“…o véu?”
A voz do bispo baixou, e um tom de alerta surgiu claramente no final da frase. Em um instante, o ar tornou-se pesado. Eu encarei o bispo sem nem piscar.
“Sim. Quero conversar olhando para o seu rosto. Você pode atender a esse pedido, não pode?”
As pontas dos dedos do bispo pareceram tremer levemente, mas ele levantou a mão lentamente e retirou o véu.
No momento em que o rosto escondido sob ele foi revelado, eu congelei. Aquele rosto não era o que Azazel e eu tínhamos verificado pouco antes. Como eu havia previsto ao observar a reação de Azazel, não era o rosto do Bispo Marik, coberto por queimaduras, mas sim o rosto de outra pessoa.
“…Saraka.”
O nome escapou inconscientemente. Minha garganta estava seca, como se estivesse queimando. Saraka, a quem Azazel tanto procurou, estava diante dos meus olhos, com uma aparência vívida demais.
Lancei um olhar furtivo para Azazel, mas não havia sinal de surpresa nele.
“Agora, a Jovem Lady está pronta para conversar?”
Um sorriso surgiu nos lábios de Saraka.
Escondi minha confusão e ajustei minha expressão. No entanto, minha mente ainda estava atordoada. Em um instante, a pessoa mudou. Como isso é possível? Isso também é uma brincadeira de Rhea?
“Lady Rohanson?”
“…Vi um quadro peculiar no caminho para cá. Ouvi de Azazel que o Bispo pediu para que o pendurassem.”
“Ah. Aquele retrato, entendo.”
Saraka assentiu, como se soubesse exatamente do que eu falava.
“É um retrato com um aspecto estranho, mas eu gosto dele.”
“O retrato… Então, Bispo, você sabe quem é o modelo da pintura?”
“Bem. Infelizmente, meu conhecimento não é tão vasto assim.”
As palavras de Saraka eram elegantes e suaves, mas a sensação desconfortável não desaparecia enquanto aquela voz calma ecoava em meus ouvidos.
“As dúvidas da Lady Rohanson foram sanadas agora?”
“Sim. Graças a você.”
Dei uma resposta formal e me virei. No momento em que virei as costas, meu corpo se encolheu com a ilusão de que um olhar percorria minha espinha. Mesmo fechando a porta e saindo pelo corredor, parecia que uma presença oculta roçava a nuca o tempo todo.
Apressei o passo, e Azazel colou-se logo atrás de mim. Sua sombra projetou-se bem atrás, encurtando a distância.
“O que você queria perguntar era só sobre aquele quadro? Então por que quis ver o rosto da Saraka? Desde quando você se importa com etiqueta, Lady?”
A voz de Azazel estava misturada com irritação e descontentamento.
“Se vai continuar resmungando desse jeito, por que não para de me seguir?”
“Eu também não quero vir junto, sabia? Mas a Saraka disse para garantir que você chegasse bem à mansão.”
O tom de voz dele era como se estivesse fazendo um grande sacrifício. Que atitude louvável.
***
A carruagem chacoalhou e partiu lentamente. Ao desviar o olhar para fora da janela, o pináculo do templo, que parecia tocar o sol, erguia-se imponente. A imponência opressora que emanava dele me lembrou, por algum motivo, daquela “coisa” que tomou o corpo do Bispo Marik. E essa “coisa” agora interveio neste mundo.
Mantive o silêncio, com o olhar fixo. Azazel, que subiu na carruagem sem permissão, observava minhas reações de uma forma incomum para ele.
“Lady, o que foi? Você está estranha desde agora há pouco… Não tem algum problema com a Saraka, tem?”
A voz de Azazel estava carregada de ansiedade e impaciência. Era óbvio que Azazel, que reagia de forma particularmente sensível quando se tratava de Saraka, sentia que havia algo suspeito em meu comportamento. O olhar de Azazel era afiado, como se tentasse analisar cada um dos meus movimentos sutis.
Soltei um suspiro curto e desviei o olhar. A paisagem familiar, porém estranha, que passava por nós, causava um desconforto peculiar.
Se há um problema? Com certeza. Mas como explicar isso? Para começar, será que ele acreditaria se eu contasse? Não existe nada parecido com confiança entre Azazel e eu. Como eu mesma fiz, será mais rápido ele verificar com os próprios olhos do que eu explicar cem vezes.
A carruagem parou com um solavanco. A voz do cocheiro anunciou que havíamos chegado ao destino.
“Desça.”
Assim que abri a porta da carruagem e coloquei os pés para fora, uma paisagem sombria se espalhou diante de mim. O lugar onde a carruagem parou não era a mansão Rohanson, mas a favela nos arredores da capital. Desci e olhei ao redor. A paisagem de prédios velhos e ruas em ruínas era lúgubre, e o cheiro de mofo trazido pelo vento, talvez por causa do lixo espalhado por toda parte, picava a ponta do meu nariz.
“Onde estamos?”
Azazel perguntou rudemente, franzindo a testa. O desconforto estava estampado em sua voz.
“Fique quieto. Era este caminho…?”
Caminhei, tateando o caminho que permanecia vago em minhas memórias. Atrás de mim, enquanto caminhava ao longo da parede velha, sentia os passos pesados de Azazel.
O que eu procurava era a casa de Donau.
Felizmente, o caminho para a casa de Donau estava vagamente na minha memória. O fato de eu ainda me lembrar disso mostra que, no passado, ter tido aquele círculo de conjuração, cuja identidade eu nem conhecia, roubado deve ter sido um choque e tanto.
“É aqui.”
Parei no final de um beco familiar. Como esperado, uma pequena casa estranhamente familiar apareceu. Não estava queimada, nem com as janelas bloqueadas, mas era a casa que eu procurava. Sem tempo para hesitar, abri a porta e entrei apressadamente.
“Donau.”
Ao chamar o nome, ouvi um barulho estrondoso vindo de algum lugar. Um homem que estava encolhido em um canto do quarto, coberto por um cobertor velho, moveu-se sobressaltado. Logo depois, levantou-se cambaleando com um ruído alto.
“Qu-quem é! Quem é que entra na casa dos outros… E-Evangeline Rohanson…?”
Donau gaguejou, horrorizado. Ao me reconhecer, seu rosto empalideceu instantaneamente.
Parece que ele não conseguiu um emprego decente desde que foi demitido; sua tez estava abatida e sua barba crescia desleixada. Copos vazios rolavam pelo chão, e seu rosto avermelhado não deixava dúvidas de que ele era apenas um bêbado fazendo algazarra.
“Como esperado. Você está vivo.”
À minha fala, Donau prendeu a respiração, tomado pelo medo. Ignorei sua postura de rato encurralado e expliquei a Azazel.
“Azazel. Este é o protagonista daquele quadro.”
“Oh?”
Azazel aproximou-se rapidamente de Donau, agarrou-o pelo pescoço e o levantou com uma mão, como se fosse um fardo.
“Cof! Argh… Sol-solte-me!”
Donau lutou desesperadamente, mas Azazel não se importou. Ele apenas observava com interesse, girando-o no ar, curioso por ver Donau com braços e pernas intactos e sem estar queimado. Donau resistiu, mas como aquela cobra, ou melhor, aquele demônio, iria ouvir?
“É a primeira vez que vejo um vivo.”
Azazel acrescentou com um riso de escárnio.
“O original não é grande coisa, né? Quando era um cadáver, era mais interessante de olhar.”
Para ele, deve ser uma piada. Para Donau, aquilo soou como se ele fosse matá-lo, e ele começou a chorar, implorando por sua vida. Ele é um lixo que uma vez tentou usar nossa Kanna como sacrifício, mas ainda assim, sinto um pouco, apenas uma unha de pena.
“Então. Vai matá-lo?”
Azazel se virou para mim, estalou a língua e soltou Donau. Donau caiu sentado no chão. Talvez por estar apavorado, ele começou a soluçar e fugiu para o canto, arrastando-se pelo chão.
“Se você mencionou a história do quadro e o trouxe até aqui, é porque tem algum interesse nesse idiota. Então, o que é afinal? Ele não parece muito útil.”
Azazel lançou um olhar de soslaio para Donau.
“Azazel. Você também viu o quadro comigo no templo.”
“Sim.”
“E o modelo do retrato está aqui.”
“E daí?”
Azazel estreitou os olhos, como se perguntasse se eu estava brincando. Sua atitude era de quem queria que eu fosse direto ao ponto.
“Não é estranho?”
Terminei de falar e olhei ao redor do quarto. O chão estava perfeitamente normal, e não havia sinal de círculos de conjuração ou marcas de queimadura. Como não havia círculo de conjuração, ele não sequestrou ninguém para invocar um demônio. Era apenas a casa de um bêbado miserável. Encontrei o olhar de Azazel e abri a boca.
“Como se pode pintar o cadáver de alguém que ainda está vivo?”
Pela lógica, esse é um quadro que não deveria existir.
***
Confirmar que Donau está vivo torna a dúvida ainda maior.
Um quadro que desafia a causalidade. Pudding e Jelly que não respondem quando chamados. O fato incompreensível de que Saraka, que havia desaparecido, reapareceu, e a memória de Azazel que foi modificada para se ajustar a isso. Além disso, a pessoa desconhecida que falou comigo através do corpo do Bispo Marik.
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