“Esperou muito?”
Donau parou bem diante do sacrifício e se agachou. Os olhos da garota, ainda vivos e fixos nele com ferocidade, brilhavam intensamente. Donau achou aquilo um tanto insolente.
Ele encostou a faca no pescoço dela. Queria preparar tudo exatamente como o demônio gostaria. O demônio, sem dúvida, apreciaria uma cena banhada em sangue. O corte fino fez o sangue brotar e escorrer. Donau sentiu uma excitação crescente com aquele trabalho delicado e artístico.
Foi quando ele ajustou a lâmina novamente. Um estrondo ecoou e poeira subiu por toda a casa.
A porta foi arrancada? Droga, alguém chamou a guarda? Malditos. Eu poderia lidar com uma garotinha, mas não com um homem adulto.
Enquanto tossia por causa da poeira, uma silhueta surgiu através da névoa. A primeira coisa que notei foi o vestido branco, quase como uma camisola. Em seguida, meus olhos se fixaram nos cabelos brancos, desprovidos de qualquer cor.
“Evangeline Rohanson?”
O alívio de ver uma dama frágil, que eu poderia subjugar com uma mão, durou pouco. No momento em que meus olhos encontraram aquele vermelho intenso, prendi a respiração.
Curve-se em reverência. Receba o anjo da luz que desceu à terra.
De algum lugar, ouvi o som de trombetas.
***
Que loucura! O que é isso?
Deixando para trás a porta que se despedaçou com um simples chute — de tão mal feita que era —, entrei na casa e vi Donau com uma faca no pescoço da garota amarrada. Que maluco!
Não, eu só vim buscar o ladrão que roubou meu incrível [glossario termo=”Círculo de Conjuração”]Círculo de Conjuração[/glossario] de invocação de Isekai, mas por que ele evoluiu de ladrão para sequestrador? Não suba de nível sozinho!
“Kanna!”
Hena, que me seguia, ficou horrorizada ao ver a criança amarrada. Kanna? Ela conhece o nome, então é uma conhecida de Hena? Será que trabalha na mansão? Hena estava em choque, cobrindo a boca e deixando as lágrimas caírem. O que eu faço? Elas parecem ser muito próximas!
Minha tolerância por Donau desapareceu. Hena é a única pessoa com quem converso neste Isekai, e ele sequestra justamente a amiga dela? Eu não vou deixar isso barato. Vou mostrar a crueldade de uma vilã de romance.
Acabei de decidir isso, mas parece que ele também me reconheceu.
“Evangeline Rohanson?”
Donau começou a tremer ao dizer meu nome. Um criminoso hediondo que rouba pertences alheios e sequestra crianças está com medo de mim? Deve ser porque foi pego em flagrante, certo?
Não é como se Evangeline Rohanson fosse uma vilã tão poderosa que só o nome fizesse alguém se borrar de medo. …Não é, né? Será que eu não sou apenas uma vilã comum, mas a grande vilã por trás de tudo na história? Eu não preciso desse tipo de configuração!
Hah… Estou um pouco tonta, mas isso não é o mais importante agora. Primeiro, preciso salvar a vida dela.
“Você me chamou?”
Não sabia que ser uma vilã seria útil nessas horas. Embora fosse cafona, forcei um sorriso, levantando apenas o canto da boca, enquanto lutava para não me arrepiar. O segredo é não sorrir com os olhos. Sorriso de vilã é fácil, não é?
A faca na mão de Donau me incomodava. A lâmina já tinha arranhado o pescoço da criança. O que se faz nessas horas?
Acho que os detetives sempre diziam: “Largue a faca e vamos conversar”. Mas que conversa teríamos? O que eu e aquele cara temos em comum? Ah, uma coisa.
“Você trouxe meu Círculo de Conjuração de volta?”
Suavizei as palavras para não provocar o criminoso. Trouxe o quê! Ele roubou! Pensando bem, por que ele roubou meu círculo mágico e não invocou nada, preferindo sequestrar pessoas? Agora que parei para pensar, isso é irritante.
“Então… você, você é a dona daquele Círculo de Conjuração?”
“Claro. É por isso que vim te procurar.”
Olha só esse cara fingindo demência! Roubou do meu quarto e agora se faz de desentendido, que cara de pau. Bem, ele é descarado o suficiente para roubar e sequestrar, então não é de se estranhar.
Eu queria xingá-lo de todas as formas possíveis, mas, como havia uma refém, me contive desesperadamente. O círculo era importante, mas a vida humana era mais.
“Diga o que você quer. Se soltar a garota, eu atenderei.”
Claro, eu disse que ouviria, não que cumpriria.
Vou entrar por um ouvido e sair pelo outro, mas agora preciso fingir que vou realizar o desejo. Primeiro, atendo às exigências do criminoso, troco pela refém e, depois, coloco as algemas nele. Será que não tem algemas neste mundo de romance? Então, aplicarei o martelo da justiça.
“Me, me transforme em um homem riquíssimo!”
É, o que mais alguém que rouba e faz reféns quereria? Tudo gira em torno de dinheiro.
O problema é que eu não tenho dinheiro agora. Eu só saí para pegar um ladrão, não teria como trazer dinheiro comigo. Se esse era o objetivo, ele deveria ter deixado um bilhete pedindo para eu trazer o dinheiro! Que cara que não conhece nem o básico do sequestro!
“Rico? Tudo bem. Que tal o Condado Rohanson? Vou fazer de você um Conde.”
Vamos resolver isso na lábia. Tudo o que tenho agora é o corpo e o status de Evangeline. Tenho que usar isso. Evangeline Rohanson é filha única; se ele se casar com ela, se tornará o Conde, certo?
Vamos deixar para depois a dúvida se este mundo de romance permite que mulheres sejam chefes de família ou se é um sistema patriarcal onde um homem precisa assumir o título.
“Conde Rohanson? Sim… Gostei. Acho que seria ótimo tomar o lugar daquele maldito Conde.”
Negociação concluída. Parece que as condições foram aceitáveis. Afinal, é um condado, né? Dinheiro e poder vêm no pacote, ele não recusaria.
“Agora, vamos fazer a troca?”
Entregue logo a amiga da Hena para mim!
Enquanto esperava pela refém, Donau, de repente, começou a rir, todo animado, balançando a faca em direção à garota. Espera, o que você está fazendo!
“Pare. O que você está fazendo?”
“Terminando a negociação…”
Ah. Então ele queria soltar as mãos e os pés da refém ele mesmo? Ufa. Que alívio. Soltei um suspiro, mas Donau parecia instável. Ele vai mesmo soltar? Não vai me atacar pelas costas?
Não dá. É melhor eu mesma soltar. Preciso pegá-la logo.
“Eu farei isso, me dê essa faca.”
Donau franziu a testa, mas obedeceu. Pensei que finalmente faríamos a troca, mas ele veio em minha direção com a faca.
Será, será que eu o irritei? Foi por falar de forma informal? Ou por dar uma ordem? Não, será que atuar como Evangeline Rohanson foi um erro!
Não sei o que aconteceu, mas parece que, em vez de acalmá-lo, eu o provoquei.
Deu ruim? Não, calma. Vou usar isso como uma oportunidade. O importante é que Donau está focado em mim, e não na garota.
“Hena. Salve a criança.”
Falei usando ventriloquismo. Falei bem baixo para ele não ouvir, mas Hena, que tem ouvidos atentos, assentiu levemente, indicando que entendeu.
Eu atrairei a atenção. Vilãs são especialistas nisso. Confie em mim.
“Sabe. Aquilo de te fazer Conde era mentira.”
“O quê?”
“Você acreditou? Que bobo.”
Ótimo. Não há nada mais irritante do que dar algo e tirar logo em seguida. Ri dele de propósito para deixá-lo com raiva. Ai, estou com dor na barriga de tanto rir. A dor fez o riso parar.
Não é estranho mudar de postura de repente? Mas, já que ficou estranho, decidi agir com confiança.
“Por que eu deveria realizar seu desejo?”
“Você não foi invocada para isso?”
Não fui! Como eu saberia que a amiga da Hena, Kanna, estava presa aqui? Eu só vim buscar um ladrão!
“Eu só vim aqui por causa do meu Círculo de Conjuração.”
Donau baixou a cabeça, sem palavras. Pensei que ele estava em silêncio por ter sido pego, mas, ouvindo bem, ele murmurava algo sem parar.
“…Não deveria ser assim. Algo deu errado. Fiz exatamente igual. Fiz como mandaram, o que faltou? Evangeline Rohanson. Fiz tudo o que você pediu. Por que não funciona comigo? Eu também consigo. Eu também poderia ter sido aquele maldito Conde. Por favor, não me olhe assim. Você também, você também me acha patético? Não me olhe, seu demônio maldito…”
Parecia conversa de louco. Bem, uma pessoa sã não sequestraria a amiga de um colega.
Donau, que murmurava há algum tempo, levantou a cabeça bruscamente. Seus olhos estavam completamente perdidos.
“O preparo estava perfeito, então por que.”
Donau, que encarava o vazio como se estivesse possuído, virou a cabeça rapidamente. Hena estava tentando desamarrar os nós das cordas de Kanna.
“Não solta. O que eu faço? Por que não solta?”
O rosto de Hena estava coberto de lágrimas. Suas mãos tremiam como folhas, então era impossível desamarrar nós complexos.
“Não, não! Meu sacrifício!”
Donau gritou, e Hena, ao ouvir, abraçou Kanna para protegê-la.
Donau esticou os braços, atrapalhado. Parecia tão ansioso que nem olhou para o chão, e uma vela, chutada por ele, rolou pelo piso.
Se continuar assim, as crianças vão se machucar! Fiquei ansiosa. Nesse momento, Donau virou as costas completamente para mim. Não se deve expor a nuca diante de um inimigo! Não perdi a chance e acertei a nuca dele.
Ah! Pensei errado! Eu deveria ter mirado no pescoço, não na nuca! É que aquela parte redonda parecia tão fácil de bater. Mas o efeito foi o mesmo. Mesmo batendo com a mão nua, Donau cambaleou e caiu no chão. Passei por ele e fui até Hena.
“Saia, Hena.”
Vendo aquelas mãos trêmulas, seria mais rápido se eu mesma soltasse. Hena, que estava de olhos fechados, abriu-os cuidadosamente e se afastou.
Parece que Hena estava apenas tensa, pois, assim que toquei nas cordas, elas se soltaram facilmente. Parecia que bastava encostar para que se partissem.
“Agora está tudo bem.”
Um problema resolvido. Meu coração não aguentava mais esse evento espetacular logo após minha possessão neste Isekai.
“Kanna.”
Hena, que estava de lado, abraçou a garota.
“Irmã…”
“Você está bem? Como foi pega? Eu disse para não ficar lá fora! E você nem se recuperou direito!”
“Desculpe, irmã… Eu não sabia que seria pega por alguém assim. Eu estava esperando por você…”
“Eu também sinto muito, Kanna. Que bom que você está a salvo. Que bom que não cheguei tarde.”
Então não eram amigas, eram família. Ver a cena carinhosa das duas me deixou com o nariz ardendo. Eu queria abraçá-las também, mas até agora eu era a vilã imponente; se eu entrasse nessa cena emocionante, quebraria o personagem, não é? Olhei para as montanhas distantes e sequei as lágrimas.
Mesmo que eu não possa chorar com elas, quero ajudar.
“Kanna, não é? O que quer que eu faça com Donau?”
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