Perguntei a Kanna, a maior vítima, sobre o que fazer com Donau. Em circunstâncias normais, eu teria chamado a polícia para que ele enfrentasse o julgamento da lei, mas este é um Isekai. Além disso, como Evangeline é uma nobre, não seria aceitável punir o criminoso por conta própria?
— Devo trancá-lo em uma masmorra para sempre?
Kanna e Hena me encararam. Se quiserem, posso garantir que ele coma pão com feijão pelo resto da vida.
No entanto, Kanna balançou a cabeça. Será que ela acha a punição severa demais? Ela é um anjo, por acaso? Entendi agora por que ela e Hena se dão tão bem. Sua boba, preocupe-se primeiro com o seu próprio corpo!
— Como está o seu pescoço?
Agora que reparei, o ferimento no pescoço de Kanna era mais profundo do que eu pensava. Havia uma linha vermelha longa, como um fio, marcada em sua pele.
Será que sobrou alguma Água Benta em casa? Se eu usar isso, será que a cicatriz desaparece? Embora cicatrizes de guerra possam ser consideradas medalhas de honra, ser sequestrada não é nada glorioso.
— Está ótimo!
Kanna respondeu, radiante de alegria. A reação pareceu um pouco exagerada, mas logo entendi.
Se você fosse sequestrada e uma vilã viesse te salvar e ainda demonstrasse preocupação, talvez ficasse emocionada também. Kanna também é uma criada da mansão Rohanson. Tem gente que desmaia só de me ver, então isso é fichinha.
— Huf.
De repente, Hena ficou pálida como um papel e cobriu a boca. Não é comigo que ela está assim, é? O olhar de Hena estava fixo atrás de mim. O que tem atrás de mim? Droga, Donau!
Será que eu tirei a faca que Donau estava segurando? Virei a cabeça apressadamente e uma cena totalmente inesperada se desenrolou.
Eu esperava que Donau viesse para cima de mim com a faca, mas quem acabou esfaqueado foi o próprio Donau.
— Você viu?
— Sim. Ele se esfaqueou no pescoço.
Kanna confirmou o golpe final.
Donau cometeu suicídio. Como a única coisa que ele tinha nas mãos era a faca, parece que ele a cravou na própria garganta. Nem no pulso, mas direto no ponto vital do pescoço? Estava tão desesperado para não pagar pelos seus crimes?
Criminosos sempre tentam fugir do castigo se matando! Isso é igualzinho neste Isekai.
— Desculpe. Ele acabou morrendo.
Eu queria que ele provasse o gosto do julgamento da justiça…
— Está tudo bem. Para mim, isso já basta.
Os olhos de Kanna brilhavam intensamente. O sorriso radiante em seu rosto parecia tão leve, como se ela já tivesse superado tudo. Que coração generoso…
— Obrigada por me salvar.
Ela também era muito educada.
Hein? Não, parece que não é só a educação que brilha.
‘O ambiente não está um pouco claro demais?’
Ah, droga, droga! Está pegando fogo!
O fogo começou atrás de Donau, e a luz das chamas iluminava o ambiente. Com razão, as janelas estavam bloqueadas e não havia iluminação, mas eu conseguia ver tudo perfeitamente!
Graças a isso, pude ver o interior de relance. O Círculo de Conjuração desenhado no centro da sala também estava visível. Isso é, por acaso… aquilo que roubaram de mim?
Então esse fogo… Donau deve ter invocado um espírito de fogo. Então era um círculo de invocação de espíritos! Ei… como você fez isso? Deveria ter me devolvido o papel ou me ensinado antes de ir! Criminoso sem ética!
Levei Hena e Kanna para fora da casa às pressas. Felizmente, a porta estava escancarada. Graças a isso, a fumaça saiu e ficou menos difícil de respirar.
Esse desgraçado ainda cometeu mais um crime antes de morrer! Se houvesse legendas, apareceria (+Incêndio). Roubo, sequestro e agora incêndio! Um verdadeiro triplo coroado!
Felizmente, as casas vizinhas pareciam ter sido construídas com materiais resistentes à propagação de incêndios, pois o fogo não se espalhou. Que qualidade é essa neste Isekai! Isso precisa ser importado.
A casa de Donau, queimando sozinha, era um espetáculo à parte.
Senti vontade de chorar um pouco. Meu círculo de invocação… deve ter queimado junto, né?
***
Paredes enferrujadas, um quarto com cheiro de mofo, sopa fria, uma cama estreita e dura, e uma janela de dois palmos.
O mundo de Kanna era apenas isso.
Sua saúde era frágil desde o nascimento. O parto foi difícil e sua mãe faleceu ao trazê-la ao mundo. Se ela tivesse nascido “devorando” a mãe, pelo menos deveria ser saudável, mas nem isso. Kanna estava sempre doente, como se fosse morrer a qualquer momento.
Seu pai morreu de excesso de trabalho tentando pagar as contas médicas de Kanna, e agora sua irmã, Hena, assumiu esse fardo.
Mesmo tendo consumido a vida de dois membros da família, Kanna não melhorou. Agora, tudo o que ela podia fazer era ficar deitada na cama.
Ela mal conseguia mover as mãos, e até respirar era um esforço. Hena contratou uma enfermeira e, para isso, aumentou suas horas de trabalho. Chegava a ser preocupante, como se eu estivesse prestes a devorar até a minha irmã.
No entanto, não havia nada que Kanna pudesse fazer. Teria sido melhor se ela tivesse dito à irmã para desistir, já que não havia esperança, mas Kanna queria viver. Ela queria continuar segurando esse fôlego miserável.
Sua irmã chamava isso de esperança.
— Kanna, você vê as pessoas lá fora? Acredito que um dia você também poderá caminhar como elas. Eu farei isso acontecer. Então, não vamos desistir da esperança.
A partir do momento em que ouviu essas palavras, a pequena janela tornou-se especial para Kanna.
Na rotina monótona de todos os dias, a única coisa que mudava era a paisagem fora da janela. O sol nascia, os pássaros voavam, as crianças corriam, o pôr do sol chegava, todos voltavam para casa para jantar e a noite caía.
Kanna adicionava a si mesma àquela paisagem cotidiana lá fora. Vamos correr juntas, ir trabalhar e voltar para casa.
E, a partir de certo dia, uma cena foi adicionada do lado de fora da janela.
‘Você veio de novo hoje?’
Um gato começou a visitar a janela de Kanna durante seus passeios. O gato dourado sempre se sentava no parapeito, observava Kanna e depois ia embora calmamente.
Quando eu puder andar, vou dar comida para esse gato. Como ele tem uma coleira, deve ter um dono, então talvez petiscos sirvam? O gato começou a ocupar naturalmente um lugar no futuro de Kanna.
— Kanna! Kanna!
E então, o milagre aconteceu.
— Você está bem? Não dói mais?
— Eu… eu estou bem.
Sua voz estava rouca. Sua pronúncia era imprecisa e ela até gaguejava. Por causa daquelas simples palavras, sua irmã chorou e a abraçou. Seus ombros ficaram úmidos com as lágrimas, mas Kanna abraçou a irmã de volta sem dizer uma palavra.
Sua irmã conseguiu um salário melhor ao entrar para a família do Conde Rohanson. Disseram que a jovem senhorita Evangeline Rohanson, a quem ela servia recentemente, ouviu a história de Kanna e forneceu a Água Benta.
A Água Benta era algo que um plebeu levaria metade da vida trabalhando para comprar apenas um frasco. Kanna percebeu que a esperança de que Hena falava era essa Água Benta. O pai e a irmã sacrificaram suas vidas por algo que alguém pode dar facilmente como uma esmola piedosa. Por causa de apenas um frasco de água como este!
— Que bom. Que bom mesmo.
No entanto, no momento em que ouviu as palavras da irmã, a raiva de Kanna se dissolveu. Se a pessoa que sacrificou a vida está tão feliz, por que Kanna deveria ficar com raiva?
O estado de Kanna melhorou gradualmente. O apetite voltou ao mover o corpo, e ela ganhou peso ao se alimentar bem. Era estranho e desconcertante que a esperança de que sua irmã falava tivesse chegado tão de repente, mas ela estava aceitando aos poucos. E Kanna decidiu fazer o que sempre sonhou.
Kanna saiu de casa. Ela caminhou sem rumo perto de casa e descansou sentada diante da porta.
Como não era sociável, não conseguia cumprimentar as crianças nem puxar conversa. Mas, ao ouvir a luz quente do sol e as vozes tagarelas, ela sentia claramente que pertencia ao “lado de fora da janela”.
‘Pensando bem, aquele gato não vem mais?’
Kanna pediu a Hena para comprar petiscos que o gato pudesse comer. Ela sempre os carregava no bolso, mas nunca o encontrou. Será que a rota de passeio mudou? Espero que ele não tenha sido maltratado por alguém ruim.
Enquanto se preocupava e passava o tempo lá fora, seu corpo esfriou rapidamente. Como sua irmã chegaria tarde hoje, ela decidiu que era hora de entrar. No canto da visão de Kanna, uma cauda dourada passou rapidamente.
‘Um gato?’
Kanna lembrou-se do pedido de Hena para não andar por aí à noite. Ainda é dia. Como ela vai se preocupar, vou apenas verificar e entrar. No momento em que entrou no beco, um homem apareceu.
E quando recuperou a consciência, estava em um quarto estranho.
Sua boca estava amordaçada e suas mãos e pés estavam amarrados. Há quanto tempo ela estava inconsciente? O ambiente estava escuro. Depois de um tempo, seus olhos se acostumaram à escuridão e ela pôde ver ao redor.
Pensou que estava sozinha, mas havia outra pessoa. Um homem sentado em uma cadeira, absorto na leitura de algum papel. Aquele homem devia ser o sequestrador que a atacou. Kanna se debateu cheia de raiva. No entanto, seu corpo, que mal começara a se recuperar, não tinha forças.
— Ora, você acordou? Estou lendo, poderia não me atrapalhar?
Quando o homem se aproximou, um cheiro acre a atingiu. Kanna reconheceu a natureza do cheiro instantaneamente. Não seria estranho não reconhecer, depois de ter vomitado tanto sangue. No entanto, Kanna não tinha ferimentos, exceto pelas amarras. O cheiro de sangue vinha do homem.
— Espere quietinha até anoitecer.
O homem disse, olhando para a parede. Kanna também forçou o corpo a virar para olhar na mesma direção. Não era uma parede. Eram apenas tábuas pregadas na janela. Kanna sentiu sua mente vacilar.
O simples fato de ver a janela bloqueada foi um choque maior do que quando percebeu que tinha sido sequestrada. Afinal, para Kanna, o lado de fora da janela é a esperança. Aqui, não há esperança alguma.
Então, Kanna começou a se debater, apesar das ordens do homem para ficar quieta.
Ela chamou pela irmã. Gritou por socorro. O homem ignorou todas as suas palavras. Ela buscou esperança. Pediu para ver o que havia além da janela. Ainda não tinha anoitecido. A que horas a irmã chega em casa? Ela vai se preocupar se eu não estiver lá quando ela voltar.
Kanna não podia fazer nada. Parecia ter voltado a ser aquela paciente impotente que ficava deitada na cama esperando pela irmã antes de beber a Água Benta.
O ato de buscar esperança logo se transformou. Kanna agora sussurrava maldições.
Finalmente, o sol se pôs completamente e chegou a noite que o homem tanto ansiava. O homem acendeu velas e pegou uma faca. Morra, morra. Morra. Sem saber o que Kanna estava murmurando, o homem dançava ao som da maldição de Kanna como acompanhamento. Kanna observava a cena sem nem piscar.
O homem terminou a dança e sentou-se diante de Kanna. Agora ela sabia o que ele pretendia fazer. Graças a ele ter lido aquele papel e murmurado dezenas de vezes em voz alta. Anjo da luz?
‘Ele vai… me oferecer como sacrifício?’
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