Tenebrei sentiu uma tensão peculiar quando o nome “verdadeiro” saiu da boca do Bispo Marik e assentiu. Aquela era uma ordem direta do Bispo. Era sua única oportunidade de redimir seus erros.
O Bispo Marik continuou, dando instruções precisas sobre como ela deveria agir para não cometer falhas, mesmo estando fora de si. Tenebrei seguiu as palavras ao pé da letra. Após dar cinco passos, como se tivesse tropeçado…
Exatamente como o Bispo Marik havia sussurrado, Tenebrei derramou toda a Água Benta que segurava em direção a “Azazel”.
Jeremia, ao ver Tenebrei cambalear, assustou-se e moveu-se para ampará-la, mas esquivou-se apressadamente da água que vinha em sua direção.
Como a distância era curta, ela não conseguiu desviar de tudo e foi forçada a estender a mão para se proteger. Assim que a Água Benta a tocou, a pele de Jeremia derreteu e queimou com o som de carne fervendo.
— Uh…
Ela cerrou os dentes, mas um gemido de dor escapou de seus lábios. Jeremia escondeu a mão atrás das costas, preocupada com os olhares ao redor. Felizmente, graças às mangas compridas, as pessoas próximas não perceberam que sua carne estava derretendo.
— S-Sir Astaroth? Você está bem?
— Sim, estou bem. Foi apenas um susto momentâneo…
O padre ao lado, alarmado, examinou Jeremia. Ele parecia tão distraído com o comportamento bizarro de Tenebrei — que subitamente despejara a Água Benta — que nem sequer notou que a mão de Jeremia, escondida rapidamente, havia derretido.
O padre tirou um lenço que carregava e o entregou a Jeremia para que ela se secasse.
— Obrigada.
Jeremia apenas aceitou o lenço. Era óbvio que, no instante em que tocasse sua ferida, o tecido ficaria manchado de vermelho.
— Parece que a Princesa está exausta.
Jeremia mudou de assunto rapidamente para desviar a atenção de si mesma. Tenebrei permanecia imóvel, como uma boneca de corda quebrada. Como havia falhado na ordem que o Bispo Marik lhe dera ao “dar corda” em sua mente, ela entrara em colapso.
— É por isso que Lorde Oratorio deveria ter subido ao [glossario termo=”Altar ou santuário onde se realizam ritos religiosos.”]제대[/glossario].
Tenebrei agia de forma vacante, como se nem ouvisse a comparação direta com Oratorio. Ela não ofereceu resistência quando o padre tomou o frasco vazio de Água Benta de suas mãos.
Tenebrei não conseguia sequer levantar a cabeça. Afinal, tendo arruinado até sua última chance, não teria desculpas se o Bispo a descartasse naquele momento.
Jeremia cuidou da Tenebrei desolada.
— Vamos voltar ao seu lugar. Eu a ajudarei.
— Sim, eu vou.
Tenebrei seguiu a condução de Jeremia e sentou-se novamente em seu lugar.
A maneira como ela respondia obedientemente lembrava a antiga Tenebrei, da época em que usava o colar preto no pescoço. Como as mãos de Tenebrei ainda estavam úmidas, Jeremia as secou com o lenço que o padre lhe dera.
Jeremia não entendia a si mesma por sentir piedade de quem acabara de feri-la. Sua pele ardia onde a Água Benta tocara, mas ela não demonstrou, já que ninguém a observava.
No entanto, os olhos sob o véu continuavam a seguir “Azazel”. O Bispo Marik, que observara o momento em que a mão de Azazel derreteu, inclinou a cabeça. Pelo teste feito com Azazel, a Água Benta não fora trocada.
— Que estranho. A Água Benta é a mesma.
O Bispo Marik olhou casualmente para Gabriel.
O ambiente estava em um silêncio sepulcral. Apenas o som das gotas de Água Benta caindo no chão preenchia o vácuo. Era o som vindo de Gabriel, que fora encharcado. Estando coberto de Água Benta da cabeça aos pés, alguém poderia pensar que ele estava recebendo um batismo, e não sendo sacrificado.
— Então, por que não funciona?
Como a querida Evangeline deveria tê-lo resgatado, quem estava ali deveria ser um demônio.
Diante da pergunta do Bispo Marik, Gabriel baixou o olhar e esboçou um sorriso sutil.
Desde o momento em que retirou o tecido que cobria seu rosto, as pessoas, cujos olhares foram capturados à força por Gabriel, prenderam a respiração involuntariamente.
Gabriel sempre fora alguém impecável, beirando o obsessivo. Ver um homem assim, amarrado e completamente encharcado, despertava uma [glossario termo=”Desejo lascivo ou sensualidade despertada pela aparência de alguém.”]음심[/glossario] indescritível.
Embora estivesse ensopado, com o cabelo grudado ao rosto, ele não parecia um rato molhado; pelo contrário, a água refletia a luz e brilhava como se joias preciosas tivessem sido moídas e espalhadas sobre ele.
Quando Gabriel piscou, as gotas de água presas nas pontas de seus cílios escorreram por suas bochechas. Elas deslizaram e caíram da ponta de seu queixo.
Com o contorno dos olhos avermelhado pelo calor, parecia que ele estava derramando lágrimas silenciosas. Sua aparência era tão lamentável e melancólica que sons de angústia e desejo podiam ser ouvidos de algum lugar da plateia.
Dava vontade de segurar aquelas bochechas úmidas e enxugar as lágrimas. Aquela cena certamente atingia o fetiche de alguém.
Gabriel, que observava em silêncio a confusão do Bispo Marik, finalmente abriu a boca. Era a mesma boca que permanecera firmemente calada mesmo quando ele foi acusado de heresia e Evangeline foi demonizada.
— Eu sempre fui eu mesmo. Diferente de você.
Naquele instante, o rosto do Bispo Marik congelou como gelo.
[pensamento]Como ele sabe disso…?[/pensamento]
A hesitação durou pouco.
[pensamento]Ah, entendi. Já que Azazel era um falso e deve ter conspirado com Evangeline, minha identidade deve ter sido revelada.[/pensamento]
Sua cabeça latejou. Saraka sentiu como se tivesse levado um golpe na nuca. Embora ela mesma tivesse se mostrado disfarçada como a criada Saraka diante de Azazel — o que era o mesmo que contar a verdade —, ser confrontada diretamente a deixou furiosa.
[pensamento]Diferente de mim?[/pensamento]
O fato de tais palavras virem de um “demônio” que claramente estava fingindo ser Gabriel a deixou ainda mais humilhada. Seu corpo tremia de raiva.
Embora estivesse escondida pelo tecido, a atmosfera sinistra que a cercava permitia imaginar a magnitude de sua fúria.
Saraka repetiu mentalmente as palavras de “Gabriel”. [pensamento]Como ele ousa comparar a si mesmo comigo? Um ser inferior que nem sequer recebeu o poder divino ousa me desafiar?[/pensamento]
Saraka percebeu. “Gabriel” estava claramente zombando dela, que vivia fingindo ser o Bispo Marik enquanto esquecia sua própria identidade.
Afinal, Saraka, sem o título de Bispo Marik, não passava da filha de um herege.
[pensamento]Como ousa, como ousa![/pensamento] Saraka mordeu o lábio com força. Como ela não conhecia seu próprio [glossario termo=”O nível de intensidade necessário para que um estímulo seja percebido; aqui, refere-se à insensibilidade à dor.”]역치[/glossario] de dor, o sangue brotou imediatamente da carne de seu lábio.
Era extremamente raro Saraka ficar tão furiosa. Quando fora a última vez? Ah, sim. Foi quando o Bispo Marik não a visitou por cinco dias e ela, morrendo de fome, subiu as escadas do porão rastejando com os braços.
Ela ia esmurrar a porta trancada do porão quando ouviu a leitura de um conto de fadas vindo do lado de fora. O Bispo Marik estava com sua criança querida no colo, lendo para ela.
Apesar de ser ela quem o Bispo Marik mais cuidava e observava, naquele momento, ela sentiu uma sensação terrível.
Saraka fulminou Gabriel com o olhar. Ela queria cortar aquele pescoço instantaneamente, assim como já fizera com os pulsos e tornozelos dele. [pensamento]Parece que apenas os dois braços e as duas pernas não foram suficientes? Só restou esse pescoço alvo, será que ele não valoriza a própria vida?[/pensamento]
O olhar de Saraka desceu para os tornozelos de Gabriel.
[pensamento]O quê…?[/pensamento]
Por um momento, Saraka ficou perplexa. Ao contrário do esperado, os tornozelos de Gabriel estavam em um estado relativamente limpo. Sim, como se tivessem sido tratados por alguém.
Não era possível que o ser demoníaco que Evangeline deixara ali como um boneco o tivesse curado. Para um demônio recuperar o corpo, ele obrigatoriamente precisaria consumir um humano. No entanto, pelo que Saraka soubera, nenhum humano desaparecera ou morrera na cela subterrânea.
Ele não teve reação ao ser atingido pela Água Benta, e as cicatrizes que existiam há pouco desapareceram sem deixar rastros. Como se o que ela vira antes fosse apenas uma alucinação.
Ah, entendi. Ela começou a compreender.
Saraka prendeu a respiração por um instante. Em um curto intervalo, milhares de pensamentos cruzaram sua mente e, quando finalmente soltou o ar, a compreensão a atingiu como uma onda.
Era exatamente como ele dissera. Gabriel continuava sendo Gabriel. Por isso a Água Benta não surtia efeito!
Saraka começou a gargalhar como se tivesse perdido o juízo. Como o Bispo Marik jamais riria de forma tão vulgar, qualquer um que visse pensaria que ele enlouquecera. Mas tudo bem. Uma vez não faria mal. Ela poderia encobrir aquilo.
[grito]— Ahahahaha! Então você é o verdadeiro? O verdadeiro Comandante Gabriel![/grito]
Quando o Bispo, sempre tão digno, soltou aquela risada estridente e vulgar, os padres e os espectadores ficaram profundamente constrangidos. Saraka, sem se importar, continuou rindo até perder o fôlego. Só parou quando começou a arquejar. Lágrimas brotaram em seus olhos.
O palco perfeito fora arruinado. O ator que deveria aparecer não assumira o papel. O roteiro que Saraka preparara tornou-se lixo em um instante.
O palco que deveria ser a consagração de Saraka como o Bispo Marik fora destruído.
Recuperando o fôlego com dificuldade, Saraka dirigiu-se a Gabriel. Tendo levado um golpe, ela não ficaria satisfeita sem retribuir.
— Parece que Lady Rohanson não tem tanto apego por você quanto eu pensava. O que ela faria se eu tivesse cravado uma espada de verdade nesse coração?
Mesmo diante das palavras destinadas a feri-lo profundamente, Gabriel não se abalou.
— Isso jamais aconteceria.
Não se sabia ao certo a que tipo de negação ele se referia.
Logo após ele dizer isso, um dos padres aproximou-se apressadamente e informou a Saraka:
[grito]— Bispo! O sol desapareceu![/grito]
— …O sol desapareceu?
Em pleno meio-dia? Saraka olhou imediatamente para o teto. Através das janelas de vidro, a vista estava completamente negra. Como se o sol tivesse realmente sumido. Racionalmente, era algo impossível.
No entanto, Saraka era alguém acostumada a lidar com o que foge à razão.
— O que você fez?
Ao ouvir a pergunta de Saraka, os olhos de Gabriel se curvaram. Seu sorriso era quase inocente, como se estivesse pregando uma peça.
— Quem sabe? Talvez Deus esteja vindo para puni-la.
Embora esse “Deus” fosse, provavelmente, o Deus de Gabriel.
Comentários