Não sabia quanto tempo havia dormido, mas o sol já tinha se posto e a lua pairava no céu. Pudim disse que a carruagem chegara há muito tempo e que, para me deixar descansar um pouco mais, o cocheiro dera várias voltas ao redor do Ducado Hosaquin.
Quando agradeci pela consideração, o cocheiro acenou com as mãos, apavorado, dizendo que não era nada. Entreguei-lhe uma moeda de ouro como gorjeta.
[pensamento]Afinal, a gratidão deve ser demonstrada com dinheiro.[/pensamento] Quando disse que era o pagamento por ter salvado o meu dia, o cocheiro, embora hesitante, aceitou a moeda com reverência. Era uma quantia grande demais para recusar por mera formalidade.
Mesmo sendo tarde, guardas vigiavam o Ducado Hosaquin. Isso se devia ao fato de o Duque Hosaquin ter reforçado a segurança assim que o templo começou a realizar o massacre de hereges.
Entre os guardas bem armados, havia uma pessoa visivelmente menor. Quando me perguntei quem seria, vi que era Kanna.
[grito]— Jovem Lady![/grito]
Kanna se jogou em meus braços, exatamente como Pudim fizera.
— Está frio, por que não ficou lá dentro?
— Não faz muito tempo que saí para esperar!
Era mentira. A ponta de seu nariz estava vermelha e seu corpo, muito frio. Parecia que ela estivera esperando minha volta por um longo tempo. Enquanto isso, eu dormia profundamente.
O cocheiro disse que a carruagem ficou dando voltas porque eu estava dormindo. Kanna deve ter ficado apenas observando a carruagem circular sem parar. Minha consciência, que tem trabalhado dobrado ultimamente, me cumprimentou mais uma vez. [pensamento]Sinto que ela me cutuca tanto que sua ponta afiada acabará se desgastando de tanto me ferir.[/pensamento]
Minha culpa era grande. Por algum motivo, as pessoas ao meu redor não paravam de chorar ultimamente. “Apenas esperem o Rito de Sacrifício terminar. Farei com que o sorriso nunca saia de seus rostos.”
— Conseguiu o convite sem problemas?
— Sim.
— O Conde Rohanson não tentou te prejudicar, tentou?
Aquele Conde Rohanson continuava sendo um desagradável, mas ele desabou e começou a roncar antes mesmo de conseguir me dizer qualquer outra coisa.
Embora fosse um pouco exagerado, não era ruim sentir que ela se preocupava comigo.
Mas também não era puramente bom. Era um pouco estranho que houvesse tantas pessoas neste mundo que se importavam comigo, como Pudim, Misha e Kanna. Especialmente considerando que elas não sabiam quase nada sobre mim.
[pensamento]Eu mesma mal comecei a aceitar que sou Evangeline, então o que exatamente elas viram em mim para se apegarem tanto? Antes, eu… provavelmente era parecida com o Bispo Marik no sentido de não tratar as pessoas como seres humanos.[/pensamento]
Assim que voltamos para o quarto, Kanna acendeu as velas no castiçal, iluminando o ambiente. Os objetos ao redor tornaram-se nítidos, e tive a sensação de ter retornado à realidade.
Kanna tagarelou dizendo que sentira saudades, que esperara muito, e assim por diante, enquanto se aquecia perto da lareira, até que começou a piscar os olhos, sonolenta.
Mesmo que eu dissesse para ela se deitar na cama, ela não ouvia, então acabei cobrindo Kanna com uma manta depois que ela adormeceu sentada na cadeira e saí do quarto.
Pudim fora devolver o rato para Mavka. O Duque também deve ter sido informado pelos guardas sobre o meu retorno. No entanto, havia mais uma pessoa a quem eu precisava comunicar minha volta segura.
Bati à porta de Gabriel. Como não houve resposta, a princípio pensei que ele já tivesse dormido. Embora pudesse se mover naturalmente com a ajuda de Pudim, Gabriel ainda era um paciente.
Ainda assim… por via das dúvidas, decidi chamá-lo.
[sussurro]— Sir Gabriel?[/sussurro]
— Lady Evangeline?
Quando perguntei baixinho, uma voz suave me chamou do outro lado da porta, como se respondesse. Era um tom calmo e gentil. Logo ouvi passos e a porta se abriu de repente.
— Jovem Lady.
Gabriel me analisou para ver se eu tinha algum ferimento e me recebeu com alívio.
— Correu tudo bem?
— Sim, estou de volta.
Somente após responder à pergunta de Gabriel senti como se toda a tensão do meu corpo se esvaísse. Parecia que o estresse finalmente havia relaxado.
O interior do quarto, que vislumbrei de relance, estava muito escuro. A única luz vinha da fresta da janela entreaberta. As cortinas balançavam com o vento que soprava pela abertura.
— Por que não acendeu as luzes?
— A luz das estrelas brilhava tanto que nem percebi que a escuridão havia caído ao redor.
Concordei involuntariamente com a resposta de Gabriel. Como ele disse, a noite aqui era verdadeiramente brilhante. Inumeráveis estrelas cintilavam no céu.
Gabriel se levantou e abriu completamente as cortinas. Agora, o quarto estava inundado não apenas pela luz das estrelas, mas também pelo luar. O brilho azulado da lua se fragmentava nas pontas de seu cabelo negro.
Desviei o olhar para a janela por um momento e apreciei o céu noturno.
— Aconteceu algo que a deixou perturbada?
Gabriel perguntou cautelosamente. Por um instante, hesitei em como responder. Devia ou não contar honestamente que encontrei o Bispo Marik? Mas era óbvio que ele ficaria preocupado… Após refletir, decidi desabafar.
— Encontrei o Bispo Marik.
[pensamento]Eu realmente não deveria agir como uma criança mimada com um paciente. É tudo culpa do Gabriel, que ouve minhas queixas sem dizer uma palavra. Ele continua me transformando em alguém dependente.[/pensamento]
Talvez fosse uma espécie de imprinting. Porque Gabriel foi o primeiro a dizer que queria me ajudar. Porque ele tentou me proteger, mesmo sabendo que seu corpo não reagia à Água Benta e que poderia se ferir. Involuntariamente, passei a confiar nele.
— O convite que recebi era comum. No entanto, o próprio Bispo Marik me propôs o papel de sacrifício.
Foi exatamente como Gabriel previra.
— Sacrifício…
Gabriel suspirou diante das minhas palavras. Embora ele já suspeitasse, era diferente ter a confirmação direta de algo que antes era apenas uma conjectura.
— Sir. Eu serei o sacrifício.
Gabriel olhou para mim em silêncio. O luar tênue que entrava com o vento desenhava sua silhueta.
Sob os cabelos que balançavam com a brisa noturna, seus olhos azuis cativaram meu olhar. Como se fosse atraída por eles, eu disse:
— O sacrifício que destruirá o Bispo Marik.
É uma noite fria, onde nem as sombras se projetam direito. Eu não conseguia distinguir sequer a minha sombra da de Gabriel. Era tão aconchegante e nebuloso que o sonho e a realidade pareciam se misturar.
Temendo que este momento desaparecesse como uma ilusão, fiz uma promessa firme a mim mesma, para que nunca esquecesse, mesmo que acordasse.
Para poder respirar e viver neste mundo, eu destruirei o Bispo Marik.
Desde que abri os olhos dentro do caixão. Não era mais aquela resolução vaga de quando eu era ignorante, de distorcer a obra original, abandonar o destino de vilã e evitar o final da execução.
Agora eu sabia o significado do caixão em que estava deitada. Era diferente das palavras que eu dizia habitualmente sobre ter que vencer o Bispo Marik.
Era a minha decisão absoluta.
***
Já fazia alguns dias que a mansão Rohanson fora envolta pelas [glossario termo=”Termo literário para descrever o incêndio destrutivo que consumiu a mansão.”]Chamas devoradoras[/glossario]. Portanto, não era estranho que reclamações começassem a surgir uma após a outra.
[grito]— Deixe-nos sair![/grito]
[grito]— Calado![/grito]
Um dos criados começou a discutir com um cavaleiro. Ele agarrou as grades de ferro e as sacudiu violentamente, mas não havia como a força humana dobrar o metal.
O Paladino gritou e ameaçou enfiar a espada entre as grades. O criado, apavorado, gritou e se afastou. Talvez por ter demorado a fugir, a lâmina de raspão deixou um corte em sua bochecha.
Alguém que observava a cena soltou um lamento súbito.
— Até quando teremos que ficar aqui?
As pessoas de Rohanson haviam montado um [glossario termo=”Local de abrigo improvisado para os sobreviventes do incêndio.”]abrigo temporário[/glossario] no jardim, perto da mansão consumida pelo fogo. Por mais que pensassem, não era um ambiente adequado para pessoas, incluindo os feridos, permanecerem.
Além disso, havia cadáveres de pessoas assassinadas pelos Paladinos por perto. Eles apenas os cobriram com panos, sem dar um destino adequado.
Como não puderam sair da mansão mesmo após vários dias, os corpos começaram a apodrecer e exalar um mau cheiro, forçando vários deles a se unirem para enterrar os mortos. Era um ambiente degradante, tanto física quanto mentalmente.
A única coisa intacta na mansão era a cerejeira frondosa, mas aquela era a árvore onde Evangeline Rohanson se enforcara. As pessoas, acuadas, alegavam ter visto alucinações de Evangeline pendurada ali. De qualquer forma, nada naquilo era bom para a saúde mental.
Se dependesse da vontade deles, teriam saído dali imediatamente, mas sempre que tentavam ultrapassar os limites da propriedade de Rohanson, os Paladinos desembainhavam suas espadas e as apontavam para seus pescoços. Era um aviso: se não valorizassem suas vidas, poderiam tentar escapar. Assim, todos os habitantes da mansão estavam, de fato, presos.
— A Jovem Lady não nos abandonou, não é?
Todos na mansão estavam tão deprimidos que esse tipo de comentário acabou surgindo. O efeito da influência que Evangeline espalhou ao passar pela mansão Rohanson estava chegando ao fim.
— Vocês acham que Lady Rohanson nos abandonou, mesmo tendo comido torta de carne hoje de manhã?
Se Evangeline tivesse perdido o interesse, não teria enviado [glossario termo=”Itens de necessidade básica enviados por Evangeline para os sobreviventes.”]suprimentos de socorro[/glossario] através de Pudim. Ela era incrivelmente cuidadosa e enviava refeições e tudo o que era necessário para aquele número de pessoas.
Já seria surpreendente o fato de ela ter providenciado tendas para criar um ambiente semelhante a um acampamento, mas eles ainda recebiam refeições completas todos os dias. Quando os Paladinos perguntavam desconfiados, eles mentiam repetidamente, dizendo que vasculhavam o interior da mansão incendiada em busca de tecidos e comida.
Sinceramente, para Rafaela, que já tivera experiências frequentes dormindo ao relento sob o comando de Gabriel, aquele estado era muito mais confortável para o corpo e a mente do que ser negligenciada.
Claro, isso era apenas do ponto de vista de Rafaela. Para as pessoas da mansão Rohanson, que quase foram vítimas das chamas e viram colegas serem assassinados pelos cavaleiros do Bispo Marik, elas deviam estar psicologicamente muito acuadas.
Na verdade, a insatisfação das pessoas baseava-se no fato de estarem detidas na mansão.
— Vocês poderão escapar esta noite.
Rafaela tentou animar o ambiente, rezando para que Evangeline chegasse antes que a paciência das pessoas da mansão se esgotasse.
No entanto, ao contrário de seus desejos, Evangeline não apareceu hoje também. Já era noite. Embora tivessem sofrido com o incêndio, o frio da noite os obrigava a acender fogueiras. A propósito, o braseiro também fora enviado por Evangeline. Um criado chamou Rafaela, que estava ajudando a acender o fogo.
— Ei, senhor cavaleiro.
— Sim?
— Ouça, você não disse que era um jovem mestre nobre? Então, não poderia usar sua influência para nos tirar daqui?
— É que eu sou um filho renegado.
— Ora, você não serve para nada, hein.
Graças aos dias que passaram vivendo juntos como se estivessem em um alojamento, Rafaela desenvolvera uma amizade sem precedentes com as pessoas da mansão. Mesmo aqueles que inicialmente mantinham distância por ela ser uma cavaleira, apesar de tê-los ajudado, acabaram cedendo à sociabilidade de Rafaela.
Rafaela sentia-se estranhamente satisfeita. Sim, aquela era a sociabilidade que derrubara até mesmo o Comandante, que não passava de um homem sem escrúpulos.
Enquanto Rafaela conversava, os cavaleiros do lado de fora começaram a agir de forma agitada.
— Parece que vão trocar o turno.
Pelo que Rafaela observara, os cavaleiros que vigiavam a mansão Rohanson trabalhavam em dois turnos, dia e noite. Como o número de pessoas mobilizadas era grande, ela chegava a encontrar cavaleiros conhecidos.
O vice-comandante da Ordem dos Cavaleiros de Phararos zombara tanto dela, dizendo que ela parecia uma mendiga. Rafaela quase jogara sua espada nele.
Temendo encontrar outro rosto conhecido, Rafaela estava prestes a se deitar para dormir quando alguém a sacudiu para acordá-la.
— Sir Rafaela! Acorde.
— …De-Daisy?
— Sir, os cavaleiros estão agindo de forma estranha.
Rafaela levantou-se abruptamente com aquelas palavras.
Sua espada já fora confiscada, então ela não tinha uma arma adequada. Se soubesse que seria assim, teria pedido uma espada fácil de usar para Lady Rohanson. Ela se contivera temendo que, se o Comandante descobrisse, ele a repreenderia por ousar incomodar a Jovem Lady.
Rafaela observou tensa os cavaleiros do lado de fora. Daisy sussurrou baixinho:
[sussurro]— Não é a carruagem que os cavaleiros costumam usar. Sir Rafaela, aquela não é uma carruagem do templo, é?[/sussurro]
Rafaela franziu os olhos e encarou a direção para onde o dedo de Daisy apontava. Como ela dissera, não era uma carruagem usada pelo templo. Pelo contrário, aquilo era…
— Parece uma [glossario termo=”Carruagem usada para transporte de mercadorias, vista chegando à mansão Rohanson.”]carruagem de carga[/glossario].
Naquele momento, uma hipótese surgiu subitamente na mente de Rafaela.
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