Graças à atuação de Evangeline como sua filha, ou talvez devido à confusão na estufa durante o dia, a Duquesa foi para a cama excepcionalmente cedo. Lico, que saiu do trabalho mais cedo que o normal, planejava jantar com Mavka depois de muito tempo.
No entanto, Mavka não voltou até a noite. Foi um erro não ter dado a devida atenção a Mavka, já que a situação da Duquesa havia piorado. Lico temia que Mavka pudesse ter se envolvido em algum problema, especialmente com o Ducado Hosaquin já em tal estado de caos.
Quando Lico saiu para procurar a criança, um eco estranho se espalhou pela mansão. Sons de rangidos vinham do teto. Ratos corriam sem parar, ágeis.
[sussurro]“Mavka.”[/sussurro]
[sussurro]“Mavka?”[/sussurro]
A pronúncia era um tanto indistinta, como se monstros incompletos estivessem imitando a fala humana em sussurros. O mais arrepiante era que a voz repetia o nome de Mavka.
Lico inicialmente pensou que estava finalmente enlouquecendo, assim como as criadas que serviam a Duquesa.
As criadas alegavam que a maldição havia se espalhado e a loucura se tornara contagiosa, pois elas haviam cuidado da Duquesa em segredo, sem denunciá-la ao templo.
Felizmente, as criadas da Duquesa eram leais ao Ducado Hosaquin, então não a denunciariam ao templo nem deixariam a informação vazar.
Se a alegação delas fosse verdadeira, os sons que Lico ouvia agora seriam parte da loucura.
[sussurro]“Mavka? Onde você está? Onde? Onde ela foi?”[/sussurro]
A voz parecia expressar os pensamentos mais íntimos de Lico, mas com uma sensação ainda mais sinistra. Soava como o uivo de um animal e, ao mesmo tempo, como uma mistura de várias vozes.
Lico tentou ignorar os sons e correu pela mansão, procurando em todos os lugares onde a criança poderia estar, mas não encontrou Mavka.
[pensamento]‘Será que algo realmente sério aconteceu?’[/pensamento]
Lico procurou uma das criadas mais jovens que costumava cuidar bem de Mavka, pensando que talvez ela a tivesse visto. A criada já estava pronta para dormir.
[sussurro]“…Mavka está aqui, por acaso?”[/sussurro]
[sussurro]“Não. De jeito nenhum.”[/sussurro]
Lico, que havia nutrido alguma esperança, não conseguiu esconder sua decepção. A criada inclinou a cabeça, observando o rosto pálido de Lico.
[sussurro]“Você viu Mavka hoje?”[/sussurro]
[sussurro]“Mavka desapareceu, por acaso?”[/sussurro]
[sussurro]“…Sim. Já é tarde e ela não voltou.”[/sussurro]
[sussurro]“Já é bem tarde…”[/sussurro]
A criada, que estava preocupada com a notícia do desaparecimento de Mavka, de repente bateu palmas como se algo tivesse lhe ocorrido.
[sussurro]“Ah! Agora que penso, tenho uma ideia.”[/sussurro]
[sussurro]“O quê? Qual é?”[/sussurro]
[sussurro]“Mavka tem brincado de detetive ultimamente e vive seguindo o chef. Ontem, ela se escondeu debaixo da mesa, dizendo que estava de tocaia, e me assustou. Será que ela se escondeu debaixo da mesa de novo hoje e acabou dormindo na cozinha?”[/sussurro]
O rosto de Lico se iluminou visivelmente com as palavras da criada. Lico não havia sequer pensado em procurar na cozinha, imaginando que Mavka não estaria lá.
[sussurro]“Obrigada. Vou direto para a cozinha.”[/sussurro]
Era como se já tivesse encontrado Mavka. Lico agiu como se fosse correr para a cozinha, mas de repente parou e fez uma pergunta em voz baixa à criada.
[sussurro]“Você também ouve esse som, por acaso?”[/sussurro]
[sussurro]“Que som?”[/sussurro]
[sussurro]“Não. Nada.”[/sussurro]
Lico balançou a cabeça, dizendo que era uma pergunta sem importância. A criada inclinou a cabeça para ouvir a pergunta de Lico, mas não pareceu notar nada incomum e respondeu: [sussurro]“Não ouço nada.”[/sussurro]
Então, o som de Mavka sendo procurada era algo que só Lico ouvia.
Ela não sabia por que só ela ouvia. A ansiedade não diminuiu, como se a sensação de alívio nunca tivesse existido, e Lico chegou à cozinha.
[pensamento]‘Há uma presença.’[/pensamento]
Lico presumiu que a presença era de Mavka e caminhou sem hesitação na direção do som.
Fazer a mãe se preocupar tanto e, no entanto, estar escondida na cozinha comendo lanches… Lico sentiu alívio, mas também prometeu dar uma bronca em Mavka para que nunca mais andasse por aí à noite.
À medida que a forma indistinta se tornava mais nítida, ouvia-se um som de mastigação. Será que ela se escondeu debaixo da mesa, acordou com fome e estava roubando comida da cozinha?
Lico se aproximou, fazendo uma suposição engraçada.
A pessoa, absorta em comer algo, não percebeu a aproximação de Lico por trás. Sua cabeça estava baixa, impossibilitando a identificação, mas era evidente que não era uma criança.
Assim que Lico percebeu que não era Mavka, engoliu um suspiro que ameaçava escapar e virou-se.
Em outras ocasiões, não importaria, mas agora precisava encontrar Mavka o mais rápido possível. Não havia tempo para repreendê-la por comer escondido à noite.
Ao se virar, algo mole roçou em sua perna. Lico parou, arrepiada pela sensação.
[sussurro]“Um rato?”[/sussurro]
Pelo e um rabo longo, desproporcional ao corpo. O que roçou no pé de Lico era, sem dúvida, um rato.
Por que de repente…
[sussurro]“Por que, um rato…”[/sussurro]
Antes que Lico terminasse de falar, um som estranho a interrompeu.
[sussurro]“Parece delicioso, não parece?”[/sussurro]
Um arrepio percorreu seu corpo, e a sensação era estranha. As pontas dos dedos estavam frias e tremiam, e o pescoço se encolheu com o calafrio. Ela cerrou os lábios para não gritar, pois um ruído estranho ecoava em seus ouvidos.
A presença que ela havia tentado ignorar se alojou em um canto de sua mente, tocando seus nervos. O que aquela pessoa estava comendo? Por que ela não ouvia o som de mastigação, mas sim outro som?
Um estalo forte, como algo duro se quebrando, e um som úmido, como se algo com casca estivesse sendo mastigado, como uma fruta. Lico sentiu um arrepio na espinha ao ouvir o som tão claramente.
[pensamento]‘Parece delicioso?’[/pensamento]
A voz que antes só procurava Mavka agora proferia outra frase, e o conteúdo era chocante. Parecia delicioso? Não seria o som de um rato, seria?
Ela queria vomitar imediatamente em resposta. O olhar de Lico estava fixo no rato, como se estivesse hipnotizada. Um rato, que estava parado à sua frente como se estivesse em um prato, correu em direção à cozinha quando Lico não demonstrou intenção de se mover.
Era a direção de onde vinha a presença. O olhar de Lico seguiu o movimento do rato. O rato que roçou em seu pé foi imediatamente pego pela pessoa que comia algo na cozinha e, em seguida, foi direto para a boca dela.
Lico virou os olhos, incapaz de ver o que acontecia depois. O som de mastigação de antes era isso?
Ela sentiu náuseas. Lico cobriu a boca e recuou. Tão chocada que não percebeu o ambiente, esbarrou em uma prateleira atrás dela, e os copos de vidro caíram e se estilhaçaram. Ao mesmo tempo, o som de mastigação parou.
A pessoa na cozinha começou a caminhar em direção a Lico. Lico estava paralisada de medo, incapaz de fazer qualquer coisa. Só quando a pessoa se aproximou é que ela conseguiu reconhecê-la.
[sussurro]“Nigella?”[/sussurro]
[sussurro]“Mordomo Lico.”[/sussurro]
E ela quase perdeu a cabeça ao ver alguém completamente inesperado. Nigella parecia extremamente calma para alguém que acabara de engolir um rato inteiro. Não, apenas sua atitude era calma.
Seus olhos, com todas as veias estouradas, tinham pupilas que se dilatavam e contraíam repetidamente. Em volta da boca, havia um líquido com pelos secos, grudado como cola.
[sussurro]“Acabou de, acabou de comer o quê, o quê?”[/sussurro]
[sussurro]“O que eu comi?”[/sussurro]
Nigella descartou a pergunta, dizendo que não se lembrava de nada. Lico não sabia se ela realmente não tinha consciência do que havia feito ou se estava apenas fingindo ignorância.
[pensamento]‘Espera. O que acontece se alguém come um rato?’[/pensamento]
A “Amaranto” que a Duquesa havia invocado era teimosa. Se dividida ao meio, ela se separava em duas e sobrevivia, então o Duque Hosaquin ordenou que o pedaço de carne fosse picado e dado aos ratos. Ele pensou que isso a mataria, mas, em vez disso, os ratos ficaram estranhos depois disso. Foi uma escolha errada.
Ele não imaginava que aquele pedaço de carne sobreviveria mesmo depois de ser comido pelos ratos. Em vez disso, permaneceu como um parasita, controlando o hospedeiro. Portanto, a sensação de Lico era diferente da de outras pessoas que simplesmente pensavam que a taxa de reprodução dos ratos havia aumentado. Lico sentia náuseas ao ver os ratos.
Mesmo assim, com a iniciativa do Duque, os ratos começaram a ser caçados e não eram vistos ultimamente, então por que apareceram de repente? Além disso, o fato de pararem na frente de Lico ou não escaparem das mãos de Nigella parecia que estavam aceitando ser comidos.
Será que comer ratos teria o mesmo efeito nas pessoas? Então, a Nigella à sua frente…?
Incapaz de superar o medo que a invadia antes mesmo de conseguir entender a situação, Lico, aterrorizada, fugiu, deixando Nigella para trás.
Instintivamente, ela subiu as escadas, pensando que precisava fugir para o lugar mais distante da cozinha. Seu corpo naturalmente a levou ao seu quarto.
Foi então que Lico encontrou Evangeline parada calmamente no corredor.
Ao lado de Evangeline estava sua amada filha, Mavka, que Lico tanto procurava. Exceto pelos olhos e ponta do nariz avermelhados de tanto chorar, Mavka estava ilesa.
[grito]“Mamãe!”[/grito]
No momento em que Mavka a abraçou, seus cinco sentidos voltaram, e as cores do mundo retornaram. Era como se tivesse voltado do inferno. Sentiu o estômago, que estava embrulhado, se acalmar.
Mavka chorava tão amargamente que fazia qualquer um que a visse sentir pena. Lico nunca a tinha visto chorar tão alto desde que nasceu. Mavka tinha apenas seis anos, então seria mais estranho se ela não chorasse. Tudo era culpa de Lico.
Lico reprimiu o desejo de chorar junto com Mavka.
Mavka, que chorava amargamente como se o mundo fosse acabar, adormeceu rapidamente de exaustão depois que Lico a acalmou, batendo em suas costas. Restava apenas Evangeline Rohanson.
[sussurro]“Boa noite, Lico.”[/sussurro]
Evangeline disse com um sorriso gentil.
Evangeline agia como se soubesse exatamente o que Lico havia acabado de passar. E não era só isso. As alucinações auditivas que Lico ouvia também eram ouvidas por Evangeline.
Será que Lico estava enlouquecendo e por isso ouvia essas alucinações? Evangeline parecia saber a resposta. Afinal, ela não havia prometido com confiança ao Duque Hosaquin que se livraria dos “ratos” do Ducado?
[sussurro]“Primeiro, Mavka parece exausta, então podemos ir para o quarto?”[/sussurro]
Evangeline assentiu prontamente à sugestão de Lico. Depois de irem para o quarto, Lico deitou Mavka na cama. Se Mavka acordasse, ela perguntaria à criança o que havia acontecido, mas primeiro era preciso conversar com Evangeline.
[sussurro]“Então, Jovem Lady, por que estava com Mavka?”[/sussurro]
Enquanto procurava por Mavka, Lico não imaginava que Evangeline estaria com ela. Evangeline respondeu com o mesmo sorriso pintado no rosto.
[sussurro]“Mavka veio chorando me procurar, então a consolei.”[/sussurro]
A desculpa, vinda de uma garota tão insensível que não daria atenção nem a alguém que implorasse por ajuda a seus pés, soava surpreendentemente humana.
A mentira, proferida sem piscar, deixou Lico ainda mais inquieta. Evangeline sorriu abertamente, como se soubesse o que Lico estava pensando.
Um olhar frio, vindo dos olhos semicerrados, avaliou Lico. Era como se estivesse medindo seu valor. Lico sentiu-se reduzida a um mero pedaço de carne.
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