O tom inquisidor do padre era tão gentil que, na verdade, tornava-se ainda mais assustador. O padre, que observava Henna em silêncio, sorriu suavemente.
— Então, parece que não houve nada de errado com a refeição da devota.
Felizmente, o padre pareceu convencido e saiu carregando a louça vazia. Assim que ele se retirou, Jelly, que fingia estar à beira da morte, abriu os olhos furtivamente e começou a rir baixinho.
— Ouviu isso? Sua língua está estragada.
Ele parecia estar prestes a perder o fôlego. Ria tão alto que Henna ficou preocupada que o padre pudesse ouvir e voltar, sentindo-se tensa.
Henna esperou que Jelly parasse de rir. Quando ele finalmente se acalmou, ofegante, ela perguntou:
— Por que não me contou?
— O quê? Ah, sobre o leite estar estragado?
Henna assentiu.
— Não estava estragado.
— O quê?
— Pelo contrário, acho que foi a coisa mais saborosa que comi durante toda esta semana.
Como já se passara mais de uma semana desde que fora trancada na torre do sino, as palavras de Jelly não passavam de uma brincadeira. Após falar com desdém, ele logo escondeu o tom brincalhão e explicou:
— Eu estava testando você.
As palavras de Jelly fizeram um calafrio percorrer a espinha de Henna. Então… isso significava que o padre mentiu deliberadamente para verificar se Henna tinha comido a refeição corretamente?
— Como você tem agido de forma estranha ultimamente, ele deve ter querido confirmar se você tinha recuperado o juízo.
Como Henna parara de comer e passara a beber apenas água benta, recuperando a clareza mental, o padre notara a estranheza e decidira testá-la.
O que teria acontecido se Henna tivesse mudado de ideia e confirmado que o leite estava com um gosto estranho? Horrorizada, ela esfregou os braços.
— Por que está com tanto medo? Bastaria dizer que sua língua estava paralisada pelo efeito dos remédios e que você não sentia o gosto de nada.
Jelly respondeu como se tivesse lido os pensamentos de Henna.
— Bem, de qualquer forma, sua atuação de boba foi perfeita, então fique tranquila. Qualquer um teria pensado que você era uma viciada, não é?
Henna ouvia as risadas de Jelly, mas o tremor em seu corpo não cessava.
Agora, ela não tinha como negar. Jelly estava certo. Havia drogas misturadas na comida servida pelo templo. E não apenas qualquer droga, mas narcóticos que roubavam a razão, impedindo Henna de pensar normalmente.
De fato, a água benta era algo misterioso. Ela curou instantaneamente os sintomas de abstinência dos narcóticos que a própria Henna nem sabia que estava consumindo.
Graças a Doline Ponor, que servira como tutora de Evangeline na Mansão Rohanson, Henna sabia muito bem como era uma pessoa viciada em drogas.
Quando Doline se infiltrou na mansão, ela sofria de sintomas de abstinência consideráveis, e esses sintomas eram muito parecidos com os de Henna.
Mas seria possível apresentar sintomas de abstinência tão graves com apenas alguns dias de refeições no templo? Henna, com a mente mais clara, tentou vasculhar suas memórias.
O momento em que Henna começou a agir de forma estranha, como se estivesse possuída por algo, foi antes mesmo de entrar no templo. Certamente, ela já estava consumindo drogas antes de chegar ali. No entanto, Henna tinha certeza de que nunca tinha tocado em drogas por vontade própria.
Portanto, alguém a estava drogando, e havia apenas uma pessoa em quem ela conseguia pensar.
‘…Bispo Marik.’
Toda vez que o Bispo Marik encontrava Henna, ele fazia questão de lhe dar comida. Às vezes era um chá para acalmar o corpo, outras vezes um remédio para evitar pesadelos, ou até mesmo pães recém-assados que ele dizia ter comprado por ter se lembrado dela.
Henna ansiava pelo tempo que passava com o Bispo Marik, compartilhando o chá. Era o único momento em que ela conseguia escapar da Lady Rohanson, dos demônios e daquela existência assustadora que usava a pele de sua irmã.
Mas se aquele tempo doce fosse, na verdade… se fosse um ambiente criado deliberadamente pelo Bispo Marik, dando-lhe drogas para que ela esperasse ansiosamente apenas por ele…
O fôlego de Henna foi cortado.
Como ela estava viciada e sofria de leves sintomas de abstinência, ela só conseguia consumir a droga quando encontrava o Bispo Marik; como aquele tempo não seria bem-vindo? Será que Henna não tinha se tornado dependente do Bispo Marik, que lhe dava as drogas, a ponto de seguir seus sussurros como se fossem revelações divinas?
Agora que pensava nisso, foi o Bispo Jabaniya quem enviou Doline. Embora Doline já fosse uma viciada por natureza e Jabaniya talvez não tivesse recomendado a droga em si, era evidente que o templo usava drogas e água benta como método para sufocar a vontade alheia.
Não havia como o Bispo Marik desconhecer o método usado pelo Bispo Jabaniya.
A própria Henna não conseguia entender como a situação tinha chegado àquele ponto.
No início, sua irmã apenas tinha se tornado uma estranha.
Uma criança que mal conseguia sobreviver dentro da proteção de Henna. Originalmente, Kanna era uma criança que não conseguia viver sem ela. No entanto, após se recuperar bebendo água benta, Kanna não precisava mais de Henna.
Kanna mudou vividamente desde que aprendeu a caminhar com as próprias pernas. O mundo de Kanna não era mais apenas Henna.
Mas e Henna? Henna, que vivia apenas para Kanna? Ela percebeu que também não tinha propósito de vida se não fosse por Kanna.
Então, no dia em que visitou o templo e viu o quadro com o cadáver de Donau, Henna sentiu uma perda total ao perceber as diferentes impressões que tiveram. A perda e a estranheza que sentia pela irmã, que tinha saído completamente de sua proteção, logo se transformaram em medo e aversão.
Mas Henna não admitiu seu egoísmo. Pelo contrário, ela transferiu a responsabilidade, dizendo que o motivo de sentir medo era tudo por causa de Kanna.
Kanna tornou-se cruel por estar sob a influência da Lady Rohanson.
Kanna estava possuída por um demônio.
Foi então que Henna conheceu o Bispo Marik.
O Bispo Marik lhe deu outra desculpa. Dizia que um demônio tinha tomado o corpo de Kanna. A ideia de que ela poderia recuperar sua Kanna se tudo desse certo era muito tentadora. Os sussurros do Bispo Marik e o narcótico ao qual ela se viciou sem saber tornaram-se o estopim que levou Henna ao pior cenário.
Manipulada, Henna traiu a Lady Rohanson, que salvou sua irmã, e traiu sua amada irmã, que se recuperara milagrosamente.
Mesmo que Henna tivesse caído nas armadilhas do Bispo Marik, o fato de suas memórias não estarem completas não apagava os atos que ela cometeu.
Acima de tudo, uma das pessoas que mais sofreu por causa de Henna não estava bem diante de seus olhos? Henna olhou fixamente para Jelly.
— Como você sabia?
— Do quê? Que você estava louca?
— …Que eu estava viciada em drogas.
Henna não apontou o tom sarcástico de Jelly. Ela não tinha energia para isso e achava que merecia ouvir palavras duras dele.
— Você me deu sangue para beber. Lembra?
Henna assentiu. Ela se lembrava vagamente. Foi quando estava sob o efeito das drogas. Confundindo Jelly com Kanna, Henna cortou o próprio braço para tratar sua irmã, que sofria com a água benta.
— Descobri porque o gosto do sangue estava horrível. Havia impurezas nele, foi impossível não notar.
De certa forma, foi uma sorte Henna ter dado sangue a Jelly naquela época. Graças a isso, Jelly percebeu a condição de Henna. Além disso, Jelly disse que seu corpo só tinha se recuperado minimamente porque ele bebeu o sangue de Henna naquele momento. Não foi exatamente uma gratidão, mas uma consequência.
— Eu sabia que você estava louca, mas não sabia que era por causa das drogas.
Jelly resmungou, lamentando não ter percebido antes. Henna sorriu, algo muito raro. Mesmo que fosse por causa das drogas, os atos de Henna não tinham desaparecido, mas Jelly parecia ter aliviado seu ressentimento ao entender a causa.
Ele estava com o corpo todo destruído e ainda assim fazia piadas. Ele era muito compreensivo. Pensando bem agora, ele era um demônio que nem dava tanto medo assim.
***
Não era uma surpresa, mas Henna não estava lá para vigiar Jelly; ela estava trancada na torre do sino junto com ele. O Bispo Marik provavelmente a trancou junto com Jelly para se livrar de ambos de uma vez, agora que Henna não tinha mais utilidade.
Os padres traziam refeições misturadas com drogas duas vezes ao dia, de manhã e à noite. Às vezes, eles traziam dezenas de garrafas de água benta. Parecia que o local ainda era usado como depósito de água benta, independentemente de Henna e Pudding estarem trancados ali.
No entanto, foi a primeira vez que um cavaleiro apareceu. Henna ficou tensa involuntariamente ao ver a bainha da espada que exibia imponência na cintura do cavaleiro.
— Então você é a criada de Evangeline Rohanson.
O cavaleiro olhou para Henna com desprezo.
— Você tem uma aparência deplorável para ser uma serva do demônio.
A aversão que ele não conseguia esconder era evidente em seus olhos. O cavaleiro bateu no punho da espada por hábito. Aquele pequeno gesto foi o suficiente para fazer Henna prender a respiração de medo.
Será que ele descobriu que ela não estava tomando os remédios? O Bispo Marik teria enviado o cavaleiro por achar que Henna não tinha mais utilidade?
Felizmente, o olhar do cavaleiro logo se desviou. Tendo perdido o interesse em Henna, ele voltou sua atenção para Jelly. Desta vez, os olhos do cavaleiro brilharam com uma intenção assassina. Henna ficou tensa, sentindo que o cavaleiro poderia acabar com a vida de Jelly a qualquer momento.
— Se o Bispo Marik não tivesse dado ordens para mantê-lo vivo, eu já teria matado você… Por que tenho que estar vigiando alguém como você em um dia como hoje?
O cavaleiro abriu a boca, reprimindo sua sede de sangue. Parecia que o motivo da raiva do cavaleiro era Jelly. O cavaleiro resmungou algo enquanto encarava Jelly, como se estivesse reclamando. Henna prendeu a respiração e ouviu atentamente os sons baixos.
Juntando as peças do que ouviu, parecia que o cavaleiro estava furioso com a ordem do Bispo Marik de guardar a torre do sino onde o demônio estava trancado. Ele parecia achar que deveria ter um papel maior e que estava sendo impedido por Jelly.
— Mas tudo bem. Um pouco de desabafo não fará mal. O Bispo Marik deve fechar os olhos para isso.
O cavaleiro desembainhou a espada. A lâmina saiu da bainha com um som arrepiante. Com essa frase, dita como se fosse uma justificativa, uma violência impiedosa começou.
Henna ficou paralisada pela violência visual que o cavaleiro exibia. Com medo de que sua própria cabeça fosse cortada se tentasse impedi-lo, ela não teve escolha a não ser sentar-se no canto, prendendo a respiração. Ouvindo os sons que vinham, de forma totalmente impotente.
Jelly não conseguiu nem mesmo resistir. Era natural, já que ele não estava em condições de reagir.
O cavaleiro derramou água benta lenta e calmamente sobre a espada que perfurava o corpo de Jelly. A água benta escorreu pela lâmina, acumulou-se entre a carne perfurada e começou a ferver por dentro. Era uma tortura muito lenta.
O cavaleiro saboreava os gemidos de dor de Jelly e acrescentou um tempero para atormentar o demônio ainda mais.
— Ouça bem. Hoje é o dia em que a cabeça do seu mestre será cortada. Ou será que ele vai queimar até a morte?
Seu tom era alegre, como se estivesse cantarolando. As palavras do cavaleiro foram ouvidas com uma clareza estranha até por Henna, que tapava os ouvidos por não conseguir suportar os gemidos de Jelly.
Comentários