Primeiro, mandaria Harut para longe.
— Padre Harut. Acho que você precisa tratar essas mãos.
— O quê?
— Vá se tratar. Agora.
Eu o apressei. Harut pareceu confuso, mas assentiu. Com tudo o que precisava ser dito já finalizado, talvez fosse difícil demais para ele testemunhar sua mentora cair no abismo, então partiu sem questionar. Foi uma sorte que a Água Benta trazida pelos cavaleiros tivesse acabado.
Esperei Harut se afastar o suficiente para não me ouvir antes de encarar o Bispo Marik. Eu não poderia fazer aquela pergunta na frente dele.
— Bispo Marik.
Senti o corpo dele enrijecer conforme eu me aproximava. Ele parecia tenso, imaginando o que eu diria após dispensar Harut.
Aproximei-me o máximo que pude e sussurrei ao seu ouvido.
De repente, um pensamento me ocorreu.
O segredo por trás da juventude eterna do Bispo Marik. Na verdade, não era um método especial…
[sussurro]— Você, por acaso, é a Saraka?[/sussurro]
Talvez fosse apenas uma pessoa diferente?
No instante em que terminei de falar, o fôlego do Bispo Marik parou. Afastei-me e, ao olhar para seu rosto, tive a confirmação.
[pensamento]…Eu sabia.[/pensamento]
Nunca vira alguém com uma expressão tão carregada de desespero.
Mesmo quando usei todos os meus truques contra ele, mesmo quando as chamas o envolveram, ou quando ele mesmo apontou uma lâmina contra o próprio pescoço, seus olhos transbordavam apenas o desejo furioso de me retalhar. Mas agora, apenas por ouvir um nome, ele agia como se tivesse morrido.
— Não…
O Bispo Marik não conseguia sequer recompor sua expressão. O rosto de alguém diante do fim do mundo seria exatamente assim.
[sussurro]— Saraka.[/sussurro]
— Não, não sou…!
Ao vê-lo rejeitar o próprio nome, lembranças de quando ele se apresentou como Saraka na residência do Visconde Hückel passaram pela minha mente. Eu o insultei por usar o nome de uma criança que ele mesmo havia matado, mas pensar que era o oposto.
Saraka começou a se debater como se tivesse um ataque. Os cavaleiros me olharam, confusos sobre o que eu poderia ter dito naquele curto intervalo para causar tal reação, mas eu não podia responder.
Fiz isso por Harut, que me ajudou apesar de ser um clérigo. Foi um alívio tê-lo mandado para longe. Se ele descobrisse a identidade de Saraka, provavelmente nunca se recuperaria.
Harut acreditava que Saraka estava morta há muito tempo. Hereges costumavam ser executados imediatamente e, após aquele encontro inicial, ele nunca mais viu o rosto dela.
Mas e se, na verdade, ela não tivesse morrido e continuasse presa no porão o tempo todo? Harut não sabia como chegar ao subsolo, então nunca teria cruzado com ela novamente. Era um mal-entendido compreensível.
Até agora, o fato de ele frequentemente se referir a si mesmo na terceira pessoa, como se falasse de outra pessoa, era porque ele estava realmente se referindo ao “Bispo Marik”. Senti como se as peças do quebra-cabeça que bagunçavam minha mente finalmente se encaixassem.
— Eu… eu sou o Bispo Marik. O Bispo Marik sou eu…
Saraka murmurava como se estivesse em transe, tentando se convencer. Não, na verdade, ela devia ter sofrido uma lavagem cerebral.
Presumi que quem a moldou dessa forma foi, sem dúvida, o verdadeiro Bispo Marik. A pequena Saraka jamais escolheria esse caminho por vontade própria. Provavelmente, nunca lhe deram uma escolha.
Sob o comando do Bispo Marik, que tratava hereges como animais, ela deve ter vivido trancada no porão, sendo abusada por anos… e criada exatamente ao gosto dele.
— Eu não sou uma… herege imunda…
Enquanto desprezava a si mesma, sendo uma herege, mais do que qualquer outra coisa.
[pensamento]”A única forma de um herege diminuir sua culpa é servindo de adubo para o sol.”[/pensamento]
Todas aquelas palavras de ódio contra os hereges eram, na verdade, o que o Bispo Marik dizia para Saraka.
Agora eu entendia o porquê do ciúme em relação a Harut e os momentos de humilhação. Ela sentia inveja de Harut, que era amado pelo Bispo Marik, ao contrário dela, que era abusada. Por isso se sentiu tão miserável ao ser alvo da piedade dele.
— Eu… sou…
Saraka parecia uma boneca de corda que parou de se mover após a mola se soltar. Murmurando tomada pelo pavor, parecia que ter sua identidade revelada era mais assustador do que a própria morte.
Ao vê-la se odiar tanto, entendi por que ela imitava o Bispo Marik.
Dava pena pensar no nível de gaslighting que ela sofreu para chegar a esse ponto. No entanto, isso não diminuía seus crimes.
Matar pessoas sob a acusação de heresia, atacar os moradores da mansão Rohanson, esfaquear Jeremia e torturar Jelly e Gabriel… quem fez tudo isso foi a Saraka que estava diante de mim. Eu não era uma santa que perdoava o oponente por pena. Afinal, Evangeline Rohanson é uma vilã.
Então, onde estaria o verdadeiro Bispo Marik, a provável raiz de todo o mal?
Saraka clamava por ele com tanto desespero, mas não sabia para onde ele tinha ido. Será que ela o matou por vingança pelos abusos sofridos?
Ah!
Pensando bem, Rico mencionou que a pessoa no porão parecia quase um cadáver vivo. Eu me perguntava por que o cruel Bispo Marik manteria alguém vivo lá embaixo…
Jeremia supôs que aquela pessoa fosse da família de Marik, já que o corpo estava coberto por cicatrizes de queimaduras. E agora, uma pessoa específica me veio à mente quando pensei em queimaduras.
— Quem está no porão agora é o Bispo Marik?
— …Evangeline Rohanson…!
Que audição aguçada. Saraka deve ter ouvido meu sussurro.
Pelo modo como seus olhos sem foco se cravaram em mim, tive certeza. Aquela pessoa era o verdadeiro Bispo Marik.
Achei que encontraria uma fraqueza dele no porão, mas não esperava encontrar o próprio. Elevei a voz:
— Conforme o testemunho do Padre Harut, vamos ao subsolo verificar quais atos hediondos o Bispo Marik cometeu longe dos olhos de Deus.
— Então vamos logo para o porão!
— Sim, está certo. Sendo calúnia ou não, o primeiro passo é verificar.
A maioria concordou e se juntou ao clamor.
— Então, para o quarto do Bispo Marik…
[grito]— Não![/grito]
Um grito estridente interrompeu minhas palavras. Saraka berrou em agonia, como se estivesse possuída. Era um clamor desesperado, como se tentasse agarrar sua última corda de salvação.
[grito]— Todos enlouqueceram ao serem enganados pela língua desse demônio astuto? Investigar meu quarto sem permissão? Não! Jamais permitiria que entrassem no meu quarto. Jamais![/grito]
Saraka gritou, transbordando veneno.
“Meu quarto”… Ela se referia ao quarto do Bispo Marik ou ao subsolo onde cresceu?
Os cavaleiros tentaram calá-la, mas a resistência era feroz. Ela se debatia com tanta violência que até os guardas que seguravam seus braços tinham dificuldade em contê-la. O contraste com seu estado catatônico de instantes atrás era nítido.
[grito]— Aqueles que entrarem no meu quarto seguindo as ordens dessa víbora demoníaca terão seus pés decepados e caminharão sobre os próprios tornozelos! Arrancarei os olhos de quem ousou ver essa ilusão e cortarei as orelhas de quem deu ouvidos a essas profanidades! Se eu amarrar a língua de quem proferiu mentiras, não ouvirei mais esse absurdo de que Marik é um demônio![/grito]
Mesmo sem ter mais poder para tal, o grito de Saraka tinha força. Era como se ela estivesse disposta a empunhar a espada pessoalmente ou, se perdesse as mãos, a morder até rasgar.
Na verdade, as pessoas que estavam prestes a correr para o subsolo hesitaram diante da fúria dela. Quanto mais feroz ela se tornava, melhor para mim.
Pelo menos agora ninguém mais diria a asneira de que o Bispo Marik era benevolente.
Alguns, imaginando-se naquela situação terrível, soltaram gemidos de pavor.
Por fim, Saraka soltou o último fôlego de seus pulmões:
[grito]— Eu… eu sou Marik, o favorito de Deus![/grito]
Embora não houvesse lágrimas, para mim, soava como se ela estivesse aos prantos.
Diferente de mim, que via aquilo apenas como o último esforço de alguém acuado, as pessoas demonstraram uma atitude passiva, tomadas pelo medo. As palavras de Saraka foram sinistras o suficiente para isso.
— Se o Bispo Marik for realmente… um demônio assim, não seria perigoso ir ao subsolo…?
Tendo presenciado Marik assassinar hereges de formas cruéis, era compreensível que estivessem aterrorizados.
— Eu irei.
Então, surgiu um voluntário inesperado.
— Bispo Jabaniya!
Vejam só quem é. O Jabaniya, em quem nosso Gabriel deposita confiança infinita.
Rafaela, com sua expressão emburrada de sempre, o seguia. Pensando bem, Gabriel tinha enviado Rafaela para buscá-lo.
Faz tempo que ela foi chamá-lo, e só agora ele aparece. Tenho certeza de que Jabaniya estava esperando o momento certo para fazer uma entrada dramática. Velha raposa astuta.
Mas ele chegou em boa hora.
— Eu mesmo verificarei o quarto de Marik.
Jabaniya declarou solenemente, como se estivesse fazendo um grande sacrifício.
Não é como se houvesse uma armadilha no porão, e ele sabe muito bem que não encontrará nada perigoso contra si mesmo, mas adora se exibir. Enquanto eu o olhava de lado, percebi que Rafaela fazia exatamente a mesma cara de desdém que eu.
Em meio ao alívio de Gabriel, apenas eu e Rafaela não estávamos convencidas por Jabaniya. A maioria das pessoas, porém, agarrou-se a ele como se tivessem encontrado um salvador.
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