O rosto corado de Jace era a própria imagem de um homem apaixonado. No início, ele havia ignorado e tentado evitar Kanna por ser apenas uma criada da Lady Rohanson, mas ela era alguém de quem era impossível desviar o olhar.
Ela era clara e radiante. Suas roupas eram elegantes e bem cuidadas. Até mesmo suas mãos eram extremamente macias, como se nunca tivessem feito um trabalho pesado. Na verdade, seria fácil acreditar que ela era uma jovem nobre. Jace sentia-se tímido ao lembrar do toque de Kanna.
— Por favor, beba, Sr. Jace.
Ela até mesmo se dera ao trabalho de decorar o nome dele, mesmo tendo se visto apenas por alguns dias.
Não, isso seria impossível a menos que ela tivesse algum interesse nele. O fato de suas mãos terem se tocado levemente agora pouco… será que aquela criada não estaria interessada nele?
Jace começou a desenhar um futuro em sua mente, imaginando que, após se aposentar, poderia ir com Kanna para um campo tranquilo, onde construiriam um lar e viveriam felizes para sempre.
— Sr. Jace?
Ora, parece que ele se deixou levar demais pelos pensamentos. Jace apressou-se em tomar a água benta.
Pensando bem, não havia motivo para a Lady Rohanson enganar as pessoas. A água benta que Kanna lhe dera parecia muito sagrada; bastava olhar para saber que era autêntica. Parece que Jace estava pensando demais.
Por alguma razão, a quantidade de água benta distribuída a ele parecia muito generosa. Isso era, sem dúvida, um tratamento “especial”. Não era possível que os outros tivessem recebido tanto daquela água preciosa.
Jace engoliu a água benta de uma só vez. Era para mostrar sua masculinidade. Ele até deixou um pouco escorrer pelo canto da boca de propósito. Ele se lembrou de ter visto as criadas da mansão admirarem os cavaleiros bebendo água de forma voraz, então decidiu imitar.
Ao olhar de soslaio, viu que Kanna o observava com um sorriso radiante.
‘Ela está olhando para mim…!’
Sem dizer uma palavra, Jace bebeu tudo de uma vez e devolveu o copo. Desta vez, suas mãos não se tocaram. Kanna era realmente habilidosa em se aproximar e se afastar. Não deveria dizer isso, mas o fato de ela sorrir para todos… parecia um pouco fácil demais.
Ainda assim, se Jace dissesse que queria alguém que sorrisse apenas para ele, ela certamente se arrependeria de ter sido tão pouco recatada e mudaria sua atitude imediatamente.
— Sente-se bem?
— Totalmente…!
Sua voz falhou. Jace sentiu vontade de se esconder em um buraco de rato de tanta vergonha. Ah, diziam que ratos traziam doenças? Então, em outro lugar que não fosse um buraco de rato… Talvez fosse pela vergonha, mas ele sentia um calor subindo por dentro.
Kanna, parecendo preocupada, olhou para ele com o sorriso completamente desfeito.
Ele estava prestes a dizer que estava bem e que ela não precisava se preocupar.
— …Ugh.
Sangue vermelho jorrou da boca de Jace. Kanna recuou um passo. Jace sentiu-se um pouco ferido pela atitude dela.
— …Sangue?
Ele havia vomitado sangue? ‘Eu’? Jace cobriu a boca. Sentia como se seu interior estivesse queimando. Algo estava se contorcendo em seu estômago.
— Encontrei mais um.
Às palavras de Kanna, o mordomo que estava ao lado anotou algo no papel. ‘Jace, 37 anos, homem.’ Como Jace tinha uma boa visão, conseguiu ler imediatamente. Acima do nome de Jace, que o mordomo acabara de escrever, havia vários outros nomes.
‘Cade, 22 anos, homem.’
‘Nox, 45 anos, homem.’
E continuava, e continuava acima disso. Uma lista interminável. O nome de Jace estava no final da lista.
‘Espere, Cade?’
Era um nome que ele não esquecia. Porque a criada por quem Jade tinha sentimentos gostava de Cade. Mas não diziam que aquele jovem bastardo de Cade tinha fugido com a água benta? Ele não entendia por que o nome daquele sujeito estava ali.
Antes que Jace pudesse processar, ele vomitou sangue novamente. Sua garganta ardia. Desta vez, o que Jace vomitou não foi apenas sangue. Algo sólido…
— …Ué?
Jace percebeu o que havia vomitado e cambaleou. Kanna não o segurou.
— Rato, é um rato.
O que Jace vomitou foi a carcaça de um rato. Estava cortada ao meio e encharcada de sangue, mas bastava ver a cauda longa para reconhecê-la.
— Por que… por que eu vomitei um rato…?
Jace sentiu náuseas. Ele se perguntava por que havia vomitado um rato, mas o que importava agora era Kanna. Ela não pensaria que ele era um sujeito nojento que comia ratos ao ver aquilo? Jace aproximou-se para se explicar. Kanna não se esquivou.
— Eu, eu não comi…
— Sim. Eu sei.
— Sério…? Você acredita em mim…?
— Sim. Claro que acredito. O Sr. Jace não comeu isso de propósito, não é?
O coração de Jace se encheu de emoção. A comoção transbordou. Kanna realmente gostava dele. Mesmo em uma situação dessas, ela acreditava nele e ficava do seu lado com tanta doçura.
Kanna serviu mais um copo de água benta e estendeu para Jace.
— Mas como você vomitou sangue, estou preocupada. Gostaria de beber mais um copo de água benta?
Não havia como Jace recusar. Isso era um “tratamento especial”. Jace não hesitou e bebeu mais um copo. E, antes mesmo de terminar, ele cambaleou e caiu.
Desta vez, não foi saliva, mas sangue que jorrou de sua boca. Sua garganta doía terrivelmente, como se pedaços de carne tivessem se soltado. Seu interior se agitava. Era como se algo que restava dentro dele estivesse sofrendo.
‘Algo que restava?’
Naquele momento, Jace percebeu que o rato que ele havia vomitado estava cortado ao meio.
‘Então, onde está a outra metade?’
Será que o que estava se debatendo dentro dele era a outra metade? Jace enfiou a mão na boca para forçar o vômito, mas o que restava não saiu.
Ele vomitou tanto sangue e seus órgãos estavam tão danificados que sua mente começou a girar.
Sua respiração ficou ofegante. Um calor intenso subia do fundo de seu estômago.
— O rato, o rato ainda está aqui.
Logicamente, a parte superior de um rato cortado ao meio não deveria estar viva e se movendo. No entanto, Jace relatou a Kanna o que sentia.
Kanna acreditou nele desta vez também.
Tudo bem. Assim que ele tirasse o resto do rato de seu estômago e recuperasse a saúde, ele pediria Kanna em casamento. Será cedo demais? Mas ela dedicou três copos de água benta a ele.
Se Kanna recusasse seu pedido, ele contaria tudo à Lady Rohanson. Isso seria fraco demais? Diziam que ela era uma criada muito estimada pela Lady, então ela poderia acabar expulsando Jace.
Então, ele diria que já tinha tido relações com Kanna.
— Você sente que ainda resta algo? Hmm, então precisamos matá-lo com certeza.
Kanna segurou o queixo de Jace e o levantou. Então, despejou a água benta em sua boca. Ele engasgou e tossiu, mas o copo não caiu.
Jace perdeu a consciência antes mesmo de esvaziar o copo. O tratamento devia ter terminado. Jace tentou agradecer.
— Você realmente pretende matar todos os meus clones? Eu também vou matar vocês. Vou matar vocês tanto quanto estou morrendo.
No entanto, o que saiu da boca de Jace foram palavras incompreensíveis. O que foi dito, de forma totalmente diferente do movimento de seus lábios, era com a voz de Jace.
‘Cale a boca! Eu não quero dizer esse tipo de coisa!’
Mas as palavras que continuavam a sair não tinham nada a ver com a vontade de Jace. Seu corpo se movia por conta própria. Seus joelhos doíam e ele sentia como se todo o seu corpo estivesse derretendo. Era como ser queimado vivo. Ele também sentia como se estivesse se afogando.
Seu corpo se moveu sozinho, tentando estrangular Kanna.
Mas, antes de dar alguns passos, ele caiu novamente. Como seu interior estava derretido e seu corpo completamente destruído, ele não conseguia se mover à força.
Jace sentiu um breve pesar. Como teria sido se ele tivesse tocado o pescoço de Kanna? Parecia que seria um pouco macio.
A última coisa que viu foi o sorriso radiante de Kanna.
‘Viu só. Eu disse que ela gosta de mim.’
Jace perdeu a consciência completamente.
Kanna chutou o cadáver para verificar. Embora fosse natural sentir pena de pessoas que foram envolvidas por azar, o homem chamado Jace olhava para Kanna de forma tão sinistra que ela não sentiu culpa alguma. Ela pensou que ele era do mesmo tipo que Donau, a ponto de querer ressuscitá-lo apenas para matá-lo mais uma vez.
‘Seria bom se eu pudesse fazer isso várias vezes, como a Lady fez naquela época.’
Não foi por isso que ela o fez beber três copos de água benta? Para afastar o pesar, Kanna olhou para Lico. Quando o olhar de Kanna o alcançou, Lico se assustou. Ele queria ser um pouco mesquinho, já que eles tinham se aproximado enquanto a Lady estava longe de Kanna.
— Desta vez, ele aguentou por muito tempo. Qual será a diferença na reação à água benta? Houve pessoas que beberam a água benta, vomitaram apenas o rato e ficaram bem.
Lico estremeceu ao ver Kanna, que não piscou nem uma vez depois de ter acabado de matar uma pessoa com as próprias mãos. Mesmo que fossem hospedeiros de ratos, eram seres humanos. Pensar em questões acadêmicas tão frias diante de um cadáver…
Como esperado de uma criada da Lady Rohanson. Não poderia ser uma pessoa normal para ser tão favorecida por aquela Lady. Lico fez o seu melhor para pensar em uma resposta e não cair em desgraça com Kanna.
— Bem… talvez seja porque faz muito tempo que eles comeram o rato?
Kanna assentiu, como se tivesse entendido. Lico soltou um suspiro de alívio.
— Como devemos lidar com esta pessoa?
— Vamos dizer que ele fugiu com a água benta roubada.
— Já usamos essa desculpa várias vezes. Seria bom se tivéssemos mais repertório de desculpas…
Não era hora de repreender Kanna. O próprio fato de Lico ser o pilar deste trabalho significava que ele também não estava em seu juízo perfeito. Mas ela era um demônio que confundia Lady Agera e levava o Ducado Hosaquin, que era como a casa de Lico, à ruína. Ela não tinha até mesmo visado Mavka? Não era estranho que Lico tentasse reagir.
— Por que você precisa se preocupar com isso? Mesmo que dermos a mesma desculpa, ninguém vai pensar profundamente sobre isso.
Às palavras de Kanna, Lico assentiu.
Como ela disse, embora Jace tenha desaparecido da noite para o dia, não houve ninguém que o procurasse.
***
Lico pegou o papel que tinha mais três linhas escritas abaixo do nome de Jace e dirigiu-se ao Duque Hosaquin.
— Duque… aqui está a lista das pessoas que morreram desta vez.
O Duque recebeu o papel que Lico lhe estendeu. Ao todo, onze pessoas foram identificadas desta vez. Ao contrário da expectativa de que haveria apenas dois ou três hospedeiros, o número de pessoas dominadas era muito maior.
O Duque Hosaquin franziu a testa. Embora tivesse um rosto severo, no fundo havia um arrependimento por ter levado seus empregados à morte e um luto por aqueles que morreram envolvidos por azar.
— Há mais mortos do que eu pensava.
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