O Bispo Marik finalmente desembainhou a espada? Mas, se fosse quando ele estava mergulhado em drogas, talvez fosse diferente; agora, essa notícia não soava nada bem.
Se a Lady Rohanson fosse executada, então, Kanna… O que aconteceria com Kanna? Não era preciso pensar muito, considerando o histórico do Bispo Marik.
O Bispo Marik arrancaria Kanna de mim sem qualquer remorso, quebrando até mesmo a promessa que fez a Henna de devolvê-la ao normal. Ele a mataria da maneira mais cruel possível, como se quisesse exibir para todos que ela era a pessoa mais próxima da Lady Rohanson.
Minha mente começou a ficar turva por não conseguir respirar direito, e inúmeras hipóteses terríveis surgiram como se fossem um pesadelo. Enquanto Henna estava distraída, o cavaleiro puxou a espada que estava cravada como um espeto. Gotas vermelhas escorreram pela lâmina e pingaram no chão.
Tudo acabou? Mal Henna sentiu um pouco de alívio, o cavaleiro estendeu a mão, agarrou o cabelo de Jelly e levantou seu rosto. Mesmo com o corpo servindo de bainha, o olhar dele ainda era feroz. O cavaleiro estalou a língua e soltou. O corpo de Jelly caiu no ar, atingindo o chão novamente com um gemido de dor.
O cavaleiro pressionou o pé com força, como se quisesse esmagar Jelly. Era exatamente onde a espada estava cravada momentos antes. Jelly se contorceu de dor. O cavaleiro franziu a testa ao ver Jelly se debatendo, tentando escapar debaixo dele.
— Rastejar pelo chão te faz parecer um verme.
O cavaleiro comentou com desdém.
— É um apelido que combina perfeitamente com você, imundo, vulgar e repulsivo.
Ele pisou na cabeça de Jelly para que não pudesse olhar para o sol. A visão de Jelly rastejando pelo chão parecia satisfazê-lo.
Parecia que ele tinha terminado sua vingança satisfatória. O cavaleiro tirou um lenço, umedeceu-o com água benta para limpar o sangue do próprio rosto e lavou a espada que ainda pingava sangue. Limpar apenas o sangue não apagaria sua natureza vil, mas ele agia como se fosse alguém nobre e elevado.
O frasco vazio caiu no chão e se estilhaçou. Henna sentiu como se fosse ela mesma quem tivesse se quebrado.
— Se eu tiver que cortar a cabeça de Evangeline Rohanson, talvez eu te deixe ver a cabeça dela depois.
Era uma atitude condescendente, como se estivesse fazendo um favor. O cavaleiro ordenou que Henna limpasse o chão e saiu do quarto.
Depois que o cavaleiro saiu, Henna foi até Jelly, movendo-se de joelhos. Suas pernas tremiam tanto que ela não conseguia andar direito. Quanto mais se aproximava de Jelly, mais seus joelhos ficavam manchados de vermelho.
— Você… você está bem?
O estado de Jelly, visto de perto, era ainda pior. Pela primeira vez, ela pensou que Jelly realmente morreria.
— A menos que… me joguem… em água benta… fervente… eu não morro….
A voz que ele forçou a sair estava rouca e esfarrapada, mas Henna soltou um suspiro de profundo alívio. Ele ainda estava vivo. Ainda.
Henna tirou o casaco e esfregou a água benta do chão. Havia uma poça de água benta tingida de vermelho sob Jelly.
Enquanto limpava o chão, Henna sentiu-se patética e inútil. Enquanto sentia raiva da atitude do cavaleiro, ela percebeu que não era diferente do que ela mesma havia feito com Jelly no passado.
Como ela não usou as próprias mãos como o cavaleiro, mas enganou uma criança para usá-la como ferramenta, a culpa de Henna era ainda pior. Henna não conseguia entender Jelly de jeito nenhum. Como Jelly podia se preocupar com ela? De quem era a culpa de ele estar naquele estado?
Ela enxugou o suor que brotava em sua testa. Seus olhos ardiam, talvez pelo suor ter entrado neles. Ela esfregou os olhos com a manga áspera, deixando-os logo irritados.
O sangue da manga manchou seu rosto, mas Henna não se importou. Estranhamente, mesmo limpando, as gotas continuavam a se formar.
A roupa que ela usava para limpar a água do chão logo ficou encharcada. Ela estava caída, pingando água, não muito diferente do estado de Henna. E foi quando ela estava limpando o frasco quebrado.
Henna olhou para Jelly com a visão turva. Mesmo tendo limpado a água benta perto de Jelly, ele ainda parecia sofrer. Ele se contorcia de dor. Era diferente de antes, quando ele logo recuperava a consciência.
“E se ele realmente morrer assim?”
Henna sentiu um medo súbito. Era como se algo estivesse pesado em seu coração.
Após hesitar, Henna tomou uma grande decisão: quebrou outro frasco vazio e pegou um pedaço grande de vidro.
Com as mãos trêmulas, Henna encostou o caco de vidro em seu braço. Quando ela estava sob o efeito de drogas e confundiu Jelly com seu irmão, dando-lhe o sangue de Henna, houve uma melhora, por menor que fosse.
— O que… você… está fazendo? Não… pare?
Jelly, adivinhando o que ela pretendia, tentou impedi-la, horrorizado.
Henna fechou os olhos com força. Da última vez, sua mente estava confusa por causa da droga, mas era a primeira vez que ela se cortava com a mente sã.
Com uma sensação de ardência, Henna abriu os olhos. Seu braço latejava. O corte foi mais raso do que ela pensava. Como não conseguiu aplicar força suficiente, ela apenas arranhou a pele superficial. Henna ofegou. Suas costas estavam encharcadas de suor.
Naquele momento, ouviu passos do lado de fora. Sentiu os pelos do corpo se arrepiarem. Henna olhou para a porta e, instintivamente, colocou-se na frente de Jelly, protegendo-o, e ficou perto da porta.
Será que o cavaleiro de antes estava voltando? Jelly ainda nem tinha se recuperado direito…. Tudo era culpa da demora de Henna.
O som ficou mais próximo, e Henna, tensa, segurou o caco de vidro com força e o ergueu. Ela pretendia esfaquear quem entrasse assim que a porta se abrisse. Ela prendeu a respiração, com medo de que o som de sua respiração escapasse.
A porta se abriu de repente. Henna piscou os olhos ao ver a pessoa que apareceu do outro lado.
— Ha, agora… estou vendo… coisas.
Parecia que Jelly também estava vendo a mesma ilusão.
***
Fiquei sem palavras ao ver a cena assim que abri a porta. O cheiro que eu sentia exaustivamente enquanto percorria as prisões do templo atingiu meu nariz novamente.
Engoli em seco sem perceber. Rico se enfiou nos meus braços. Seus bigodes tremiam sem parar, como se representassem seu medo. Pelo menos Pudding ainda estava dormindo, então foi uma sorte ele não ver uma cena tão cruel.
— Isso é….
Harut cobriu a boca, horrorizado. Embora eu soubesse que não era culpa de Harut, fechei a boca com força, sentindo vontade de ironizar perguntando onde aquilo parecia um depósito.
O interior da sala, perto do sol, era muito frio. Como havia frascos de água benta empilhados em grandes armários, era de fato um depósito.
O problema era que, antes da água benta, o que chamou minha atenção foi Jelly em um estado deplorável. Ele estava tingido de vermelho da cabeça aos pés, restando pouca cor original.
Parecia um cadáver. Não, seria mais fácil acreditar se dissessem que era carne bem picada do que um cadáver. Fiquei surpresa comigo mesma por ter reconhecido que era Jelly.
O corpo de Jelly estava coberto por marcas de violência explícita. Até os prisioneiros detidos no subsolo do templo não estavam tão ensanguentados quanto Jelly. Eu não sabia que a aparência deles seria tão melhor.
— …Ele está vivo?
— Ho…je… fui mal-entendido várias vezes…. Ainda estou… bem vivo….
Quando Harut perguntou gaguejando, Jelly anunciou sua sobrevivência. “Ainda”, o quê? Ele só estava vivo de boca.
Henna parecia estar em um estado muito melhor em comparação a Jelly. Embora seu rosto estivesse coberto de lágrimas, suas roupas estivessem manchadas de vermelho, seu braço estivesse pingando sangue e ela estivesse segurando um caco de vidro com força, causando ferimentos em suas mãos também.
Não, acho que meu senso comum ficou distorcido depois de ver o estado de Jelly. Como Jelly estava em um estado muito pior ao lado, ela parecia relativamente bem. O estado de Henna também era uma bagunça.
Suspirei por dentro enquanto olhava para Henna. Como eu e Kanna estávamos bem ali, a determinação de dar um soco satisfatório no Bispo Marik por ele ter enganado Henna perdeu o sentido.
Eu pensei que ela estaria sendo tratada como uma rainha…. Não, se o Bispo Marik levou minha criada, ele deveria tê-la tratado bem, então por que ela está nesse estado? Mastiguei minha insatisfação e acumulei mais um rancor contra o Bispo Marik.
— …Lady Rohanson? É realmente a Lady Rohanson…?
Henna, que me olhava atordoada, chamou-me como se não pudesse acreditar. Então, o que eu seria, uma falsa? Henna, sentindo meu olhar, deixou cair o caco de vidro no chão e escondeu as mãos atrás das costas. Ela já parecia culpada, mesmo sem eu perguntar nada.
— Eu não fiz isso sabendo que era a senhora. Achei que o cavaleiro tinha voltado….
— Cavaleiro?
Pelo que Henna disse, significava que toda essa bagunça foi feita por aquele cavaleiro. Com alta probabilidade, ele ajudou a deixar Jelly naquele estado.
— Como era esse cavaleiro?
Henna respondeu gaguejando à minha pergunta.
— Nariz adunco… e cabelo comprido….
Estranhamente, era uma descrição que eu já tinha ouvido em algum lugar. Era exatamente o cavaleiro que eu tinha acabado de enfrentar.
Não precisava ouvir mais nada, era Nakir. Como ele ousa fazer algo assim? Meus dentes rangeram.
Mesmo que houvesse evidências circunstanciais de que eu não era o Bispo Marik, percebi que ele era um sujeito de caráter duvidoso desde o momento em que levantou meu véu. Mas, vendo essa cena, parece que aquilo foi o máximo de cortesia que ele conseguiu demonstrar.
Eu deveria ter cortado a garganta de Nakir. Entrada sem derramamento de sangue, que método pacífico eu escolhi. Claro, métodos pacíficos são bons. Mas vou redefinir minha definição de paz a partir de agora. De agora em diante, o nome do meu punho é Paz. Há muitas pessoas que preciso apresentar à Paz.
— Henna. Seu braço também foi ferido por aquele cavaleiro?
Henna balançou a cabeça.
— Isso… eu mesma fiz para dar sangue ao Jelly….
Jelly é algum tipo de vampiro? Bem, é algo parecido. Como Jelly está nesse estado, qualquer pessoa com um pingo de compaixão não conseguiria ficar sem tomar alguma medida.
Hesitei por um momento entre Henna e Harut, e confiei Pudding a Harut. Harut aceitou Pudding naturalmente, embora estivesse atordoado. Desculpe, Henna. Como a ferida da traição ainda dói, não posso te confiar Pudding. Não sou uma santa, então guardo rancor por muito tempo.
— Você não disse que não confiaria seu coração a estranhos…?
Harut perguntou, desconfiado.
— Então parece que o sacerdote não é mais um estranho.
Claro, eu confio em Rico. Rico, agarrada a Pudding, sussurrou que ela vigiaria Harut e balançou a cabeça com determinação.
— Sacerdote Harut, você poderia ficar de guarda?
Como parecia que Harut ia vomitar a qualquer momento, achei melhor deixá-lo de guarda como desculpa. Acima de tudo, como era uma sala cheia de água benta, seria um lugar difícil para Pudding ficar por muito tempo.
— Sim. Avisarei assim que ouvir qualquer presença.
Deixei Harut, Pudding e Rico do lado de fora e fechei a porta. Como estava completamente vedado, o cheiro de sangue ficou ainda mais forte.
Entrei na sala e me ajoelhei ao lado de Jelly. Apenas o chão ao redor de onde Jelly estava deitado estava excepcionalmente limpo.
— …Mes…tre.
Jelly tinha se transformado em um lobo nesse meio tempo. Provavelmente porque ele não queria me mostrar seus ferimentos. Como os ferimentos estavam escondidos sob os pelos, não consegui distinguir o quanto ele estava ferido. Franzi a testa enquanto examinava o estado de Jelly.
Olhando de perto, a carne que aparecia entre os pelos não estava apenas inflamada, mas derretendo. Sangue continuava a jorrar do abdômen. É louvável que ele tenha aguentado até agora; algo subiu em meu peito ao pensar que ele se feriu assim porque demorei muito para encontrá-lo.
— Esperou muito?
— Es…perar…? Eu sozinho… poderia ter fugido… o suficiente, por que você veio…?
“Está bem”, o quê? Jelly tentou fingir, mas se encolheu de dor.
Eu acariciei a cabeça de Jelly. Jelly ficou confuso por um momento, mas logo entregou a cabeça ao meu toque. Por alguma razão, minha visão estava embaçada. Jelly me olhou com os olhos arregalados.
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