O Duque esperava que os danos fossem mínimos, pois não havia sintomas externos visíveis nos hospedeiros. Apenas o exemplo de Nigella já bastava. Se ele não tivesse testemunhado Nigella devorando um rato, jamais teria suspeitado que ela era uma hospedeira.
“Eles se esconderam bem, como ratos. Se não fosse pela água benta, teríamos sido incapazes de distingui-los.”
As pessoas que se tornaram hospedeiras levavam suas vidas cotidianas sem sequer se lembrarem do fato de terem comido ratos. Elas viviam normalmente até que, em um dado momento, pareciam enfeitiçadas e obedeciam às ordens dos ratos.
Até aquele ponto, nem mesmo o próprio indivíduo sabia que havia sido infectado. Como não era possível distinguir a olho nu, havia uma grande chance de que, se os hospedeiros tivessem se multiplicado como ervas daninhas, ele não teria notado. Foi uma sorte poder conter a situação antes que ela saísse do controle.
O Duque leu os nomes com uma expressão desolada.
“Você deu água benta a todos na mansão, não deu?”
“Sim.”
Lico assentiu. Ele havia distribuído água benta a todos os criados que trabalhavam na mansão.
“E os corpos dos mortos?”
“Por enquanto, os levamos para o subsolo e ordenei que um cavaleiro os vigiasse.”
Quando a noite caísse, ele planejava descer ao subsolo para descartar os corpos. Provavelmente, teria que queimá-los, assim como fizeram ao matar os ratos. A fogueira era uma das mortes mais miseráveis, pois era vista como o castigo do Deus Sol. O estado de espírito era bem diferente de quando lidavam com os ratos.
Lico não era tão firme quanto a criada de Evangeline. Mesmo sabendo que eram pessoas que se tornaram hospedeiras, seu coração doía ao vê-las vomitando sangue e morrendo.
O Duque também tinha suas prioridades claras e, embora fosse implacável com qualquer um que não fosse Agera, ele certamente valorizava seus servos. O Duque permaneceu em silêncio por um longo tempo, com os olhos fechados como se estivesse rezando, antes de falar calmamente.
“…Quando a limpeza terminar, providencie uma compensação adequada para as famílias enlutadas.”
“Mas não temos um pretexto para a compensação. Oficialmente, essas pessoas foram demitidas ou fugiram.”
Lico refutou as palavras do Duque. O Duque também sabia disso. Em lugar nenhum do mundo se pagava indenização a um criado que fugira. Não existe dinheiro que aparece do nada. Eles perceberiam que algo estava errado.
“Qualquer pretexto de indenização serve. Ou então, diga que, como o fugitivo pode voltar para casa, estamos entregando o valor aos familiares como um pedido para que nos avisem caso isso aconteça.”
Como não podiam revelar que estavam possuídos por demônios, não podiam sequer informar a causa da morte aos familiares. Em meio à popularidade da caça aos hereges, anunciar que um familiar estava possuído por um demônio seria apenas atrair problemas desnecessários.
Como não podiam revelar a verdade, os que restaram não saberiam que seus familiares haviam morrido e, ouvindo a desculpa dada, acreditariam que eles fugiram cegos pela ganância. Mas não havia outra escolha.
“…Sim. Farei como ordenou.”
Lico seguiu a vontade do Duque, ainda que relutante.
A proposta do Duque não era para o bem das famílias enlutadas. Era apenas para aliviar sua própria culpa. Era um ato enganoso. Era hipocrisia. Mas, se não fizesse nem isso, Lico sentia que seria esmagado pelo peso da culpa.
O Duque e Lico decidiram quanto seria melhor compensar. Era uma indenização nominal, mas, na verdade, era o preço de uma vida.
Embora fosse algo que sabiam implicitamente, a vida tinha um preço. E agora, Lico estava colocando esse preço diretamente. Ao escrever números ao lado de nomes cujos corpos já haviam esfriado, uma náusea subiu por sua garganta.
Qual era o pecado dessas pessoas? O pecado de trabalhar na mansão? O fato de Lico estar escondendo e encobrindo a causa da morte daquelas pessoas agora não era diferente das práticas do templo, que, com uma língua astuta, rotulavam inocentes como hereges com uma única palavra e queimavam mansões inteiras. Lico não conseguiu esconder seu sentimento de angústia enquanto anotava os valores que seriam entregues a cada família.
“Então, tratarei disso conforme o senhor ordenou.”
Assim que Lico terminou de falar, o Duque virou a folha com a lista. Eram apenas letras, mas, por conter apenas os nomes dos falecidos em sequência, sua espinha dorsal arrepiou. As letras escritas pareciam a marca do pecado que o Duque havia cometido.
O Duque chamou Lico, que estava prestes a sair do quarto.
“Licoradca.”
“Sim. O senhor tem mais alguma tarefa para mim?”
“Quero jantar com Agera depois de muito tempo.”
“Jantar…? Vou avisar o chef. Com certeza a Lady Agera ficará feliz.”
Lico arregalou os olhos, surpreso com as palavras do Duque. E não era para menos, já que o Duque evitava jantar com ela desde que uma grande confusão ocorreu no refeitório anteriormente.
“Então, irei avisar a Lady Agera agora mesmo.”
Lico, visivelmente animado, fez uma reverência e saiu do escritório para buscar Agera. Lico era quem mais se alegrava ao ver o Duque cuidando de Agera separadamente. Provavelmente porque Lico devia um favor a Agera.
Cerca de cinco anos atrás, Agera, que havia saído para um passeio, trouxe uma mãe e uma filha, dizendo que elas a faziam lembrar de sua própria filha. Essas eram Lico e Mavka.
Ao vê-la segurando um bebê recém-nascido, ela certamente se lembrou de Amaranto. Agera alimentou, vestiu e deu abrigo àquelas duas. O afeto de Agera, que havia perdido o rumo após perder Amaranto, voltou-se para Lico.
O Duque, temendo que Lico tivesse o sonho de se tornar uma filha adotiva, deliberadamente lhe deu trabalho e a fez labutar. Felizmente, Lico conhecia seu lugar.
Lico, pelo contrário, era grata por poder sustentar Mavka enquanto trabalhava. Por ser talentosa, foi selecionada pelo mordomo, recebeu ensinamentos e, após a aposentadoria dele, acabou ocupando seu lugar.
Para Lico, Agera era sua benfeitora. No entanto, quando a demência se instalou, Agera nem sequer se lembrava de Lico. Ela só se lembrava do Duque e de sua filha. Mesmo que Agera não se lembrasse de seu nome, Lico não abandonou a gratidão que recebeu até então.
Seria melhor se ela se lembrasse de Lico em vez de Amaranto. Então, nenhuma vítima desnecessária teria surgido. O Duque quis apagar de sua memória seu próprio erro ao saber a verdade sobre Amaranto, mas a vontade de Agera de não desistir até o fim era verdadeiramente impressionante.
O Duque, sem perceber, amassou o papel com os nomes dos mortos que estava sobre a mesa. Mesmo que o papel estivesse amassado, isso não faria com que as mortes causadas por Agera deixassem de ter acontecido.
***
Ele marcou um jantar com Agera depois de muito tempo. O Duque tinha coisas para finalizar antes disso.
Ele escreveu em um pergaminho luxuoso, diferente dos documentos que se acumulavam sobre sua mesa. Como escrevia cada letra com hesitação, já havia anoitecido quando terminou de escrever duas páginas. O Duque colocou o pergaminho no envelope, selou-o com o selo do Ducado Hosaquin.
“Vossa Excelência, o jantar está servido.”
“Certo. Vamos.”
Ao som das batidas na porta anunciando que era hora da refeição, o Duque guardou o envelope selado na gaveta e levantou-se.
Quando o Duque chegou ao refeitório, Agera já havia chegado. Agera, que ria e conversava com Lico, levantou-se e correu ao ver o Duque chegar. O Duque, temendo que sua esposa, que estava com a saúde debilitada, caísse, apressou-se em ir até ela e abraçá-la.
“Você veio?”
“É perigoso correr de repente.”
“O que há de perigoso? Você, Julian, vai me segurar.”
Agera sorriu radiantemente. O sorriso que cobria o rosto que sempre chorava aqueceu o coração do Duque.
“Vamos sentar.”
Quando o Duque fez um gesto, Lico ajudou Agera a se sentar.
O traje de Agera, completo até com uma touca, parecia inocente, como se ela não estivesse em um jantar, mas indo a um piquenique. Ao sentir um déjà vu e vasculhar sua memória, percebeu que era um estilo que estava na moda há muito tempo. Era um vestido que trazia a nostalgia dos dias em que o Duque e Agera tinham vinte e poucos anos.
“Antigamente, nós fomos ao teatro usando roupas como esta.”
“Foi?”
O Duque vasculhou sua memória. Quando foram ao teatro juntos no passado, Agera usava uma roupa semelhante à que vestia agora. O Duque, que não tinha jeito com as palavras, transmitiu a mensagem de forma que causou um mal-entendido, e Agera saiu usando um vestido muito brilhante, pensando que iriam passear. Ela o repreendeu, dizendo que ele a fez vestir-se como uma menina imatura em um lugar onde deveria estar vestida solenemente.
Aquela memória veio à tona. Qual era o nome da peça que viram naquela época…?
“Por acaso você se lembra?”
O Duque perguntou cheio de esperança, mas Agera apenas inclinou a cabeça. O momento que compartilharam pertencia apenas ao Duque.
O Duque sentiu a ausência daquelas memórias. O passado que construíram juntos tornou-se agora um passado que apenas o Duque recordava sozinho. Por que o momento presente era ainda mais triste do que o momento em que Agera chorava querendo ver sua filha morta? Seria porque ele sentia claramente que a Agera que ele amava havia desaparecido e que ele era o único que restava no mundo?
O Duque olhou de soslaio para Lico, que servia Agera. Talvez ele pudesse entender um pouco a posição de Lico.
“Parece delicioso!”
Agera exclamou ao ver a mesa posta, ignorando se o Duque estava perdido em pensamentos ou não. Como o casal de proprietários jantava junto depois de muito tempo, Marlow se esforçou na culinária. Como quase foi decapitado da última vez porque um rato apareceu do nada, ele deu tudo de si para compensar.
Felizmente, a refeição, feita com a alma de Marlow, agradou ao paladar do casal. Agera, que jantava alegremente, de repente largou o garfo.
“Já que estamos aqui, eu queria que comêssemos com Amaranto.”
“Eu prefiro ficar apenas com você.”
“Oh, meu Deus!”
Agera explodiu em risadas com as palavras do Duque. Era estranho que, mesmo assim, ela não insistisse em comer com Amaranto.
Há quanto tempo eles não conversavam tão pacificamente? Parecia que tinham voltado ao tempo antes de Agera perder a sanidade. Embora soubesse bem que Amaranto já estava morta e que nunca poderiam voltar àquela época, ele não pôde evitar pensar nisso. Mas, felizmente, havia um clone de Amaranto naquela mansão. Talvez fosse por isso que ele se lembrava tanto dos velhos tempos.
Embora a baixeza do próprio Duque, que ele vinha ignorando, tenha vindo à tona por causa daquela criança. Não era diferente de cortar a própria carne e causar feridas, mas, além de Agera estar feliz, ele também podia se livrar dos ratos, então estava tudo bem.
Além disso, graças à conversa que tiveram no dia anterior, o Duque havia derrubado consideravelmente as barreiras com Evangeline. Embora sua mente ficasse confusa e suas memórias fossem fragmentadas como um sonho sempre que tentava se lembrar daquele momento.
Mas o momento em que Evangeline, que se parecia tanto com sua filha, segurou a mão do Duque e disse que o perdoaria, foi vívido.
“Como está Amaranto?”
“Ela é muito divertida. Ela me ouve bem. Sinto que ela me respeita e não me trata como uma tola.”
“E você não tem medo dela?”
“Medo? De jeito nenhum. Ela é nossa filha.”
O Duque percebeu que sua pergunta estava errada. Agera queria tanto ver Amaranto que chegou a recorrer à magia negra. Vendo que ela chamava até um rato de filha, não havia como ela ter medo de Evangeline.
Parecia que um pequeno olhar de insatisfação vinha de algum lugar.
Durante todo o jantar, Agera riu e falou sobre Amaranto. Era a prova de que Evangeline estava desempenhando o papel de ‘Amaranto’ muito melhor do que o Duque imaginava.
O Duque ouviu silenciosamente a conversa de Agera. Quando terminaram a refeição, Lico trouxe o chá. Não era um trabalho que um mordomo deveria fazer, mas o Duque não apontou, sabendo que Lico era particularmente zeloso em relação a Agera.
“Então, da próxima vez, vou sair para fazer compras com Amaranto, só nós duas.”
“É mesmo?”
Agera não conseguiria sair. Mas o Duque apenas concordou, em vez de estragar o momento. De qualquer forma, Agera logo esqueceria a promessa de ir às compras.
Naquele momento, Lico, que servia o chá, murmurou algo e deixou cair a xícara que segurava. O Duque, assustado, levantou-se da cadeira e gritou.
“Agera!”
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