Além disso, com a saída do Príncipe Herdeiro, o banquete parecia estar chegando ao fim. Azazel lambeu os lábios enquanto observava o Príncipe se afastar. Aquilo era claramente um sinal de frustração por não ter conseguido matá-lo como da última vez. Será que ele pretendia pendurá-lo no teto de novo?
Observando a multidão que se dispersava, Azazel soltou um “Ah” proposital e inclinou-se para sussurrar em meu ouvido:
“Lady, por acaso poderia me conceder um pouco do seu tempo?”
Embora tivesse aproximado os lábios como se fosse dizer algo íntimo, ele não baixou o tom de voz. O sussurro era apenas uma performance para o público, e o volume alto era um convite para que todos ouvissem claramente.
Ele estava jogando uma isca, mostrando a todos como nossa relação era próxima. Imagino quantos nobres que estavam no salão não iriam tagarelar sobre isso com seus familiares ao chegar em casa. Tenho certeza de que, amanhã, rumores sobre um escândalo com aquele maldito bastardo serpente estariam circulando.
O próprio Azazel detestava aquela situação tanto quanto eu, mas fazia tudo aquilo apenas para me deixar desconfortável. Que dedicação admirável.
“Ficaria muito feliz se pudesse visitar o templo quando tiver disponibilidade.”
Ter a audácia de fazer um convite desses, como se estivéssemos apenas continuando uma conversa interrompida, era um talento à parte.
Senti um arrepio com aquele tom de voz gentil e polido. Era óbvio quem ele estava imitando. Ele estava deliberadamente copiando Gabriel. Como esperado de um demônio, ele tinha um dom especial para atormentar as pessoas.
Muito bem. Da próxima vez, carregarei água benta comigo. Vou despejá-la na boca dele sempre que o vir.
No entanto, como ainda tínhamos assuntos pendentes, apenas assenti. Azazel pareceu satisfeito com a resposta.
“Então, nos vemos na próxima.”
Azazel disse apenas o que queria e desapareceu. E sozinho, ainda por cima. Não vai levar seu subordinado? Rafaela olhou para as costas de Azazel, que a deixara para trás, com uma expressão desolada, antes de baixar a cabeça.
“Peço perdão pelo comportamento arbitrário do nosso Comandante. Além disso, por minha causa, a senhorita acabou sofrendo um mal-entendido desnecessário…”
O pedido de desculpas era responsabilidade de Rafaela. Ela parecia não suportar a situação e cobriu o rosto com as mãos. Estava claro que ela sentia tanta vergonha de seu superior que desejava desaparecer em um buraco. Ela era, literalmente, um saco de pancadas para a consciência alheia.
Rafaela limpou o rosto, como se estivesse sem jeito, soltou um suspiro profundo e olhou fixamente para mim.
“Lady. Isso é algo que digo a título pessoal. Por favor, tome cuidado com Azazel Astaroth.”
Eu não esperava que ela me desse um aviso desses. Até pouco tempo atrás, ela estava defendendo Azazel! Ou não? Pensando bem, Rafaela não sacou sua espada mesmo depois de ter visto a cena em que eu quase esfaqueei Azazel. Será que ela estava preocupada comigo, e não com ele?
“Agradeço o aviso, Sir.”
Mas eu não podia ignorar Azazel. Deve haver uma razão para aquele maldito ser o único que se lembra do passado.
“Sir Rafaela.”
“Sim?”
“Se sente tanto remorso, poderia me arranjar uma carruagem?”
“Uma… carruagem?”
O Conde Rohanson já tinha ido embora; não o vi em lugar nenhum. Provavelmente, não suportou os olhares que caíam sobre nós enquanto eu e Azazel éramos o centro das atenções e fugiu sozinho.
Além disso, em vez de construir uma relação de proximidade com o Duque, eu tinha criado uma atmosfera hostil, então ele provavelmente estava agindo por vingança. Se Pudding estivesse aqui, tudo bem, mas como eu voltaria sozinha? Rafaela, a princípio, não acreditou que o Conde tivesse me deixado para trás, mas ao confirmar que a carruagem da família Rohanson não estava lá, prontamente ofereceu a carruagem da Ordem dos Cavaleiros.
Ao me ver quase sendo agredida pelo Duque e desprezada pelo Conde, Rafaela pareceu ter chegado a uma conclusão equivocada. Ela começou a me escoltar como se eu fosse uma jovem frágil e vítima de abusos.
Enquanto me ajudava a subir na carruagem, Rafaela deu um aviso:
“Ah, e quanto ao Príncipe, entreguei o casaco dele e expliquei que não há nada entre a senhorita e o Comandante, que tudo não passou de um mal-entendido.”
Pensei que ela tivesse apenas entregado ao criado, mas ela foi explicar pessoalmente a Gabriel? Por que se dar ao trabalho…? Enquanto eu a observava com uma expressão amarga, Rafaela coçou a bochecha, parecendo sem jeito.
“Achei que a senhorita não gostaria de ser alvo de mal-entendidos desnecessários por parte do Príncipe, então tomei a liberdade de agir.”
De alguma forma, senti um gosto amargo. Até Rafaela, que me conheceu há pouco tempo, percebeu meus sentimentos. Se era assim, será que Gabriel também percebeu?
Ele deve ter percebido. Se até Rafaela, que era praticamente uma estranha, notou de relance, não havia como Gabriel, o próprio interessado, não saber.
Mesmo assim, por que ele não demonstrou nada? Senti um aperto no peito. A sensação de estar à deriva, como uma planta aquática, tornou-se ainda mais profunda, como se eu estivesse afundando nas profundezas do oceano por não ter onde me apoiar. O interior da carruagem, que balançava, permaneceu em silêncio.
Assim que voltei para a mansão, fui recebida pelo cadáver de um gato.
As criadas mantinham a cabeça baixa, em silêncio, como se estivessem culpadas. Minhas mãos tremiam. Pudding… A semelhança era tão grande que, por um momento, quase chamei pelo nome de Pudding.
Meu coração disparou, mas me forcei a lembrar que não era Pudding, apenas um gato comum, e tentei me acalmar. Ainda assim, meu estômago revirava.
“O que aconteceu aqui?”
“Bem…”
Segundo as criadas, o Conde, que voltou antes de mim, encontrou o gato por acaso e, ao saber que eu o estava criando, descontou sua raiva no animal.
O Conde me culpou por criar secretamente um gato que supostamente causava doenças e ordenou que queimassem o corpo. No entanto, as criadas desobedeceram à ordem do Conde e me esperaram.
Disseram que, como era um gato que eu estimava, queriam que eu o visse uma última vez, então guardaram o corpo sem coragem de enterrá-lo até que eu voltasse.
“Obrigada. Eu mesma o enterrarei, podem me entregar.”
Enterrei o gato sob a cerejeira.
Se era para morrer tão facilmente, talvez fosse melhor… Engoli o arrependimento. Estava começando a me acostumar com as perdas.
***
Vim ao templo para encontrar Azazel. Queria continuar a conversa que foi interrompida pela chegada de Rafaela. Também queria confirmar se Saraka tinha realmente desaparecido, como Azazel disse.
Rafaela e Azazel estavam me esperando. Rafaela suspirou ao me ver ignorar seu aviso de manter distância de Azazel. Como Azazel estava logo ao lado, ela não conseguiu demonstrar nada, mas senti pena dela.
“Bom dia, Lady.”
Azazel me cumprimentou. O sol já estava se pondo, que “bom dia” o quê.
Talvez por estar no templo com um corpo de demônio, Azazel parecia estar em pior estado do que quando o encontrei no palácio imperial. Isso me deu um pouco de satisfação. Mas por que ele insistia em ficar no templo mesmo estando tão mal? Comparado a Saraka, ele não parecia ter tanta lealdade ao Bispo Marik.
“Já que Saraka não está aqui, por que insiste em ficar no templo?”
Eu estava pronta para chutá-lo se ele respondesse com algum sarcasmo sobre querer roubar o posto de Comandante da Ordem de Phararos, mas Azazel parecia não ter energia nem para brincar.
“Eu disse. Quero encontrar pelo menos um rastro.”
Que obsessão admirável. Mas acho que não sou a pessoa certa para dizer isso, já que fiquei abalada ao ver o cadáver de um gato que nem era Pudding.
“Primeiro, vamos ver Marik.”
Azazel me guiou até a sala de recepção.
“Disse a Marik que a Lady Rohanson queria solicitar uma audiência com o Bispo para expressar sua gratidão ao Deus Sol.”
Ele soube usar muito bem o boato de que Evangeline Rohanson era doente. Como ela superou a doença milagrosamente, é natural que tenha desenvolvido uma fé que antes não existia. Azazel deu um tapinha no meu ombro, dizendo para eu me comportar bem na frente do Bispo Marik.
“Afinal, a Lady é muito boa em mentir.”
Afastei a mão de Azazel com força. Como aquilo me dava nojo, eu preferia que ele não me tocasse.
Ao chegarmos à sala de recepção, Azazel bateu levemente e entramos. Mesmo tendo se tornado Comandante da Ordem, a configuração de que ele era o braço direito de Marik não mudou, então nenhum outro cavaleiro nos barrou.
“Bispo Marik. Trouxe uma fiel para vê-lo.”
“Bom trabalho, Sir.”
O Bispo Marik, que tomava chá, pousou a xícara e me cumprimentou.
Senti um arrepio no momento em que ouvi sua voz. Era tão parecida com a de Saraka que me assustou. Por um momento, cheguei a pensar se Azazel não teria me enganado, dizendo que Saraka havia desaparecido enquanto, na verdade, ele estava ali.
“Meu nome é Evangeline Rohanson. É uma grande honra poder encontrar o Bispo.”
Falei com um tom de voz exaltado, como se estivesse emocionada, e o Bispo Marik sorriu, satisfeito. Até o som de sua risada era idêntico ao de Saraka imitando o Bispo, o que me causou arrepios.
Sentei-me do lado oposto, como Marik sugeriu. Conversamos sobre assuntos triviais até que eu esvaziasse a xícara de chá. À medida que a conversa se prolongava, o Bispo Marik falava cada vez menos, até que o silêncio tomou conta do ambiente.
“É um sonífero.”
Azazel, que estava parado ao lado como um cavaleiro leal, finalmente abriu a boca.
“Marik precisa dormir um pouco para que nossa Lady possa verificar o rosto dele, não acha?”
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