Posso entender o fato de não ter conseguido invocar o Pudim imediatamente com o círculo de conjuração. No passado, eu costumava chamar o Rei Espírito persistentemente, mas como nada acontecia, pensei que tivesse falhado. Na verdade, até agora, ainda estou em dúvida se realmente invoquei o Pudim naquela época.
No entanto, nem no dia seguinte, nem no posterior, o Pudim apareceu. “Vamos esperar só mais um pouco”. Mesmo pensando assim, minha paciência se esgotava rapidamente.
— Henna. Por acaso viu algum gato na mansão?
— Um gato? …Não. Não vi nenhum.
Henna balançou a cabeça.
Originalmente, depois de mim, Henna era quem mais encontrava o Pudim na mansão. Ela disse que o Pudim lhe deu água benta, não foi? Será que, agora que Kanna está completamente curada, o Pudim não sente mais necessidade de aparecer diante de Henna? Se nem ela o viu, então era correto presumir que o Pudim realmente ainda não havia aparecido.
Será que foi um erro eu ter mudado o passado por conta própria? Se fosse para ser assim, eu não deveria ter curado a Kanna…. Não, não. O que estou pensando? Dei um tapa forte em ambas as faces.
Henna ficou horrorizada com meu comportamento estranho. Eu certamente estava enlouquecendo. Como pude pensar que deveria ter deixado a Kanna doente? Era a Kanna, de todas as pessoas. Senti um calafrio pela estranheza de ter tido tal pensamento, mesmo que por um instante.
Mas, com o passar dos dias, minha obsessão pelo Pudim só aumentava. Passei o dia inteiro revirando a mansão como se estivesse caçando um rato, até que, por acaso, ouvi o miado de um gato.
[grito]Pudim![/grito]
Um gato estava morrendo, preso em uma armadilha. Ele miava de forma lamentável, como se implorasse por socorro.
— Por que ainda há armadilhas na mansão? — Henna murmurou, confusa, enquanto tentava remover a armadilha para salvar o gato.
Instintivamente, segurei Henna.
— …Lady Rohanson?
Lembrei-me de que, originalmente, no Condado Rohanson, matavam todos os gatos que viam. Por isso, eu já havia ordenado que não matassem nenhum gato caso vissem um. Também mandei remover todas as armadilhas. Eu sabia que o Pudim não era alguém que cairia facilmente em uma, mas não podia suportar vê-lo sendo ameaçado.
Mas e se, por causa dessa minha ordem, o Pudim não tivesse sido invocado?
[pensamento]…….[/pensamento]
Observei o gato em silêncio.
O gato ferido e moribundo era idêntico ao Pudim. As manchas, o porte físico. Se não fosse pelo fato de não ter um olho na testa, seria a cópia exata do Pudim.
Ou seja, se originalmente, quando desenhei o círculo de conjuração, aquele gato deveria ter morrido na armadilha. Se ele deveria ter sido o sacrifício que eu não preparei para poder invocar o Pudim.
[pensamento]Então, talvez eu deva deixá-lo morrer agora…[/pensamento]
— Jo-Jovem Lady… está doendo.
— Ah.
Soltei a mão de Henna ao ouvir seu gemido de dor. Não percebi quanta força estava usando; havia marcas de dedos no braço dela onde segurei. Certamente ficaria roxo.
Henna me olhou com olhos temerosos. O gato que se parecia com o Pudim fez o mesmo. De repente, senti vontade de fugir dali.
— Sinto muito, me desculpe.
Acabei me desculpando sem perceber. Eu mesma me sentia estranha por tratar uma vida com tanta leviandade.
Quando me aproximei, o gato rosnou e arrepiou os pelos.
Talvez ele tenha sentido, com seu instinto animal, que eu pretendia feri-lo. Mesmo sabendo que aquele gato não era o Pudim, acabei me sentindo magoada por um momento. Apesar de que, por um instante, eu realmente cogitei deixá-lo morrer.
Assim que o libertei da armadilha, o gato me arranhou. Henna ficou horrorizada, mas eu a ignorei, dizendo que estava tudo bem.
— Desculpe.
Minha mão ardia. Eu não tinha certeza para quem estava pedindo desculpas. Se era para o gato, ou para o Pudim, por ter desistido de invocá-lo por não conseguir matar nem sequer um gatinho.
***
— Ele parece gostar muito da Jovem Lady.
— Pois é.
Estranhamente, o gato me seguia para todo lado.
Ele não parecia ignorar o fato de que eu quase o deixei morrer, mas, embora arrepiasse os pelos quando eu chegava perto, não se afastava de mim. E olha que quem cuidava dele, tratando seus ferimentos e o escovando, era a Daisy ou os outros criados.
— Agora que penso nisso, a Lady Rohanson também gostava de gatos antigamente.
— Antigamente?
Daisy murmurou, como se estivesse relembrando o passado.
Graças ao fato de eu ter vasculhado o subsolo do Orfanato Ainoa e resgatado as crianças, consegui impedir a fuga da Daisy logo cedo. No entanto, parece que fui cedo demais, pois Melek ainda não estava lá. Perguntei às crianças, mas não parecia que a diretora tivesse feito algo absurdo ainda. Eu ataquei o orfanato antes mesmo que ela pudesse invocar o demônio. Depois do Pudim, também não consegui encontrar o Melek.
Daisy vasculhou suas memórias e contou histórias de antigamente.
— Sim. Eu costumava encontrar pelos de gato nos vestidos da Jovem Lady. O Conde ficou furioso, dizendo que a Jovem Lady estava doente por causa dos gatos, e ordenou que todos fossem capturados.
Não era possível que o Conde estivesse preocupado comigo. Sendo alguém que valoriza as aparências, deve ter sido apenas uma mentira para justificar o fato de Evangeline não conseguir sair da cama por letargia.
Ou talvez, como eu disse que gostava de gatos, ele simplesmente não suportava ver que eu tinha algo de que gostava. O Conde era o mesmo lixo de sempre, tanto naquela época quanto agora.
— A Jovem Lady pretende criar este gatinho daqui para frente?
— Bem…
Como não dei uma resposta definitiva, Henna pareceu aliviada. Ela parecia desconfortável com o gato. Quando perguntei o motivo, ela disse que havia participado do massacre de gatos no passado. Disse que foi porque pagavam bem. Afirmou que não se arrependia, pois aquele dinheiro serviu para pagar o tratamento da irmã, mas seus olhos mostravam culpa ao olhar para o animal.
No entanto, Henna não hesitou em tentar salvá-lo assim que o viu. Ela era muito melhor do que eu.
Henna olhou para o pescoço nu do gato e perguntou:
— Jovem Lady, não vai colocar uma coleira nele?
Ela mencionou isso pensando na etiqueta com nome que eu havia bordado. Era um nome que bordei pensando que o Pudim viria. Eu o fiz de forma muito mais elegante do que antes, mas o destinatário havia desaparecido.
— Ele já tem um dono.
Eu não conseguia chamar aquele gato de Pudim. Eu sentia falta do Pudim.
***
Kanna acabou se tornando minha criada. No entanto, talvez porque este primeiro encontro não tenha tido o mesmo impacto de antes, Kanna parecia me achar difícil. Por exemplo, o fato de ela me chamar de “Lady Rohanson” já demonstrava isso. Para se ter uma ideia, até a Henna parecia se sentir mais à vontade comigo do que ela.
Mesmo com a Kanna bem diante dos meus olhos, eu sentia saudades dela. Da Kanna que me recebia com um sorriso, chamando-me de “Senhorita”.
Além da Kanna, havia muitos outros de quem eu sentia falta. Da Kanna, eu ao menos podia ver o rosto, mas com o Pudim e o Jelly, nem isso era possível.
Já esperava por isso desde que não encontrei o Pudim e o Melek, mas, como previsto, o Jelly também não apareceu. Por via das dúvidas, passei a noite inteira no jardim no dia em que o Jelly deveria ter vindo, mas não vi nem um fio de pelo dele. Eu conseguia imaginar o motivo.
Era uma espécie de [glossario termo=”O conceito de que pequenas mudanças no passado podem causar grandes alterações no futuro.”]Efeito Borboleta[/glossario]. Donau não morreu, e o círculo de conjuração não se espalhou. Como não havia uma pintura para ser pendurada no templo, não houve o grande alvoroço de antes. Não havia ninguém tentando invocar demônios e, acima de tudo, o Bispo Marik não apareceu na linha de frente.
Eram dias que pareciam superficialmente muito pacíficos. Em um mundo assim, parecia que Sir Gabriel nunca se feriria.
Embora eu ainda nem sequer tivesse conhecido o Gabriel.
…Sinto falta do Sir Gabriel.
Para ser sincera, se eu quisesse ir ao templo, eu poderia. Eu apenas não fui. Depois de ver a Kanna, percebi novamente que realmente voltei ao passado. Senti na pele que não conseguiria reconstruir as mesmas relações de antes. Fiquei com medo de que o Gabriel não me olhasse da mesma forma que antes.
Mas o Pudim, o Jelly e o Melek não estão aqui. Se até a Kanna parece outra pessoa… que valor este mundo tem para mim?
Talvez a regressão não tenha sido para salvar o Gabriel, mas sim o preço que paguei à Leah.
***
E assim, chegou o dia do banquete do Príncipe Herdeiro.
— Ficou muito bem na Jovem Lady.
— Obrigada.
Henna e Daisy disseram isso, mas o vestido não me agradava. Era porque não era o vestido de que eu me lembrava.
Não havia o que fazer. Desta vez, não pude confiar o vestido à Misha. Ela recusou educadamente, dizendo que a agenda estava lotada, e eu não podia simplesmente fazer birra. Isso me fez perceber o quanto eu era privilegiada no passado.
Sem o ponto de contato entre Gabriel e Michelle, Misha era uma completa estranha para mim. A amiga que passava a noite fazendo um vestido, torcendo pelo meu retorno seguro, não existia mais. Cada vez que eu remoía as diferenças em relação ao passado, sentia-me como se tivesse caído sozinha em um país das maravilhas estranho.
Era como se eu tivesse sido deixada sozinha no mundo. Nessas horas, o Pudim sempre estava ao meu lado para me consolar…. Mas eu não acabei desistindo do meu gato? Senti que ia afundar em uma melancolia autoinfligida.
Talvez fosse por causa da chuva que caía lá fora. Pelo visto, o fato de chover no banquete de aniversário do Príncipe Herdeiro continuava igual.
— Está esperando por alguém? — Henna perguntou ao me ver demorar para entrar na carruagem.
— Não é nada.
Balancei a cabeça e subi na carruagem.
Mesmo que eu esperasse, a Senhora Toten não apareceria.
Comentários