O diário terminava ali.
Eu me perguntava como Amaranth, confinada na mansão Rohanson, teria conseguido colocar as mãos no círculo de conjuração herético, mas agora eu sabia. A resposta era a criada chamada Pachira. Amaranth certamente havia recebido o círculo de conjuração das mãos dela.
Será que o papel que vi pela primeira vez também era uma carta de Pachira? Na carta, havia um texto escrito junto com um símbolo familiar. Era uma caligrafia conhecida. Sem dúvida, fora escrita pela mesma pessoa que redigira o papel que vi anteriormente. Comecei a ler a carta.
Método para invocar Léa
Ó tu que estás no fim,
Profana a terra com o martírio do inocente.
Desenha o círculo com tuas mãos ensanguentadas.
Implora pela salvação com contrição.
Faze com que as uvas brotem dos espinheiros,
E que os figos frutifiquem dos cardos.
Reverencia e adora.
Recebe o anjo da luz que, após percorrer a terra, descerá sobre o mundo.
Do vazio caótico, segue o caminho das estrelas,
Desperta das trevas e cobre o mundo.
Eu sou a sombra mais longa sob o sol poente,
Aquela que nasceu no crepúsculo e vive na noite,
A única salvação que te terá compaixão sob a luz do dia.
Então era esse o conteúdo daquele manual incompreensível. Mesmo conseguindo ler as palavras, o entendimento continuava tão difícil quanto antes.
Mas era o suficiente.
O momento também estava correto. O sol fugira e o mundo se inclinara. Embora o mundo inteiro estivesse vermelho, como se um filtro de pôr do sol tivesse sido aplicado, o céu começava a se tingir de preto desde o horizonte.
O próximo passo era desenhar o círculo de conjuração.
Puxei a espada que Gabriel carregava na cintura e cortei a palma da minha mão sem hesitar. Cerrei os dentes com a sensação de ardência. Ao fechar o punho, o sangue brotou ainda mais. Desenhei um círculo ao redor de Gabriel.
Como uma mão parecia insuficiente, cortei a outra. A parte que segurava o papel ficou manchada de vermelho.
Não sei se foi por ter perdido muito sangue, mas minha cabeça girava. Cambaleei e quase caí várias vezes, até que não tive escolha a não ser me ajoelhar. Concentrei-me para não errar, e o suor começou a escorrer. Minhas costas estavam úmidas. Esqueci-me até de respirar, e o fôlego me faltava.
Assim, finalmente, terminei de copiar tudo.
— Terminei…
Minhas mãos e braços estavam um caos. O que faltava agora era o sacrifício. Só havia uma coisa que eu podia oferecer. Ergui a espada. A ponta afiada da lâmina estava voltada para mim.
— Vou fazer um pedido.
Fechei os olhos com força.
— …Sir Gabriel….
No momento em que eu estava prestes a puxar a espada, algo bateu com força na janela. Com o estrondo, abri os olhos e olhei para o vidro.
— …Corvos?
Corvos, que não sei de onde vieram, batiam contra a janela de vidro como se quisessem invadir o quarto. *Poc, poc.* O ato de baterem a cabeça e escorregarem pelo vidro se repetia. Quando a janela começou a ficar manchada de um vermelho escuro, o vidro, não suportando mais o impacto, estilhaçou-se.
Reflexivamente, abracei Gabriel para protegê-lo dos cacos. Senti uma ardência na bochecha, como se um estilhaço tivesse me atingido, mas, felizmente, Gabriel estava a salvo.
O bando de corvos gigantes que voou através da janela quebrada caiu sobre o círculo de conjuração que eu desenhara, como se aquele fosse o destino deles desde o início. Para ser exata, eles começaram a morrer ao se chocarem contra o círculo.
Olhei para os pássaros negros que se contorciam aos meus pés, com as asas farfalhando antes de finalmente endurecerem e morrerem, e murmurei, tomada pelo horror.
— O que é isso…?
Era uma visão grotesca.
Lá fora, tudo estava vermelho, e ver os cadáveres dos corvos em um lugar que não passava de uma ruína lembrava uma cena de filme de terror. Bem, como eu estava tentando invocar um demônio, o contexto era semelhante.
Vendo esse fenômeno estranho, será que eu tinha conseguido invocar Léa? Mas eu nem tinha oferecido o sacrifício corretamente ainda.
— Eu suprirei o sacrifício que falta.
Assustei-me com a voz que surgiu sem aviso.
Ao virar a cabeça reflexivamente na direção do som, vi um corvo sentado no parapeito da janela, alisando as asas. Era o oposto dos outros pássaros que voavam como mariposas para a luz.
Por que aquele estava vivo? E, mais importante, foi aquele pássaro que falou agora há pouco? Parecia que ele tinha lido meus pensamentos e dito que “supriria o sacrifício que falta”…
Não pode ser que aquilo seja Léa, pode?
Enquanto eu observava, o corvo que alisava as asas inclinou a cabeça de um lado para o outro. Por mais que eu olhasse, parecia apenas um pássaro comum.
— Não podemos deixar que algo precioso morra novamente.
Desta vez, a voz veio de outro lugar.
Virei a cabeça novamente. O som vinha da direção do círculo de conjuração. Como havia muitos mortos ali, não dava para saber qual deles falara.
No entanto, logo não precisei mais descobrir quem falara. Os cadáveres empilhados como uma torre sobre o círculo começaram a se contorcer e a se fundir.
Eles se tornaram uma massa, como argila sendo amassada, e finalmente se transformaram em algo parecido com um ovo. A superfície da casca estava coberta pelo que pareciam ser penas de corvo.
E aquilo… começou a se abrir, lenta e vagarosamente.
Só então percebi que não era um ovo, mas asas enroladas.
As asas se dividiram em duas e se abriram lentamente. Cada asa tinha um tamanho que, a julgar pelo tamanho, preencheria metade do quarto. Os objetos que as asas roçaram caíram no chão e se quebraram, e até o lustre que balançava precariamente no teto caiu e se estilhaçou.
Foi só depois de destruir metade da mansão, que já era uma ruína, que aquilo conseguiu abrir todas as suas asas.
Era uma visão verdadeiramente impressionante e avassaladora.
Penas negras voavam, e a luz vermelha do pôr do sol filtrava-se entre elas.
O que apareceu após abrir completamente as asas era uma pessoa de aparência muito familiar, exceto pelo fato de estar com os olhos fechados.
Quando a mulher estendeu a mão, o corvo que estava no parapeito da janela voou e pousou em seu braço branco como a neve.
A mulher acariciou o corvo com muita suavidade. Sem perceber, eu estava gravando cada movimento dela. Toda vez que ela se movia com seus cabelos brancos ondulados, eu não conseguia desviar o olhar.
Tive uma estranha convicção sem fundamento. Aquilo não era como os outros demônios. Eu sabia, por ter visto Pudding, Jelly e Azazel. Havia algo essencialmente diferente.
Em um único instante, compreendi profundamente por que os hereges a adoravam e por que o templo a temia e repelia.
Aquilo paralisava a razão, pois estava muito além dos limites dos sentidos humanos. A repulsa avassaladora, a ponto de causar náuseas, atingia o ápice e, paradoxalmente, era considerada sagrada e reverenciada.
No entanto, aquilo era um pedaço de carne vestindo a pele humana. Um agente funerário vestindo a pele de um santo. Uma fé construída sobre a impiedade.
Embora tivesse uma forma bela, se olhasse de perto, veria entranhas, sangue e carne entrelaçados. Parecia que, se eu não tomasse cuidado, minha percepção se distorceria e eu acabaria reconhecendo o que era mais repugnante como algo sublime. Por isso, eu precisava ter em mente que o corpo que a compunha era feito de cadáveres.
Só quando ela fechou as asas que abrira completamente é que consegui respirar.
— …Léa.
Sob o céu onde o crepúsculo começava a se tingir de breu, o anjo que descera sobre a mansão reduzida a cinzas me observava através de suas pálpebras fechadas.
— Olá, minha filha.
O corvo que estava no braço de Léa inclinou a cabeça e disse. A voz que saía do bico do pássaro não soava como uma fala humana, mas como um papagaio imitando palavras.
A mulher, por sua vez, permanecia com os olhos suavemente fechados, servindo de suporte para o corvo.
Soltei uma risada seca sem perceber.
Então, por que aquilo tinha que ter a aparência de Amaranth? Fingir ser a falecida Amaranth e me chamar de filha era um gosto peculiar, para dizer o mínimo. Assim que pensei nisso, o corvo bateu as asas e grasnou, como se estivesse refutando.
— Gosto peculiar…? Você pode me dizer isso? Eu posso ser a corda de salvação que atenderá aos seus desejos, sabe?
Como esperado, não era uma ilusão Léa ler minha mente.
— E, infelizmente, eu sou mesmo sua mãe. Esse é um fato que nem Amaranth pode negar.
Léa aproximou-se de mim, arrastando seu vestido pelo chão. A cada passo, a forma da bainha de sua saia se desfazia em carne, apenas para se transformar novamente em rendas esvoaçantes.
— Você já não sabe? Amaranth me invocou e pediu para que eu criasse alguém que a amasse apenas a ela. Chamar-me por amor… quão lamentável, quão triste e quão patético isso pode ser. Como eu poderia recusar tal pedido?
E, parando bem na minha frente, Léa estendeu a mão para mim. O corvo voou por um momento e voltou a se acomodar no ombro de Léa.
Enquanto eu a abraçava com força, protegendo Gabriel e desconfiando de sua ação repentina, Léa riu, como se estivesse observando crianças brincando de casinha.
— Por isso, escondi-me nas sombras e criei você.
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