Gabriel segurou minha mão com cuidado. Era uma mão grande, capaz de cobrir a minha inteira. Embora quisesse me segurar, não aplicava força alguma; se eu me afastasse, poderia escapar facilmente.
— A Srta. Rico ficará bem.
Não havia magia naquelas palavras, mas minha mente clareou instantaneamente. Isso mesmo, até quando ficarei atordoada? Queria dar um tapa em minhas próprias bochechas para despertar, mas, incapaz de soltar a mão de Gabriel, mordi o interior da bochecha com força. A dor aguda trouxe determinação.
Ao notar que minha ansiedade parecia ter diminuído, Pudding, que observava tudo em silêncio, afastou a mão de Gabriel. O gato começou a fazer carinho, esfregando a cabeça como se pedisse atenção, e eu ri, boba, enquanto o acariciava. É isso, tenho Pudding e tenho Gabriel; não há com o que me preocupar.
Felizmente, logo restabelecemos contato com Rico.
— Desculpe-me. Assim que entrei no templo, ficou difícil respirar.
Rico explicou que a recepção do sinal havia enfraquecido apenas por ter entrado no templo. Será que era porque seu corpo continha um demônio? Apenas Pudding assentiu.
Perguntei se algo ruim havia acontecido durante o tempo em que ficamos sem contato, mas Rico negou, dizendo que estava tudo bem. Saber que ela estava a salvo aliviou minha tensão.
— Há pouco, lavaram meu corpo e me vestiram com roupas novas. Disseram-me para ficar impecável, pois serei apresentada no Rito de Sacrifício.
Rico hesitou por um momento antes de continuar.
— E… acho que pretendem me usar como sacrifício.
Rico? Não, eles não pretendiam sacrificar Gabriel? Não a mim? Eu não conseguia entender a situação. Mas o Bispo Jabaniya não havia se disfarçado de Saraka para me encontrar e pedir que eu me tornasse o sacrifício?
No entanto, um pressentimento sinistro me invadiu.
Ao lembrar da situação, recordei o conteúdo do convite que o Conde havia me entregado. O convite que recebi era exatamente igual ao do Duque. Não havia uma única palavra sobre me tornar um sacrifício.
Mas, se eles pretendiam sacrificar Gabriel, por que se deram ao trabalho de me enganar, revelando a identidade de “Saraka” e vindo me encontrar pessoalmente?
Gabriel, que ouvia a conversa em silêncio, fez uma pergunta.
— Srta. Rico, a água usada para lavar seu corpo era água benta?
— Não. Se fosse água benta, meu corpo teria derretido.
Gabriel ponderou a resposta por um tempo antes de falar com cautela.
— Se o Bispo Jabaniya realmente pretende sacrificar a mim, então ele parece estar convencido de que eu e a Srta. Rico trocamos de lugar.
— Ele sabe?
— Toda a água usada em rituais importantes no templo é água benta. Não há exceções para os sacrifícios. Como o Rito de Sacrifício é um evento raro, os sacerdotes comuns podem não saber, mas…
Gabriel deixou a frase no ar. Eu podia imaginar o que viria a seguir. Mesmo que um sacerdote comum não soubesse, o Bispo Jabaniya, obcecado pelo rito, não poderia ignorar tal fato.
Depois que o rato tomou conta de Rico, seu corpo tornou-se sensível à água benta, como um demônio. Se Rico tivesse tocado em água benta, o desastre já teria ocorrido.
Isso significava que o Bispo Jabaniya sabia que Gabriel havia trocado de lugar com Rico e, por isso, preparou outra água. Além disso, ele provavelmente sabia que Rico era um demônio.
Desde quando? A suspeita surgiu quando me encontrei com Saraka.
Naquela época, ele usou Jelly como isca, mas não mencionou Gabriel, o que era estranho. Se eu estivesse no lugar dele, teria colocado Gabriel na mesa de negociações para obter vantagem.
Mas o Bispo Jabaniya não fez isso. Era como se ele soubesse que Gabriel ou as informações sobre ele não tinham valor em suas mãos.
Além disso, o fato de ele ter aparecido como Saraka, e não como o Bispo Jabaniya, também era suspeito. Ele poderia ter se disfarçado para evitar olhares, mas e se fosse um teste para ver se eu reconheceria Saraka?
O Bispo Jabaniya mostrou deliberadamente sua identidade disfarçada para Jeremia. Ao ver que eu estava em guarda contra Saraka, ele deve ter tido certeza de que “Azazel” havia vazado informações para mim.
Então, faz sentido ele acreditar que eu já conhecia as informações sobre Gabriel. Tudo, do início ao fim, deve ter sido mostrado intencionalmente pelo Bispo Jabaniya.
O motivo de ele ter mantido Gabriel na prisão do palácio imperial, e não no templo, também era claro: como era difícil entrar no templo, ele facilitou o resgate de Gabriel em um local de invasão mais simples, o palácio.
Dei uma risada seca. Eu me perguntava por que Gabriel estava na prisão do palácio, e não no templo. Foi erro meu não achar estranho, já que Gabriel era um príncipe. Será que Tenebrei apresentar Gabriel como seu tio também foi para confundir minha visão?
Certo, entendi que fui manipulada pelo Bispo Jabaniya. Mas por que ele precisaria de um demônio com a aparência de Gabriel, usando métodos tão complexos?
Gabriel também possuía o corpo amaldiçoado de que o Bispo falava, e com seus olhos vermelhos, ele parecia muito mais próximo de “Leah” do que eu. Claro, Rico, que estava no altar, era um corpo que derretia ao tocar em água benta, ao contrário de mim e de Gabriel.
De repente, senti que havia encontrado a resposta.
Será… que é realmente por esse motivo? Eu e Gabriel não somos afetados pela água benta, mas nossos corpos não derretem; apenas ouvimos que estamos amaldiçoados, sem sermos rebaixados ao nível de demônios. Para pessoas que não sabem de nada, aquele que reage à água benta parece muito mais terrível.
Ao transmitir minha suposição, Gabriel disse com um tom sombrio:
— …A Srta. Rico pode estar em perigo.
Eu também fiquei séria, mas, felizmente, não perdi a razão como antes. Encontrar um plano para salvar Rico era mais eficiente do que entrar em pânico. Então, Gabriel me chamou, como se tivesse pensado em algo.
— Jovem Lady, eu trocarei de lugar com a Srta. Rico novamente.
— O que está dizendo?
— Eu subirei ao altar como o sacrifício.
Por um momento, quase soltei um palavrão. Que bobagem é essa? Depois de salvá-lo, ignorando até o peso na consciência, ele quer entrar na cova dos leões por conta própria?
— Ao contrário da Srta. Rico, eu não sou afetado pela água benta.
Eu entendia por que Gabriel dizia aquilo. Se o objetivo do Bispo Jabaniya era fazer Gabriel parecer um ser profano, o verdadeiro, que não reage à água benta, pegaria o Bispo de surpresa.
Mas, por outro lado, para Gabriel, tudo o que não fosse água benta era perigoso. Procurar por Jelly secretamente no templo e ser levado diante do Bispo Jabaniya eram riscos completamente diferentes. Tentei recusar com firmeza, mas Gabriel foi mais rápido.
— Lembra-se da promessa que lhe fiz? Se a Jovem Lady não permitir, eu jamais me ferirei.
Lembrei-me de quando ele se agarrou a mim, pedindo que eu confiasse nele. Gabriel corava por coisas triviais, como ouvir palavras carinhosas, mas dizia coisas que faziam o coração palpitar com naturalidade. Ele não sentia vergonha porque aquelas palavras eram sinceras e sem artifícios.
— Portanto, deixe comigo.
A sinceridade absoluta de Gabriel.
Como se estivesse enfeitiçada por aquele sentimento, balancei a cabeça.
***
O templo começou a aparecer.
— Então, irei primeiro.
— Sir, por favor, tenha cuidado.
A mulher a quem ele reverenciava observava Gabriel com um olhar preocupado. Seus olhos, antes indiferentes, agora brilhavam com uma mistura de emoções ao olhar para ele. A vida pulsava ali.
No passado, a única maneira de encontrar calor em Evangeline era segurando sua mão. Ele sentia o pulsar lento de seu coração e lembrava-se de que ela estava viva.
Mas agora era diferente. A estrela que ele trouxe para baixo vivia e respirava cada vez mais à medida que passavam tempo juntos.
Gabriel não se importava com o tipo de emoção que se misturava à cor vermelha, mas havia algo particularmente doce nela.
Por exemplo… isso. O olhar preocupado com que ela o observava agora. Ele sentia que era uma existência valiosa para Evangeline. Era uma sensação viciante.
Como se estivesse realmente viciado, Gabriel sempre mantinha Evangeline em seu olhar. Nas noites de lua, ele contava as estrelas no céu, substituindo-as por Evangeline.
Às vezes, ele ficava ansioso. Tinha medo de que, por um descuido, Evangeline voltasse a ser a existência indiferente de antes.
Ele queria confirmar dezenas de vezes se ainda era especial para ela. Será que era a psicologia de uma criança que se machuca de propósito para voltar? É um sentimento de baixo nível para um cavaleiro.
Mas, ao ver Evangeline sofrer por se preocupar com ele, seu coração doía. Por isso, Gabriel prometeu a Evangeline que voltaria em segurança.
Claro, Gabriel estava pronto para quebrar essa promessa, pois daria sua vida sem hesitar por Evangeline.
Era um comportamento rude mentir, mas Gabriel não se importava muito. Acima de tudo, o fato de ter guardado Deus em seu coração seria o maior sacrilégio.
Gabriel escapou silenciosamente antes que a carruagem chegasse ao templo. Com a ajuda de Pudding, ele se escondeu no templo.
O rato que Pudding trouxe serviu de guia. Ele deixou a orientação com o rato e Pudding decidiu voltar para Evangeline, revezando-se com o rato.
Quando ele pediu que cuidasse bem da Jovem Lady, o gato estreitou os olhos e respondeu para que ele cuidasse de si mesmo. Houve até uma ameaça sombria: se ele morresse, o gato o ressuscitaria apenas para matá-lo novamente.
— Sir Gabriel! Por aqui!
O rato agitou os bigodes e tomou a frente. Embora ele conhecesse a geografia do templo, não conseguia evitar toda a visão. Felizmente, o rato o guiou por lugares sem presença humana, então ele não foi pego por sacerdotes ou cavaleiros.
— É logo ali!
No entanto, um problema surgiu pouco antes de chegarem. Ao se aproximarem da porta do quarto onde Rico estava, havia muitas pessoas guardando o local. Deveria subjugar todos eles?
Se apenas perdessem a consciência, poderiam acordar rapidamente e causar confusão. Nesse caso… Gabriel, mesmo preparado, hesitou por um momento enquanto segurava o cabo da espada na cintura.
— Sir Gabriel, alguém está vindo atrás.
Gabriel procurou apressadamente um lugar para se esconder ao ouvir o rato. Felizmente, a porta de um quarto próximo estava aberta, e ele entrou sem hesitar.
Era um depósito onde guardavam equipamentos do templo, cheio de poeira. Quando o rato estava prestes a espirrar, Gabriel cobriu suavemente sua boca pequena.
Gabriel prendeu a respiração e encostou o ouvido na porta, concentrando-se nos sons externos. Havia apenas um par de passos. Passos um pouco pesados e lentos passaram e logo pararam.
Pelo que pude deduzir, era o quarto onde Rico estava presa. Os cavaleiros que guardavam a porta pareciam ter descoberto o dono dos passos.
— Bispo Jabaniya.
Bispo Jabaniya? No momento em que ouviu o nome, os olhos de Gabriel se arregalaram.
Gabriel abriu a porta levemente e espiou o lado de fora por uma pequena fresta. O rato, curioso, correu e colocou o rosto na fresta junto com ele. Jabaniya entrou no campo de visão de Gabriel. Ao contrário do habitual, ele vestia uma simples túnica preta de sacerdote.
O cavaleiro que bloqueava o caminho de Jabaniya inclinou a cabeça e perguntou:
— Bispo Jabaniya, o senhor não deveria estar recebendo os fiéis lá na frente? O que o traz aqui…?
— Não é nada importante. Apenas queria ter uma conversa com Gabriel por um momento.
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