Havia uma porta onde Harut apontou. Decidi deixar o nome de Saraka para depois. Agora, havia algo muito mais importante.
Vendo Pudding gemer mesmo enquanto dormia, deve haver uma quantidade imensa de água benta acumulada dentro do quarto. E, se minhas expectativas estiverem corretas.
Finalmente, finalmente poderei ver Jelly.
***
Depois de seguir para o templo na carruagem do Bispo Marik, Henna subiu à torre do sino com o demônio. É o ponto mais alto do templo, que se ergue como se quisesse perfurar o céu.
Acima da cabeça de Henna, havia um sino gigantesco. Quando os sacerdotes o tocavam, o eco fazia todas as paredes e o chão vibrarem. A cada badalada, Henna ficava ali, inerte, imaginando a torre desmoronando.
Abaixo de Henna, havia escadas intermináveis e repetitivas. É uma visão tão vertiginosa que, mesmo agora, é um mistério como consegui subir até aqui.
Henna seguiu com o olhar o lance de escadas abaixo, e o lance abaixo daquele. Se caísse até o fundo, seu corpo certamente seria destruído de forma grotesca.
No momento em que o corpo de Henna se inclinou levemente, ouviu-se um gemido. Era o som do demônio sofrendo, depois que o sacerdote passou durante o dia. Henna, que havia caído da escada e ficado em frangalhos, rastejou de volta para o demônio.
Henna recebeu a função de vigiar o demônio. O quarto na torre do sino estava repleto de água benta em cada prateleira. Se alguém que conhecesse o valor da água benta visse aquilo, seus olhos brilhariam.
Como havia água benta por toda parte, o demônio, com o corpo debilitado, não conseguiria fugir por conta própria. Mas disseram que, como era necessária uma garantia absoluta, Henna deveria cumprir esse papel.
O Bispo Marik confiou a Henna uma tarefa importante. Portanto, ao contrário do que o demônio dizia, ela não estava presa ali por ter sido enganada por uma língua astuta.
Henna vigiou o demônio, conforme as palavras do Bispo. Ela apenas observou.
Henna viu o demônio ser torturado, viu sua carne apodrecer e, ainda assim, viu que ele não conseguia morrer.
O demônio já estava em um estado deplorável devido à água benta que Henna, seguindo ordens, fez uma criança espalhar. Além disso, os sacerdotes autorizados a entrar no quarto costumavam derramar água benta em Jelly “por acidente”, então não restava nem sombra daquela aparência esbelta que ele tinha na mansão Rohanson.
O que era vermelho parecia um bebê gigante recém-nascido. O demônio não conseguia mover um dedo, nem o corpo.
Aquela aparência fraca, que não conseguia fazer nada sem a ajuda de Henna e que não tinha ninguém em quem se apoiar além dela, era muito familiar.
“É como quando meu irmão estava doente.” Antes de Kanna se levantar do leito de enfermo, ela não conseguia mover um músculo, exatamente como o demônio à minha frente. Naquela época, meu único desejo era a recuperação de Kanna…
Henna, que viu seu irmão refletido no demônio, tornou-se um pouco mais tolerante sem perceber. Henna era fraca com quem dependia dela.
— Quer que eu te mate?
— Por quê? Vai espalhar mais água benta?
O demônio zombou. Henna tinha tomado coragem para oferecer um favor, mas o demônio pisoteou impiedosamente sua consideração.
— Tudo bem. Vou te dizer. Para matar um demônio, não basta espalhar água benta. Você tem que molhá-lo bem e depois queimá-lo. Entendeu? Ah, isso você já tentou. Então, que tal colocá-lo em água benta fervente?
— ……
— Por quê? É um método cruel demais? Mas é muito mais fácil do que quebrar a confiança e trair a fé. Você já fez coisas piores, por que finge ser tão ingênua? Ah, você também foi descartada pelo Bispo Marik, então está se sentindo nostálgica?
— Feche essa boca. O Bispo não me descartou.
— Parece que o que eu digo te incomoda. Então, me mate logo e me faça calar a boca. Por que não me mata de uma vez? Já que a água benta está pronta aqui, é só acender o fogo.
Como o Bispo disse, o demônio era mestre em palavras que feriam as pessoas. Henna decidiu que não trocaria mais palavras com o demônio por um tempo.
Certo dia, o sacerdote que trazia as refeições diariamente não apareceu. Henna passou aquele dia inteiro em jejum. Foi apenas um dia sem comer, mas, estranhamente, sua mente começou a se desgastar rapidamente. Certamente, era porque o jejum a deixava com fome, causando suores frios e uma ansiedade que apertava seu estômago.
— Ei, por que você está assim?
O demônio, esquecendo-se de que a arranhara e insultara tanto, falou com Henna. Ela tinha decidido não falar com ele. Não, será que foi Henna quem decidiu isso?
— Como assim, “por que estou assim”?
— Você está chorando…
Estou chorando. Henna tateou o próprio rosto. Estranhamente, estava úmido. As pontas dos dedos tremiam. Henna sentiu o coração apertar.
Algo, algo estava errado. Henna sentiu como se algo estivesse a sufocando. Por que estou aqui? Ah, era para recuperar Kanna. Mas onde está Kanna? Kanna? Preciso ir procurar Kanna agora mesmo!
A mente de Henna estava sobrecarregada e não conseguia aceitar a realidade. Ela se levantou de repente, mas sua cabeça girou e seu corpo cambaleou. O corpo de Henna bateu na vitrine e, com o impacto, um frasco caiu no chão e quebrou.
O quarto ficou uma bagunça. A cada passo, ela pisava em cacos de vidro. A água benta vazou pelo chão e alcançou o demônio. As costas do demônio começaram a soltar fumaça e um som de fervura.
Henna caminhou em direção à porta. Apenas o pensamento de que precisava ir até seu irmão permanecia como uma verdade absoluta. No entanto, a porta estava trancada. Henna não deveria estar presa, então por que a porta não abria?
Será que o Bispo realmente enganou Henna? Henna, que puxava a maçaneta trancada com força, virou o corpo ao ouvir um som atrás de si.
— Ugh…
O demônio gemeu de dor. Henna caminhou cambaleando e estendeu a mão para o demônio.
Você estava aqui! Henna encontrou seu irmão. Como sempre, seu irmão estava deitado, imóvel, esperando por Henna.
Henna olhou para seu irmão com pena.
Seu irmão estava sofrendo. Meu pobre e lamentável irmão, que não conseguia comer, dormir ou sorrir sem Henna… Como ele estava sofrendo, Henna precisava fazer algo.
Mas como não podia sair, não conseguia buscar remédios. Henna, preocupada, percebeu tardiamente o estado de suas mãos. Como estava com as mãos no chão, cacos de vidro haviam se cravado nelas.
Sua mente estava tão entorpecida que ela não sentiu a dor corretamente. Henna olhou para as mãos, retirou os cacos de vidro e levou a mão sangrando até seu irmão. Pelo que ouviu do Bispo, seu irmão era um demônio, então ele se recuperaria comendo carne humana.
— Vamos, coma.
Como seu irmão recusava ferozmente, Henna forçou a mão contra a boca dele. Seu irmão, ao provar o sangue de Henna, soltou uma risada seca.
— Ha, eu achei que você tinha enlouquecido, mas era verdade.
Seu irmão chamou Henna. A voz estava estranhamente mais gentil do que antes.
— Ei.
— Sim… Kanna.
— A partir de amanhã, não coma nada. Já que está cheio de água benta aqui, coma isso. Entendeu?
Vendo que ele falava de forma grosseira, será que foi um engano? À pergunta de se ela entendeu, Henna assentiu suavemente.
A partir de então, Henna pulou as refeições. Como seria suspeito se sobrasse comida, disseram que Jelly comeria a parte de Henna.
Henna, que tinha experiência em cuidar de pacientes, também era habilidosa em servir refeições. Jelly terminou de comer e lambeu os lábios.
— Comer esse tipo de coisa faz a cabeça da criança estragar. É isso. A criança estava estranha por causa disso.
Murmurando e balançando a cabeça vermelha, ele parecia concordar com algo.
Em vez de comer, Henna bebia água benta. Os sacerdotes não apontavam o fato de que o chão estava uma bagunça com cacos quebrados, e nem percebiam se um ou dois frascos de água benta desapareciam. Como ela estava usando essa coisa cara e difícil de conseguir como substituto de refeição, Henna sentia o estômago pesado, mesmo sem ter comido nada.
— Você não está com fome?
Jelly perguntou, preocupado com Henna. Henna, sem saber como responder, sorriu de forma desajeitada.
— Estou bem.
Já fazia vários dias que ela pulava as refeições, mas, talvez devido aos efeitos da água benta, não sentia fome.
— Agora você está um pouco mais lúcida?
— ……
A voz parecia preocupada com Henna, ou talvez zombeteira.
Os olhos amarelos, estreitos e afiados, observavam Henna. Henna, pensando no que responder, escolheu apenas assentir em silêncio. A água benta recuperou tudo, desde sua mente confusa até seu estômago, e ela estava mais lúcida do que nunca nos últimos tempos.
Henna não confundia mais Jelly com Kanna, e sua mente não ficava mais nublada como antes. Na verdade, como Henna recuperou a sanidade logo após esvaziar um frasco de água benta, a pergunta de Jelly parecia tardia.
Mas talvez ele estivesse perguntando só agora, depois de vê-la lutar contra memórias que surgiam fracamente, como se estivessem cobertas por uma fumaça espessa, mesmo depois de ter recuperado a consciência por um tempo.
Embora eu não queira acreditar, talvez Jelly estivesse sendo atencioso com Henna. Mas por quê? Mesmo com a mente clara, eu não conseguia entender bem.
Até então, no senso comum de Henna, Jelly era o inimigo que tirou a vida de seu irmão e depois colou a carcaça para fingir que ele estava vivo. Mas um demônio que comete atos tão horríveis pularia no meio das chamas para salvar crianças?
Além disso, embora Jelly zombasse frequentemente, era evidente que ele se preocupava com Henna.
Jelly explicou que colocaram drogas na comida de Henna no templo. Uma espécie de narcótico, e que o que Henna apresentou quando pulou uma refeição foi um sintoma de abstinência.
Não, talvez isso fosse apenas Jelly atuando para enganar Henna. Como o Bispo Marik disse, as coisas profanas sempre tentam iludir os outros.
Mesmo nessa situação, Henna sentia ressentimento por Jelly. Por que ele fez Henna beber água benta? Por que ele disse para Henna pular as refeições? Por que ele me contou a verdade?
Por que, por quê! Você finalmente me devolveu à realidade.
Por que…
Será que ele é realmente um demônio cruel e impiedoso?
Enquanto ela vagava por perguntas que se acumulavam, Jelly chamou Henna.
— Se você recuperou a consciência, limpe essa bagunça. Ouço passos subindo as escadas.
Parece que está na hora dos sacerdotes virem recolher os pratos vazios. Henna guardou os frascos vazios de água benta no canto. Mesmo que os sacerdotes não se importassem, ela não queria criar motivos para suspeitas.
Logo a porta se abriu e um sacerdote vestido com roupas brancas entrou. O sacerdote cumprimentou com um sorriso gentil.
— Fiel. Você terminou sua refeição?
— Ah… sim. Com certeza.
Henna reagiu deliberadamente de forma lenta.
Quer o templo tenha drogado Henna ou Jelly tenha enganado Henna, ela agiu como se tivesse perdido a sanidade por um tempo. Como não estava claro qual dos dois era, ela não podia mostrar mudanças de repente.
O sacerdote olhou discretamente ao redor do quarto, lançou um olhar para Jelly e pegou os pratos vazios. O sacerdote, que olhava para os pratos limpos, onde a comida tinha sido totalmente consumida, fez uma pergunta inesperada.
— Parece que a refeição estava do seu agrado?
— Sim, sim… estava deliciosa. Mas por que você pergunta isso…?
Quando Henna perguntou de forma desconfiada, o sacerdote inclinou a cabeça como se algo estivesse errado.
— É que o cozinheiro cometeu um pequeno erro desta vez.
— Um erro?
O sacerdote assentiu.
— Sim. Dizem que o leite que foi para o mingau estava estragado. Eu naturalmente pensei que a fiel teria deixado o mingau de lado… mas fiquei surpreso ao ver que você limpou tudo.
Henna ficou tensa, sentindo que o sacerdote a observava com suspeita.
O leite do mingau estava estragado? Mas o Sr. Jelly não disse nada sobre isso… Se o leite estivesse estragado, não teria como eu comer sem perceber. Henna tentou não olhar na direção de Jelly.
— Estranho. Não é como se a fiel tivesse perdido o paladar…
O sacerdote deixou a frase no ar. Henna pensou por um momento se deveria mudar sua resposta, mas balançou a cabeça.
— Ah… leite estragado… talvez, não houvesse nada de errado com a minha refeição. Estava realmente deliciosa.
— É mesmo?
O sacerdote olhou para Henna com um tom de dúvida.
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