, e acabar arruinada.”
Rafaela sentiu-se subitamente constrangido. A Duquesa Baal, mãe de Rafaela, era alguém que havia conquistado a vitória de forma implacável na competição sucessória, típica da nobreza. Analisando bem, ela era um perfil de pessoa muito próximo ao atual imperador.
A Duquesa Baal nasceu como a caçula, mas derrotou todos os seus irmãos mais velhos para ascender ao ducado. Talvez por isso, ela não gostasse de Amaranth, que nasceu como filha única, recebeu todo o amor dos pais e era uma mimada sem igual. Poderia ser chamado de complexo de inferioridade.
De qualquer forma, talvez por ter um histórico de ter matado seus próprios irmãos, a Duquesa Baal tratava Rafaela com frieza. A duquesa via a si mesma em Rafaela e não impediu que o inteligente Rafaela escolhesse se tornar um clérigo. Afinal, a duquesa já havia escolhido o filho mais velho como sucessor.
Ela o colocou no templo para afastá-lo da competição sucessória, mas ele voltou segurando Gabriel e Evangeline pelas duas mãos; quão vertiginoso deve ter sido isso?
Como se não bastasse, ele até insistiu que queria acompanhá-la no Rito de Sacrifício. Honestamente, Rafaela até pensou em se esconder na carruagem, caso a mãe não atendesse ao seu pedido.
A Duquesa Baal, que sabia muito bem que seu filho não desistia facilmente, deu sua permissão antes que tal situação ocorresse, permitindo que Rafaela entrasse na carruagem de forma normal.
Muito tempo depois, a carruagem parou.
A Duquesa Baal desceu primeiro, seguida por Rafaela. Assim que a porta da carruagem se abriu, um barulho ensurdecedor veio junto com ela.
“O que é isso…”
Rafaela sentiu arrepios e esfregou os braços. Era uma cena inacreditável. Uma multidão imensa, a ponto de fazer pensar que todos os cidadãos do império estavam nas ruas, estava concentrada nas proximidades do Grande Templo.
Eles estavam sentados no chão, orando em direção ao sol.
“O Rito de Sacrifício sempre foi um evento tão grande?”
‘Além disso, a fé dos cidadãos do império no Deus Sol era tão grande assim?’
Até mesmo para Rafaela, que fora um paladino, aquela cena era questionável. Pelo conhecimento de Rafaela, o Rito de Sacrifício não era um evento religioso.
O Rito de Sacrifício era, originalmente, um evento dos nobres. Era apenas um show político realizado para que o próximo imperador do império pudesse se firmar como sucessor e fortalecer sua relação com o templo.
À pergunta de Rafaela, a Duquesa Baal criticou o filho.
“Meu filho estúpido. Você acha que a dança das espadas realizada pelo bispo se limita apenas a nós, nobres?”
“Ah…”
Rafaela suspirou ao compreender vagamente o significado oculto.
O Rito de Sacrifício era, como Rafaela sabia, um evento político. No entanto, o aspecto dos Ritos de Sacrifício realizados recentemente era um pouco diferente. Para ser exato, era correto considerar que apenas os Ritos de Sacrifício realizados sob o comando do Bispo Marik eram diferentes.
“Você acha que apenas os nobres morrem sendo acusados de heresia? Eles morrem por escolherem o lugar errado, morrem trabalhando para seus mestres e morrem sem nem saber a definição do que é heresia.”
Sempre que o Bispo Marik capturava hereges, ele queimava e exterminava até mesmo suas famílias. Para cada nobre revelado como herege, dezenas de vidas eram ceifadas.
As famílias recebiam a notificação no dia seguinte de que suas esposas, maridos, filhos ou pais haviam morrido. Nem era certo se o falecido era realmente um “herege”.
Mesmo que implorassem ao templo para reconhecer a inocência de seus familiares, sua fé seria questionada por não confiarem nos representantes de Deus, e suas cabeças seriam cortadas. Rafaela e a Ordem dos Cavaleiros de Phararos lutaram muito para impedir tais tragédias.
Isso é apenas um fragmento de inúmeros acontecimentos.
Dizem que a irmã do Ministro das Finanças salvou a vida de sua filha ao se voltar para o lado do Bispo Marik; para os plebeus, nem mesmo a chance de salvação era dada. Eles foram agrupados e queimados até a morte sem nem saber o motivo de terem sido classificados como “hereges”.
Se os nobres e comerciantes entendiam os passos do Bispo Marik politicamente, os plebeus consideravam aquilo como uma condenação absoluta. Como a morte tocava a pele, eles se tornaram tão desesperados.
Rafaela sentiu um súbito enjoo.
Que benevolente Deus Sol, o quê. Embora parecesse amar todos os seres humanos, o templo, na verdade, dava muita importância ao status social.
Eles expulsaram os moradores de favelas para construir o templo, e a Água Benta, a essência do poder divino, era cara e usada principalmente pelos nobres. Subornos eram naturais, e todo tipo de corrupção e escândalo era abafado e tolerado. Quantos favores Rafaela não recebeu por causa de seu status?
“As sombras estão muito densas.”
Desde quando o sol, que deveria estar no topo do céu, começou a se inclinar? A Duquesa Baal respondeu com indiferença.
“Talvez a noite venha em breve.”
Isso porque o crepúsculo é quando as sombras se tornam mais densas.
A luz do sol brilhava, ofuscando a visão. Rafaela sentiu-se particularmente desconfortável com o edifício branco à sua frente.
O Grande Templo, construído apenas com mármore, era muito bonito de se ver. A cor branca pura, a escultura intrincada das paredes tridimensionais que despertavam admiração quanto mais se olhava, e a imponência que parecia perfurar o céu com seu tamanho avassalador, arrancavam suspiros.
O exterior, que fazia jus à sua fama, dominava quem o olhava. Até a paisagem ao redor parecia existir apenas para o Grande Templo.
As pessoas que enchiam o entorno oravam em direção ao sol, mas aquele sol estava flutuando logo acima do templo. Não parece que estão orando para o templo, e não para o sol?
Rafaela subiu as escadas em direção ao templo de forma desajeitada.
Não era um sentimento que ele sentia por não visitar o Grande Templo há muito tempo. Na verdade, ele não se ausentou por tanto tempo. Antes, mesmo quando ele voltava de uma missão externa de meio ano, o templo não parecia estranho.
Aqueles poucos dias passados na mansão Rohanson fizeram com que o templo, cheio de esplendor, parecesse extremamente desconfortável. O coração de Rafaela sentia-se mais à vontade na mansão Rohanson, que havia sido completamente incendiada.
Quando Rafaela sentiu a miséria, os padres que desceram da carruagem cumprimentaram os dois com cortesia. Rafaela viu um rosto familiar entre eles. Era o Bispo Jabaniya.
“Ora, ora, não é a Duquesa Baal?”
“Bispo Jabaniya. Faz tempo que não nos vemos. Como tem passado?”
Após um aperto de mão casual, o Bispo Jabaniya descobriu Rafaela ao lado dela. Os olhos de Jabaniya se arregalaram.
“Rafaela, você conhece o bispo?”
A Duquesa Baal beliscou o lado de Rafaela com força, como se dissesse para o filho cair na real. Rafaela, confirmando que sua mãe ainda estava lúcida com aquele aperto firme, recuperou a consciência. Não podia continuar ali, perdido em pensamentos.
“A senhora esqueceu que sou um paladino? Parece que sua memória está falhando. Não deveria tomar um pouco de Água Benta todas as manhãs?”
Quem se sentiu ofendido com as palavras espirituosas de Rafaela não foi a Duquesa Baal, mas o Bispo Jabaniya. Além de tratar a Água Benta como um tônico, por que ele tinha que apontar justamente o problema de memória, que a Água Benta não curava?
Jabaniya escondeu seu desconforto e cumprimentou Rafaela primeiro, com uma atitude magnânima.
“Faz tempo que não nos vemos, Sir Rafaela. Ou devo chamá-lo de Jovem Mestre do Ducado agora?”
“Faz tempo, Bispo.”
O Bispo Jabaniya deu um sorriso gentil.
“Fiquei preocupado porque não via seu comandante e seus colegas ultimamente, mas parece que você voltou para sua família.”
“Como poderia ser? Minha fé em Deus permanece a mesma.”
Na verdade, a fé de Rafaela sempre foi superficial em comparação com os outros, e ainda era, então não era uma mentira.
“E quanto ao senhor, Bispo? Sua fé em Deus ainda é inabalável?”
Rafaela também respondeu com um sorriso largo.
Quando uma guerra de nervos ocorreu com o Bispo Jabaniya, os padres, que observavam a situação, tomaram a iniciativa de guiar a Duquesa Baal até seu lugar. O que tinha a voz mais alta tomou a frente.
“Duquesa Baal! Eu, eu! Vou levá-la para o assento da frente.”
Assim que a Duquesa Baal saiu, Rafaela não teve escolha a não ser deixar Jabaniya. Quando Rafaela ficou ao lado dela, a Duquesa Baal avisou o filho em voz baixa.
“Meu filho estúpido. Pelo menos não cause mais danos à família.”
Rafaela assentiu, pensando que deveria se conter.
Ao entrar no templo, a paisagem mudou drasticamente. Enquanto o lado de fora estava densamente lotado de pessoas, o jardim do Grande Templo era confortável e tranquilo. Água Benta jorrava incessantemente das fontes espalhadas por toda parte.
Como o lugar observado pelo sol, era particularmente quente, pois o terreno era alto e recebia mais luz solar do que outros lugares. Mesmo não sendo primavera, a grama no chão estava verde e as flores estavam brotando. Parecia até que borboletas estavam voando.
“Dizem que no templo do Deus Sol só existe primavera…”
Os nobres que vieram do campo não conheciam a situação real e foram enganados.
Aqueles que não sabiam de nada ficariam maravilhados com o espetáculo onírico, mas Rafaela, que conhecia bem a situação interna, zombou.
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