A ilusão de Evangeline Rohanson enforcada? Ridículo.
Talvez fosse por causa de algo estranho que ouvi antes de vir. Enquanto coletava informações sobre Evangeline Rohanson, ouvi o relato de um padre que testemunhou a ressurreição da falecida Evangeline.
Examinei os registros do templo, mas não havia menção ao funeral de Evangeline. Tentei procurar o padre que, tardiamente, teria conduzido a cerimônia fúnebre, mas ele já havia se enforcado em sua própria casa.
Disseram que não deixou carta de despedida. Como a casa onde ele morava já havia sido esvaziada, não consegui obter nenhuma informação. Apenas ouvi de pessoas próximas que o falecido padre costumava pregar sermões em segredo para os familiares de pessoas que cometeram suicídio, desviando dinheiro do templo às escondidas.
Gabriel subiu na carruagem junto com Rafaela. O veículo começou a rodar em direção ao Grande Templo.
— E Michelle?
— Ainda não caiu em si e continua parada diante da pintura. Fico preocupada que ela acabe entrando nela a qualquer momento.
As reações das pessoas ao verem a pintura de Jim Nopedi dividiam-se em dois extremos. Alguns, como Gabriel e Rafaela, consideravam-na sinistra, enquanto outros a chamavam de anjo e a veneravam.
O cavaleiro que verificou o cadáver de Donau Blue junto com Gabriel da última vez era um desses últimos. Ele acreditava piamente, sem qualquer dúvida, que Donau Blue era um anjo, e permanecia estático diante da pintura de Jim Nopedi doada ao templo.
Não havia como a tela negra pendurada no templo imaculadamente branco passar despercebida. Os visitantes que vinham ao templo para rezar também agiam como se tivessem perdido o juízo ao verem a obra. Algumas pessoas, lideradas por Gabriel, sugeriram que a pintura fosse removida, mas foram ignoradas.
Aos olhos de Gabriel, eles pareciam não ser diferentes de pessoas possuídas por um demônio.
— Conseguiu algum progresso?
— Progresso, é…
Ainda assim, consegui uma pequena pista na conversa com Evangeline Rohanson. Evangeline não levou o cadáver de Donau, apenas o papel com o padrão copiado. O importante não era Donau Blue, mas aquele padrão.
— A senhorita Rohanson disse que, ao ver aquele padrão, tratava-se de um Círculo de Conjuração.
— Como ela sabia disso?
— Parece que originalmente era algo dela. Donau Blue que o roubou.
— É mesmo? E o que se conjura com isso?
Gabriel relembrou brevemente a conversa de pouco antes.
— Ela disse que era um anjo.
— Um anjo? Então o papel que encontramos é o correto?
Rafaela encolheu o corpo e esfregou os braços, como se estivesse arrepiada.
Os restos mortais de Donau, que estão no depósito do templo, encontram-se guardados em uma urna. Nem houve necessidade de cremar, pois o corpo inteiro já estava tão queimado que se desfazia ao menor toque. No processo de recolher as cinzas, encontramos um pedaço de papel estranhamente branco.
Como um simples pedaço de papel não queimou, se até os ossos foram consumidos? Não é muito parecido com Evangeline, que não tinha nem sequer fuligem, apesar de ter escapado de um incêndio?
Ao restaurar os pedaços rasgados como se montássemos um quebra-cabeça, surgiram o tal padrão que ela chamou de Círculo de Conjuração e letras com furos. Como faltavam partes no meio, não foi possível entender o texto original completo, mas havia uma única frase. Uma frase perfeitamente restaurada.
“Reverenciem e adorem. Recebam o anjo da luz que retornará à terra e descenderá ao mundo terreno.”
— Parece que estão tentando conjurar um anjo, pelo menos.
Se for esse o caso, o que nasceu daquele padrão sinistro deve ser semelhante a Evangeline Rohanson. Não seria sagrado, mas sim sinistro. Não seria misericordioso, mas cruel.
— Então, o que as pessoas dizem é verdade? Que Donau Blue foi abençoado?
— De jeito nenhum. Primeiro, vamos dizer que Donau Blue foi julgado por tentar oferecer um sacrifício para conjurar um demônio, e manteremos o conhecimento sobre aquele papel apenas entre nós.
Rafaela assentiu com a cabeça. Se o problema não era Donau Blue, mas o padrão, a situação avançaria apenas tratando daquela pintura.
Um Círculo de Conjuração… Eu já tinha ouvido falar de algo parecido.
Se for um círculo de conjuração que invoca algo para realizar desejos, esse tipo de feitiçaria era comum há mais de dez anos. Quando exatamente foi? Gabriel também era jovem na época, então não tinha certeza. Ouvi dizer que houve um expurgo em larga escala após capturarem os xamãs, talvez há vinte anos.
Parecia que, ao retornar, eu teria que ir à biblioteca verificar os registros daquela época.
— Rafaela. Por acaso, sobre feitiçaria…
No momento em que eu ia perguntar, querendo saber se Rafaela sabia de algo, a carruagem inclinou-se bruscamente.
*Creeeec.*
A carruagem, que quase tombou, conseguiu se estabilizar e parar. Do lado de fora, ouvi o cocheiro tentando acalmar os cavalos, que estavam agitados e inquietos.
— O-o que foi isso? Comandante, está bem?
— Você é quem está bem?
Felizmente, como a carruagem se estabilizou rapidamente, nenhum dos dois se feriu.
— Ei! Você não disse que sabia conduzir os cavalos?
— P-peço perdão. Um gato surgiu de repente na frente.
Quando Rafaela abriu a porta da carruagem e saiu para protestar, o cocheiro curvou-se, apavorado.
O cocheiro empalideceu ao ver que os passageiros portavam espadas. Ele temia que, por quase terem se ferido gravemente, eles pudessem retaliar. Era óbvio que ele seria repreendido por não ter simplesmente atropelado o animal, já que era apenas um gato, não uma pessoa.
No entanto, para a grande sorte do cocheiro, Gabriel era o tipo de pessoa que preferia se ferir a atropelar alguém com a carruagem. Provavelmente, qualquer um que tivesse visto um amigo ser esmagado por uma carruagem na infância pensaria como Gabriel.
— Eu e minha subordinada estamos bem, não se preocupe.
Somente depois que Gabriel o tranquilizou, dizendo que estava tudo bem, o cocheiro soltou um suspiro de alívio. Só depois de levantar a cabeça, que estava quase encostada no chão de tanto pedir desculpas, ele pareceu notar que os dois eram cavaleiros sagrados. O cocheiro notou o emblema do Deus Sol, Rahel, nas vestes de Gabriel e, secretamente, passou a admirá-los ainda mais, pensando que os cavaleiros do templo eram realmente diferentes.
Após ouvir o pedido de desculpas, Rafaela subiu de volta e a carruagem começou a avançar lentamente novamente.
— Comandante. Sinto como se meu coração tivesse saltado pela boca.
Rafaela continuou fazendo um escândalo, como se o choque ainda não tivesse passado.
Gabriel ponderou enquanto ouvia as lamúrias. Teria sido coincidência a carruagem quase tombar justamente quando mencionei o assunto da feitiçaria?
***
Recentemente, rumores circulavam discretamente de que uma estranha representação artística de figuras sagradas havia sido pendurada no templo.
Dizia-se que uma jovem piedosa desmaiou ao ver a obra e encontrou o Deus Sol em seu sonho, que o sumo sacerdote a elogiou grandemente e deu uma oferta de gratidão ao pintor, e que a obra era um guardião que filtrava os descrentes.
De boca em boca, todo tipo de boato crescia e se espalhava.
E esse boato estendeu-se até um mosteiro isolado nos arredores da capital.
— Quando o padre Berga virá?
— Quem sabe? Por que você procura o padre? Eu preferiria que aquele pervertido nunca viesse.
— Ah, isso é verdade. Mas disseram que ele foi ao Grande Templo. Então ele deve ter visto aquela obra, e você não fica curiosa para saber se o boato é verdade?
— Sua boba, você acha que aquilo é verdade? Como você é ingênua.
As mulheres, que conversavam entre si enquanto varriam vestindo seus hábitos, diminuíram o tom de voz e fingiram compostura ao verem Daisy se aproximar.
— Boa tarde, irmã.
— Que a luz do sol sempre brilhe sobre você, irmã.
Embora as palavras fossem educadas, elas nem sequer acenaram com a cabeça para Daisy. Daisy apenas inclinou a cabeça em silêncio, fingindo não notar. Assim que Daisy passou, ouviu-se novamente um sussurro vindo de trás.
— Coitada. Quando o padre Berga vier, ela será a que mais sofrerá, não é?
As freiras, achando que Daisy já estava longe o suficiente, voltaram a rir e fazer piadas entre si.
Eu precisava terminar de organizar a biblioteca hoje, mas já estava muito tarde. Daisy apressou o passo, tentando não dar ouvidos ao barulho que vinha de trás.
Já se passaram três semanas desde que fugi da mansão Rohanson para o mosteiro.
Longe do monstro que tomava o corpo da senhorita Evangeline e dos olhares que me observavam, o mundo parecia muito pacífico e calmo.
A vida de Daisy no mosteiro não era tão ruim quanto ela pensava. Embora ela não conseguisse se enturmar facilmente com os outros por ser nova e tímida, não era particularmente desconfortável.
A maioria das freiras com quem Daisy acabara de trocar cumprimentos eram filhas de famílias nobres. Pessoas assim não se curvariam diante de plebeus, mesmo que servissem a Deus. Como não havia como se misturar, era natural que elas não tivessem interesse nela.
— Ei, Daisy!
Quando ela estava prestes a entrar na biblioteca, alguém a chamou apressadamente por trás.
Ao se virar, viu que uma das freiras do grupo que acabara de encontrar estava ofegante. A única conversa que tínhamos tido eram cumprimentos formais, por que ela a chamaria?
Enquanto Daisy esperava, a outra começou a falar com cautela, como se estivesse diante de um vidro prestes a quebrar.
— Ouvi dizer agora pouco que o padre Berga voltará hoje. Aquele… por favor, mesmo que o padre Berga a chame hoje à noite, não vá de jeito nenhum. Entendeu?
Então ela correu até aqui para dizer isso. Daisy ficou surpresa com a gentileza repentina e assentiu.
— Obrigada por me avisar. Com certeza vou recusar.
Se havia um defeito neste mosteiro, onde tudo era mais ou menos aceitável, era justamente o padre Berga.
O padre Berga era conhecido por sua notória predileção por mulheres. Havia rumores de que ele assediava as novatas que entravam no mosteiro, e, pelo que Daisy havia experimentado, isso era verdade.
Ele segurava as mãos, acariciava os ombros fingindo encorajamento e olhava para Daisy de forma persistente. Sim, esse era o problema. O olhar dele. Daisy, que se tornara particularmente sensível, não poderia deixar de notar o modo como ele a observava.
Como o padre Berga poderia enviar alguém ao seu quarto, seria melhor passar a noite na biblioteca, aproveitando para organizar os livros.
Então, o ponteiro das horas girou. Já eram duas da manhã. Daisy, que olhou para o relógio pendurado na parede da biblioteca, levantou-se, achando que já era seguro voltar.
E prendeu a respiração ao ver um homem esperando na frente de seu alojamento, como se estivesse de vigia. Ele ainda estava esperando?
Não era o padre Berga, mas um dos membros do grupo de noviços que vivia grudado nele, bajulando-o.
— Irmã. Aproveitou bem o seu passeio noturno?
— Eu estava organizando a biblioteca e perdi a noção do tempo. Estou cansada, então vou entrar para descansar.
Daisy tentou abrir a porta, mas o noviço a impediu, pressionando a porta com a mão.
— Antes disso, o padre Berga disse que tem algo a lhe transmitir. Por que não ouve antes de ir?
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