Ao listar as pistas espalhadas pela minha mente, tive a sensação de que algo me escapava. No centro de tudo, sentia que uma peça de quebra-cabeça muito importante estava faltando em algum lugar.
Se eu pudesse preencher apenas aquela peça que faltava….
Enquanto estava imersa em pensamentos, ouvi um ruído irritante.
“Seu, seu demônio…!”
Ao desviar o olhar, vi Donau, que já havia pegado uma garrafa. Suas mãos tremiam visivelmente. Ele pretendia me atingir com aquilo?
“Mo, morra!”
Como esperado, Donau avançou e balançou a mão. Recuei um passo levemente e a garrafa cortou o ar. Ele a balançou com tanta força que seu corpo perdeu o equilíbrio e cambaleou.
A garrafa escorregou da mão de Donau e caiu no chão. O som do vidro se estilhaçando ecoou agudamente no espaço estreito. Os cacos se espalharam por toda parte. Tendo falhado no ataque surpresa, Donau tremia as mãos com uma expressão de pânico.
“Is, isso é… bem….”
Com o rosto pálido, ele não conseguia nem formular uma desculpa decente.
“Foi, foi um acidente….”
Como se não houvesse mais necessidade de ouvir, Azazel golpeou a nuca de Donau com o punho da espada, fazendo-o desmaiar.
“Viu só? Eu não disse? É melhor que ele esteja morto.”
Azazel deu de ombros ao se virar para mim.
Como ele mesmo se colocou nessa situação, não consegui pensar em nada específico para dizer a Azazel. Como ele não o matou, Azazel, à sua maneira, foi misericordioso.
Olhei para o corpo inerte de Donau. Veja só ele, insistindo em apressar a própria morte com uma garrafa na mão. …Mesmo tendo voltado à vida, nada mudou nele.
Ao mesmo tempo, uma luz brilhante passou pela minha mente.
‘…Espere um pouco.’
Voltou à vida?
Essa palavra ecoou em meus ouvidos e atingiu minha consciência. A peça que faltava até agora se encaixou, e as engrenagens começaram a girar.
“Azazel.”
Chamei o nome de Azazel em voz baixa.
“…Léia pode ressuscitar os mortos?”
À minha pergunta, o olhar de Azazel se estreitou. Suas pupilas douradas características continham um brilho estranho.
“Eu posso ressuscitar, sim.”
Azazel respondeu lentamente. As palavras que ele acrescentou logo em seguida foram assustadoras.
“Embora não passem de cascas que se movem sem alma. Bem, isso também é uma espécie de ressurreição, não é?”
Eu também sei muito bem disso. Porque Léia me mostrou pessoalmente.
Léia já havia matado um corvo diante dos meus olhos e o ressuscitado. O corvo que voltou à vida sob o toque de Léia parecia claramente vivo. Ele bateu as asas e emitiu sons. No entanto, não havia vitalidade. Era apenas uma boneca imitando algo que já esteve vivo. Não havia vitalidade ou calor. Apenas imitava mecanicamente o que fazia quando estava vivo.
Léia não pode tocar na alma.
Porque esse é o domínio exclusivo do Deus Sol, Rahel.
Por isso, quando Amaranth implorou para ter um filho, Léia não pôde criar uma nova vida por conta própria, então, em vez disso, trouxe-me de fora deste mundo para completar ‘Evangeline’.
Apontei para Donau.
“Então, como devemos explicar o Donau que está diante de nós?”
“Isso é… porque o tempo voltou… espere, tempo?”
O rosto de Azazel, que respondia sem pensar, endureceu. Ele também percebeu a contradição deste mundo.
‘Léia realmente pode voltar no tempo e salvar pessoas?’
Ao reverter o tempo, as pessoas que morreram voltaram à vida. Mas isso não era algo que Léia pudesse fazer. O que estava acontecendo neste mundo transcendia o domínio de Léia.
“Nós… não voltamos ao passado?”
Azazel abriu a boca com dificuldade. Sua voz estava cheia de hesitação. A confusão que Azazel sentia estava contida ali.
Estávamos partindo de uma premissa errada desde o início. Eu pensei que Léia havia voltado no tempo para realizar meu desejo. Mas se não for isso….
“Azazel.”
“Por quê?”
“Agora eu entendo por que você insistiu tanto em cooperar comigo.”
Desta vez, Azazel estava certo.
Este mundo é estranho.
É tão absurdo que chego a rir. Talvez fosse uma conclusão tão simples que eu vinha negando inconscientemente o tempo todo.
“Isso não é realidade.”
As palavras que a pessoa que tomou o corpo do Bispo Marik me disse vieram à mente de repente. Ele disse para eu encontrar o descanso e dormir em paz. Se formos por esse caminho, aqui é.
“Um sonho.”
No momento em que declarei isso em voz baixa, senti um olhar me observando. Dizem que não se deve dizer que este lugar é um sonho enquanto se está nele, e é exatamente isso. Felizmente, ao contrário de alguma lenda urbana, Azazel não ficou subitamente sério e começou a me encarar.
“…Um sonho?”
Azazel apenas murmurou com uma expressão de descrença. Longe de ficar sério, ele piscou como se tivesse ouvido um absurdo incompreensível.
“Lady, eu entendo bem o seu desejo de negar a realidade. Eu também sinto isso. Já pensei muitas vezes que preferiria que fosse um sonho. Principalmente por sua causa, Lady.”
O tom de Azazel era quase sarcástico, mas não respondi. Em vez disso, encarei os olhos de Azazel em silêncio. Só então, percebendo a seriedade, Azazel levou minhas palavras a sério.
“Não, sério?”
Com paciência, balancei a cabeça.
“Então, o que a Lady quer dizer é….”
Azazel parou de falar e respirou fundo. Sua voz estava rouca.
“Você fez um desejo para salvar aquele cavaleiro, mas como nosso Deus não pode ressuscitar completamente os mortos…. Então, Ele criou um mundo falso para fingir que realizou o seu desejo?”
Desviei o olhar.
“Pode ser.”
Foi uma resposta vaga.
A suposição de Azazel também era perfeitamente possível.
Se assumirmos que Léia criou este jardim de modelos intrincado para me enganar, tudo o que aconteceu até agora faz sentido. Um mundo falso que imita a realidade perfeitamente, fazendo parecer que houve uma regressão.
‘Mas….’
Algo me incomodava.
A existência que usou o corpo do Bispo Marik para me avisar. A voz benevolente, clara e assustadora, e a presença estranha. Aquilo certamente não pertencia a Léia.
‘Se não é Léia.’
Veio à mente de repente.
‘Será?’
Não existe uma existência que possa me chamar de criança negada?
Abri a janela lentamente. O ar frio infiltrou-se no ambiente. Levantei a cabeça e olhei para o céu. Um firmamento de um azul artificial se estendia. O sol brilhava intensamente no alto de um céu sem nuvens.
Ao encarar o sol, percebi um fato estranho. Um brilho irreal que, embora mais intenso que qualquer outra luz, não ofuscava a visão ao ser encarado diretamente.
Já olhei tanto para o céu, que me pergunto por que só percebi agora.
Azazel seguiu meu olhar e olhou para o céu. Seu rosto endureceu instantaneamente.
“Ugh…. O que é aquilo….”
Mais do que um sol, parecia um globo ocular olhando através de um buraco na parede.
“Rahel.”
No momento em que chamei o nome, o sol gigante piscou. Como se confirmasse que a resposta que encontrei estava correta.
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