O Bispo Marik encarou ‘Azazel’ fixamente. Como o rosto estava coberto por um véu, era impossível ler sua expressão, o que tornava a situação extremamente tensa.
O coração de Jeremia disparava, temendo que sua resposta soasse estranha ou que descobrissem que ela não era o verdadeiro Azazel. Fingindo naturalidade, ela acrescentou com um tom astuto:
— Ouvi dizer que Evangeline Rohanson sabe lidar bem com tipos como eu, então fui procurá-la. Achei que seria divertido. Achei que ela me proporcionaria mais entretenimento.
— Então foi por isso que você se afastou do meu lado, mesmo sem ter morrido.
— Sim. Estar ao seu lado ou dar uma escapadinha por aí é uma escolha minha.
Jeremia exibiu o sorriso que Pudim detestava profundamente. Em seguida, observou a reação do Bispo Marik. Felizmente, não houve críticas ou questionamentos, o que indicava que ele não percebera a troca de conteúdo. O coração parecia bater na altura da garganta.
Por sorte, Jeremia havia ouvido muitas coisas sobre Azazel durante aquele tempo. Sempre que ela fazia algo, Jelly e Pudim a olhavam como se vissem um excremento repugnante e diziam com desprezo: “Azazel não faria uma coisa dessas”.
Além disso, as frases célebres que Azazel costumava proferir, que eles mencionavam de passagem, eram tão chocantes que permaneceram gravadas em sua memória.
— Então, você descobriu a identidade da Lady Rohanson?
Diante da pergunta do Bispo Marik, Jeremia deu de ombros. Evangeline era a benfeitora que lhe dera uma nova oportunidade.
Ela era a luz que surgiu quando as estrelas que Jeremia guardara em seus olhos antes de morrer ganharam forma real. Por ser avassaladora, ela subjugou o demônio, e ela era alguém que nem sequer podia ser medida pelos sentidos humanos.
— Apenas o suficiente para saber que ela é sua adversária?
Como não podia expressar suas próprias convicções, Jeremia acabou descrevendo Evangeline usando a percepção do Bispo Marik. Uma adversária que tornaria o Bispo Marik ainda mais perfeito. Essa era Evangeline. Henna, que observava Jeremia atentamente, abriu a boca de repente.
— O Sr. Azazel tem uma personalidade muito diferente de quando estava na mansão Rohanson.
— …É mesmo?
Com o comentário de Henna, o Bispo Marik demonstrou interesse.
— É que eu não sou estúpido como você. Se eu tivesse mantido essa personalidade, você acha mesmo que teria me deixado entrar?
— É verdade. Afinal, você vivia brigando com o Pudim e o Jelly.
Henna, que por um momento sentira dúvida, aceitou a explicação sem sentir nada de estranho, já que nunca havia conhecido o verdadeiro Azazel.
Segundo Jelly e Pudim, Azazel era um sujeito arrogante, insolente, sem noção, cheio de blefes como se tivesse habilidades ocultas, um hipócrita que fingia ser astuto e sedutor, um misantropo, um semiverbal e um pervertido.
Além disso, de acordo com a experiência de Jeremia, ele também tinha o talento de explorar os outros.
Jeremia sentia-se profundamente triste pelo fato de o corpo que ela ocupara ser, por si só, um “lixo”. Era doloroso ter que continuar fingindo ser um pervertido arrogante (omitido) e insolente.
A princesa, criada em berço de ouro, não tinha resistência a tipos tão vis como Azazel, por isso sua força mental se desgastava rapidamente. No entanto, Jeremia se consolava dizendo a si mesma que tudo aquilo era para retribuir a bondade recebida e buscar vingança.
Uma vez que decidira se tornar uma espiã e permanecer ao lado do Bispo Marik, ela precisava dar o seu melhor. Se fosse descoberta, acabaria como Jelly, que estava sob seus pés. A cena em que o rosto de alguém derretia apenas ao tocar na água benta era terrível demais para ser relembrada.
Houve um tempo em que, se ela tivesse apenas um arranhão, todos ao redor faziam um alvoroço e a tratavam com água benta; agora, seu corpo derretia ao contato com ela… Embora fosse algo tardio, Jeremia sentiu na pele que havia se reduzido a algo próximo de um humano.
Jeremia havia roubado tudo de Azazel e renascido como um demônio. Após testar, percebeu que sentia todas as mesmas anomalias que os demônios enfrentavam.
Se Jeremia imitasse Azazel de forma desajeitada e o Bispo Marik descobrisse sua identidade, ela certamente não sairia ilesa. Se seu corpo fosse submerso em água benta, ela se decomporia e desapareceria.
‘Mantenha a mente firme.’
O fato de Jeremia poder ficar ao lado do Bispo Marik e identificar seus movimentos seria de grande ajuda para Evangeline. Jeremia lançou um olhar furtivo para o Bispo Marik.
Como o Bispo Marik cobria o rosto com o véu, era impossível saber para onde seu olhar se dirigia. Jeremia ficou tensa durante todo o trajeto na carruagem, temendo que ele estivesse observando-a. É claro que ela não demonstrou isso por fora.
Nesse meio tempo, o sol surgiu no horizonte. Enquanto ela olhava pela janela, o Bispo Marik a chamou.
— Sr. Azazel.
— Sim?
Ela não sabia por que alguém como um bispo do templo, que considerava o massacre de hereges algo justo, usava um tratamento honorífico com Azazel, um demônio.
Se alguém visse aquela cena, pensaria que o Bispo Marik havia invocado um demônio secretamente.
— Você está excepcionalmente calado hoje.
O tom era gentil, mas um calafrio percorreu sua espinha.
Era evidente que ele estava tentando sondá-la, achando que ela estava diferente do habitual. Nervosa, Jeremia bateu os pés inconscientemente. Quando Jelly, que estava sob seus pés, soltou um gemido de dor, ela se lembrou de que ele estava ali.
Internamente, ela pediu desculpas a Jelly umas dez vezes, mas não afastou os pés. Se fosse Azazel, ele provavelmente teria colocado ainda mais força para pisar em Jelly.
Jeremia forçou o cérebro a pensar em como deveria reagir às palavras do Bispo Marik, imaginando como Azazel agiria.
Ela sentia saudades de Evangeline. Queria voltar para a confortável mansão Rohanson, onde não precisava usar o cérebro. Embora, vivendo lá, ela tenha acabado ajudando a incendiar o lugar por ter sido enganada por Henna.
Ou então, seria bom se Jelly recuperasse a consciência e fizesse ventriloquismo, como os palhaços no castelo. Se ela apenas movesse o corpo de acordo com o que ele falasse, talvez fosse um pouco mais fácil.
— Calado, é…?
Jeremia hesitou, mas acabou segurando a mão do Bispo Marik. Entre as informações sobre Azazel que Pudim e Jelly lhe deram, “pervertido” era a que mais a chocara, então ela seguiu esse caminho.
Ela segurou a mão dele porque ainda tinha lembranças desagradáveis de pessoas que costumavam acariciar suas mãos de forma pegajosa quando ela era uma princesa.
— Por quê? O Bispo quer brincar comigo?
E ela deu o sorriso mais vil que conseguiu. Como ela agiu de forma pegajosa de propósito para causar desconforto, ele deveria ter se sentido incomodado. Felizmente, aquela também foi a resposta certa. Como ele não reagiu ao ter a mão acariciada, parecia que Azazel costumava assediá-lo dessa maneira.
No entanto, como ele não deu sinais de querer soltar a mão, Jeremia a retirou primeiro, como se estivesse farta.
O Bispo Marik não falou mais com Jeremia e voltou sua atenção para Henna. Jeremia recostou-se no encosto, fingindo tédio, enquanto observava os dois. Na verdade, ela estava exausta e precisava de um lugar para se apoiar.
Henna estava extremamente ansiosa e inquieta. O Bispo Marik tirou um frasco de dentro das vestes e o entregou a ela. Ela pensou que fosse água benta, mas, ao notar que o formato do frasco era diferente, percebeu que era apenas água.
Bem, mesmo sendo um bispo, usar água benta sem que houvesse ferimentos seria um luxo excessivo. Isso valia mesmo que a quantidade de água benta tivesse aumentado como nunca antes. Mesmo Jeremia, quando era princesa, nunca havia bebido água benta ao andar de carruagem.
Ainda assim, talvez por ter bebido pelo menos água, Henna se acalmou. Henna perguntou ao Bispo Marik:
— Bispo… eu fiz a coisa certa?
— Isso não é algo para eu julgar. Apenas Deus deve saber.
Aquela provavelmente não era a resposta que Henna queria. O Bispo Marik ficou em silêncio por um momento e depois acrescentou:
— Mas, se me permite dar uma opinião pessoal… Henna, você fez a coisa certa.
— A coisa certa…
— Sim. Graças ao seu testemunho, a existência de Evangeline Rohanson não foi revelada, não é? Evangeline Rohanson é uma existência que este Marik deve matar. Portanto, haverá muitas outras ocasiões em que precisarei da sua ajuda, Henna. Você me ajudará?
— Com prazer. Farei qualquer coisa se for para ajudar o Bispo.
— Agradeço, Henna. Certamente, o Sol olhará por você devido à sua devoção.
Jeremia fingia não se interessar pela conversa dos dois enquanto olhava pela janela, mas, por dentro, os criticava ferozmente. Devoção, uma ova.
Ela não era a pessoa que, enlouquecida, incendiou a mansão onde estavam seu mestre, seus colegas e crianças pequenas? A gravidade de seu crime era enorme. Parecia que, ao estudar sob o Bispo Marik, que cometia massacres em nome de uma causa maior, a ideologia de Henna também havia sido contaminada e distorcida.
Henna parecia pensar que sua irmã mais nova, Kanna, teve a alma trocada como Jeremia. Ela acreditava que sua irmã já estava morta e que os subordinados de Evangeline estavam usando o corpo de Kanna à vontade.
Como a própria Jeremia era a prova de que Evangeline podia transplantar almas, a história não era totalmente impossível. Embora parecesse plausível, como Jeremia acreditava cegamente em Evangeline e detestava o Bispo Marik, ela concluiu naturalmente que o bispo estava sussurrando mentiras para usar Henna.
Lady Evangeline jamais faria algo ruim. De jeito nenhum.
O Bispo Marik continuava a injetar ideologias erradas em Henna, como se estivesse fazendo uma lavagem cerebral. Será que Tenebrei também foi enganada pelo Bispo Marik dessa forma? Enquanto Jeremia ouvia em silêncio e remoía sua insatisfação, a carruagem parou de repente. Eles já haviam chegado ao templo.
— Vamos descer?
Jeremia seguiu o Bispo Marik e desceu da carruagem. Jelly, que parecia não ter forças nem para mover o corpo, foi imediatamente levado pelos cavaleiros.
— Evangeline Rohanson não ousará vir pessoalmente ao templo, então Henna, você pode ficar tranquila e descansar.
— Obrigada, Bispo.
Quando Henna fez uma reverência com gratidão, o Bispo Marik retribuiu, fingindo ser extremamente gentil. Jeremia seguiu atrás do Bispo Marik e entrou no templo.
Talvez por causa da mudança de corpo, o templo branco puro, banhado pela luz do sol, parecia extremamente desconfortável. Até o ar era desagradável. A existência do Deus Sol, da qual ela nem sequer podia ter certeza no momento de sua morte, agora era sentida com clareza. O templo era, de fato, um lugar sob a proteção do Deus Sol.
Ela não sabia como Azazel, um demônio, havia servido como guarda-costas do Bispo Marik no templo. Pelas histórias que ouviu de Jelly e Pudim, parecia que ele não era o tipo de pessoa que suportaria tal humilhação.
Jeremia sentia vergonha por estar fora das graças de Deus e queria fugir do sol imediatamente. No entanto, o Bispo Marik, que havia massacrado dezenas de pessoas, estava ali, tão altivo.
Mas, se era possível receber o afeto de Deus mesmo cometendo tantos assassinatos, talvez ela não duvidasse de suas próprias escolhas, mesmo que fossem atos que tirassem a vida de pessoas inocentes.
Jeremia sentiu inveja. De alguma forma, parecia que ela havia entendido por que os demônios desprezavam tanto os humanos. Era por isso que seres como Pudim ou Jelly se apegavam tanto a Evangeline.
Como se tivesse lido os pensamentos profanos de Jeremia, o Bispo Marik perguntou de repente:
— Como está o Sr. Azazel?
Será que ela não ouviu direito a pergunta do Bispo Marik por estar perdida em pensamentos? Após um momento de dúvida diante da pergunta inesperada, o Bispo Marik perguntou novamente:
— Você não me deu um bolo para ir à mansão Rohanson? Henna me escolheu. Azazel, a quem você escolheria?
O Bispo Marik caminhava com as costas eretas, sem olhar para trás, mas Jeremia sentiu como se pudesse ler seu sorriso.
— Entre Evangeline Rohanson e eu, é claro.
Jeremia teve que fazer o seu melhor para não demonstrar tensão.
— Bem… que resposta você quer? Quer que eu escolha você?
Sua voz tremeu um pouco. Jeremia respondeu com astúcia, rezando para que o Bispo Marik não percebesse.
— Minha escolha não é importante para um bispo tão nobre, não é? Mas, se você vencer, ficarei feliz em permanecer ao seu lado.
Quando Jeremia respondeu, uma risada explodiu à sua frente. Era uma risada inocente, como a de uma menina, nada condizente com uma mulher de meia-idade.
Ela não sabia por que um sacerdote que desprezava hereges e odiava demônios queria ouvir a resposta de Azazel. No entanto, a resposta que Jeremia deu parecia ter sido satisfatória para os padrões do Bispo Marik.
Jeremia observou as costas do Bispo Marik. Diferente dos outros sacerdotes, o fato de ela cobrir todo o corpo com o hábito de freira parecia uma tentativa de evitar os olhos do sol.
‘A quem eu escolheria?’
Se ela pudesse estar ali como a própria Jeremia, a resposta seria óbvia.
Jeremia faria o seu melhor para que a Lady que a salvou pudesse punir o mal e alcançar um lugar mais alto, para que todos pudessem perceber que ela estava certa. E, no fim de tudo, a vingança de Jeremia também estaria presente.
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