Azazel falou com descaramento enquanto afastava lentamente o tecido que cobria o rosto da Bispa Marik. O rosto escondido sob o véu não era o de Saraka, que eu conhecia tão bem. Diferente de Saraka, a pessoa que estava diante de mim, a chamada “Bispa Marik”, tinha o rosto inteiro coberto por cicatrizes de queimadura.
— Esta pessoa…
— Exato. É a grandiosa Bispa Marik.
O demônio, vestido com trajes de cavaleiro, beijou o dorso da mão da bispa, que dormia profundamente. Era um gesto que se aproximava mais de um escárnio do que de uma demonstração de respeito.
— Parecidas, não?
Não era apenas uma questão de semelhança. Desde o modo de caminhar, a forma de gesticular, os pequenos hábitos, até a voz e o tom de fala, era difícil encontrar qualquer diferença em relação à Saraka que eu conhecia.
Foi preciso levantar o véu e ver o rosto diretamente para distinguir que se tratava de outra pessoa… Com um disfarce desses, não era de se admirar que ninguém no templo tivesse notado que Saraka era a substituta da Bispa Marik.
Havia um motivo para Azazel ter arranjado esse encontro repentino com a Bispa Marik. Provavelmente, se eu não tivesse verificado o que havia sob o tecido, jamais teria acreditado na ausência de Saraka.
— Acredita agora? No que eu disse, que Saraka não está neste mundo?
Eu estava prestes a acenar com a cabeça, mas parei. Encarei Azazel e perguntei:
— Azazel. Você não queimou o rosto de Saraka de propósito só para insistir que ela é a Bispa Marik, queimou?
— Ficou louca? Por que eu faria isso?
— Para ganhar minha confiança.
Azazel pareceu ofendido, mas minha suspeita era legítima. Foi Azazel quem guardou rancor de mim e colocou Gabriel em perigo. Na última vez, ele até me ameaçou, dizendo que mataria Gabriel. Não podia ignorar a possibilidade de ele ter tramado algo para me atrair a uma armadilha.
— Uau, Saraka imita a Marik tão bem que isso acabou gerando um efeito colateral.
Azazel afastou o cabelo que caía sobre o rosto. Depois de soltar um suspiro profundo, ele continuou:
— Eu não queria ter que contar isso, mas… Saraka tem pavor de fogo. A Bispa Marik enfiou a mão de Saraka em uma fornalha, dizendo que faria as cicatrizes de queimadura ficarem iguais às dela. Por isso, eu jamais faria algo como queimar o rosto de Saraka só para enganar você.
Diante da resposta firme de Azazel, calei-me.
Ele não faria algo que Saraka teme? Que demonstração de amor puro e devoto. Era irônico que até aquele ser repugnante possuísse um santuário próprio. E o fato de a desculpa de Azazel ter me convencido tornava tudo ainda mais irônico.
Gabriel. É porque eu também possuo um santuário assim.
— Que pena.
— O quê?
— Quando Saraka for executada, você também será queimado na fogueira. É uma pena que não poderá ver isso antes de regredir.
Azazel cerrou os dentes e me encarou, então sorri abertamente para ele, como se quisesse que ele visse.
Claro, era mentira. Gabriel estava entre a vida e a morte, sem que eu tivesse tempo de me preocupar com Saraka. Eu também não sabia como Saraka seria punida. Até então, o templo costumava queimar hereges na fogueira, mas esse era o método da Bispa Marik. Agora que a bispa foi expulsa e marcada como herege, eles provavelmente adotariam outro método. Essa seria a nova diretriz do templo.
Eu sabia disso, mas mencionei a fogueira apenas para irritar Azazel. Pensei que devia ser essa a sensação que Azazel sentia quando me provocava usando Gabriel. Embora, ao fazer isso pessoalmente, não tenha sido tão gratificante quanto imaginei.
Olhei diretamente nos olhos de Azazel, que estava tão furioso a ponto de querer agarrar meu pescoço, e disse:
— Mesmo assim, você disse que queria voltar. Como você sabe, mesmo que volte, não poderá impedir a execução de Saraka.
— Eu sei.
— E talvez, você apenas não tenha procurado direito. Saraka pode estar viva e bem neste mundo.
Se Saraka não tivesse sido capturada pela Bispa Marik, ela estaria vivendo uma vida muito melhor. Sem ser torturada, sem ter a pele queimada, e sem cometer atos malignos sob lavagem cerebral.
— É. Pode ser…
Azazel deu um sorriso torto.
— Mas essa não seria a *minha* Saraka.
A resposta foi clara. O desejo de que ela estivesse na lama com ele, em vez de desejar a felicidade dela, era algo verdadeiramente demoníaco e egoísta.
E, maldita seja, essa atitude era parecida com o que eu pensava ao ver Gabriel, que existia aqui como um príncipe completo.
Senti um gosto amargo na boca.
***
A Bispa Marik recuperou a consciência pouco tempo depois. Eu e Azazel agimos como se nada tivesse acontecido, tomando chá calmamente. A Bispa Marik parecia acreditar que tinha apenas cochilado por um breve momento.
No salão de recepção da Bispa Marik, que se esforçava para parecer íntegra perante o público, não havia um único relógio. Naturalmente, ela não tinha como saber quanto tempo havia dormido.
— Peço desculpas por ter cochilado na frente da Lady Rohanson.
Parecendo envergonhada por ter dormido diante de uma visitante, a Bispa Marik endireitou a postura, tossiu falsamente e tentou manter uma pose nobre. Pousei levemente minha xícara de chá e sorri suavemente.
— A senhora sempre se dedica ao máximo para cumprir a missão divina. É natural que o cansaço se acumule.
Azazel concordou imediatamente.
— As palavras da Lady Rohanson estão corretas. Deus também conhece a sua dedicação, Bispa, e certamente permitiu que a senhora fechasse os olhos por um momento para descansar.
Como esperado de uma serpente, a forma como ele movia a língua com tanta naturalidade era detestável. Pensar que ele agia da mesma forma no templo, fingindo ser um cavaleiro devoto, me causava náuseas.
— Eu apenas transmito as palavras de Deus, e a Lady Rohanson é quem é verdadeiramente devota, a ponto de ser protegida por Ele.
A Bispa Marik não ficou atrás, curvando levemente a cabeça com falsa modéstia.
Já que tínhamos trocado gentilezas e não havia mais nada a tratar, eu estava prestes a ir embora quando a Bispa Marik tomou a iniciativa.
— Por que não faz uma oração antes de partir?
Hesitei por um momento diante da sugestão da Bispa Marik, mas acenei com a cabeça para não demonstrar suspeitas. Como eu tinha acabado de me recuperar milagrosamente, era natural que eu rezasse a Deus. Mantendo um sorriso consciente, dirigi-me à sala de oração com a Bispa Marik.
Era uma sala de oração privada usada por nobres e convidados ilustres, e o interior era extremamente luxuoso. Decorações douradas que simbolizavam o sol estavam incrustadas por toda parte, e a luz do sol entrava pelas janelas instaladas ao longo das paredes. A luz, tingida de dourado, parecia sagrada e divina. Com uma decoração dessas, até quem não tinha fé acabaria desenvolvendo uma.
Entrei na sala seguindo a Bispa Marik.
A Bispa Marik ajoelhou-se e juntou as mãos. Azazel já havia se afastado, usando a desculpa de que guardaria a porta. Eu deveria pelo menos fingir que estava rezando para Rahel?
— Ó, grande sol. Ilumine-nos com sua luz eterna e guie o nosso caminho.
A Bispa Marik recitou a oração. Sua voz ecoava baixa e silenciosa, parecendo preencher todo o espaço.
— Observe-nos sempre e não deixe que nem mesmo uma sombra caia sobre nossos passos.
Nesse momento, o ar dentro da sala de oração esfriou subitamente. À medida que a oração da Bispa Marik continuava, minha respiração tornou-se ofegante. Tive a ilusão de que algo invisível me encarava de forma sinistra e apertava meu pescoço. Instintivamente, levei a mão à garganta.
Foi então. O ar ao redor começou a se retorcer e distorcer.
— Bispa Marik?
Chamei-a desesperadamente, mas a bispa ignorou meu chamado.
— Queime a escuridão dos ignorantes sob o seu brilho ofuscante…
A Bispa Marik levantou-se. Não, ela realmente se levantou? Parecia que alguém a estava levantando à força, como se movesse uma boneca.
— Mostre a verdade naqueles olhos.
Com movimentos bizarros, a Bispa Marik moveu os braços e removeu o véu que cobria seu rosto.
O rosto que se revelou era completamente diferente do que eu tinha visto momentos antes. O rosto envelhecido e enrugado desapareceu, e não era o rosto de Saraka. Provavelmente, era o verdadeiro rosto da Bispa Marik, sem queimaduras. Até um momento atrás, estava claramente coberto por cicatrizes…
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, o rosto da bispa, que parecia normal, começou a queimar. Bolhas surgiram e cicatrizes se formaram. Antes que eu pudesse ficar horrorizada com o rosto queimando em um lugar sem fogo, a ferida cicatrizou instantaneamente, como se nada tivesse acontecido. O rosto derretia e se recuperava repetidamente.
Mesmo sendo uma cena dolorosa de se ver, a Bispa Marik não soltou um grito, nem mesmo um gemido.
Não. Aquilo não era a Bispa Marik.
E os lábios daquela “coisa”, que não era a Bispa Marik, abriram-se muito lentamente, em um ângulo estranho.
— Filha da coisa mais impura.
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