Agora sou uma possuída incrível que até sabe ler.
Já que consigo ler, é hora de revirar o diário de Evangeline. Aproveitando a oportunidade, vou procurar um feitiço de invocação e tentar invocar um espírito ou um dragão para me tornar uma personagem apelona!
Preparei-me para a tarefa, mas Pudim sentou-se prontamente no meu colo. Com Pudim ao meu lado, abri o diário com um coração puro e reverente.
9 de março, ano 370.
Conheci o Conde Rohanson.
Não é comum encontrar um diário que não comece no dia 1º de janeiro. Aliás, em que ano estamos?
— Em que ano estamos?
— Pelo calendário imperial, estamos no ano 392.
Perguntei o ano a Henna, que se tornou bem próxima de mim ultimamente. Mesmo que sua empregadora parecesse patética, Henna respondeu gentilmente.
Ano 392? Olhei para a data novamente. Faz mais de vinte anos. Então, este não era o diário de Evangeline. Errei o palpite.
9 de agosto, ano 370.
Aquele homem me pediu em casamento.
Parece que a dona do diário era a mãe de Evangeline. Havia menções sobre ela estar prestes a se casar com o Conde Rohanson. Como ela não parecia ser do tipo que escreve textos longos, o conteúdo era breve e as datas saltavam rapidamente.
19 de agosto, ano 370.
Meu pai me proibiu de sair. Ele insiste que aquele homem só me pediu em casamento de olho no Ducado. Como o papai pode afirmar isso sem nem tê-lo visto? Ele disse que me ama de verdade. Disse que não se importava se eu não tivesse dinheiro.
A mãe de Evangeline devia ser a terceira filha do Ducado. Infelizmente, o nome exato da família não estava escrito. De qualquer forma, a história era sobre a filha de um ducado rico que se apaixonou por um conde que conheceu por acaso, casou-se contra a vontade da família e acabou sendo deserdada.
2 de abril, ano 371.
Eu deveria ter ouvido o papai. Quero voltar para o Ducado.
No entanto, o objetivo do Conde Rohanson era o dinheiro, e depois que ele abocanhou o dote que a mãe de Evangeline trouxe, a relação esfriou. Assim que li, pensei: “Ah, isso é um clichê”.
Agora, a história deve seguir para o momento em que ela tenta se reaproximar da família materna, com quem cortou laços, no lugar do Conde Rohanson. Sabe, aquele tipo de história onde o avô, na verdade, ama a filha e vê a falecida nela ao olhar para a neta.
Mas… isso não seria uma história de criação de filhos? Evangeline é grande demais para isso. Parece que perdi o momento de entrar na rota de “criação”. Droga, se eu tivesse possuído este corpo alguns anos antes!
O diário ficava mais longo conforme os dias passavam. Como ela não tinha ninguém com quem desabafar, parecia que escrevia seus sentimentos mais íntimos ali. Com o tempo, a caligrafia começou a ficar estranha e, por causa disso, havia partes que eu não conseguia ler. Parecia até que o conteúdo do texto estava mudando…
O importante é o feitiço de invocação…
[Como invocar □□]
[Ó, aquele que está no □
Contamine a terra com o □□□ do □□□
Desenhe um círculo com suas mãos □ □chadas
Suplique com reverência pelo □
Faça as uvas amadurecerem nos espinheiros
E faça os figos brotarem dos cardos
□□ e □□
Receba o □□ do □□ que retornará à terra e descenderá ao mundo]
Com licença? O tradutor deu erro? Eu já sabia que esse patch de tradução ia demorar!
Parece que a atualização não foi completa. Pelo menos, o fato de eu conseguir ver algumas letras já é algo.
Vamos ler o que dá para entender. Então… contaminar a terra e desenhar um círculo com minhas próprias mãos? O que é essa história de espinheiros e uvas? É algum ditado sobre plantar feijão e colher outra coisa? O que isso significa!
O que eu estou invocando? Além de as letras estarem corrompidas, o conteúdo é desnecessariamente difícil e não entendo nada.
É por isso que professores renomados ganham bem. Se organizassem tudo de forma clara com números: 1. Desenhe um círculo, 2. Invoque. Seria muito melhor.
Minha cabeça dói. Tempo. Vou deixar isso de lado até que a tradução seja atualizada. O papel não vai fugir.
“Para onde foi?”
Fugiu.
O papel que deixei em cima da mesa desapareceu sem deixar rastros. O diário estava lá, mas o papel sumiu. Revirei o quarto inteiro e não encontrei nada.
— Henna, por acaso você viu o papel que estava na mesa?
— Não…
Fiquei no quarto o dia todo, quando foi que sumiu? Só saí do quarto ontem durante o passeio. Será que alguém limpou o quarto enquanto eu estava fora e jogou fora achando que era lixo?
Eu nem tinha interpretado ainda! Nem tinha tentado a invocação! É por isso que não se pode viver com preguiça!
Primeiro, preciso descobrir quem fez a limpeza. Só assim poderei perguntar sobre o paradeiro do papel. Segurei um criado que passava pelo corredor.
— Quem entrou no meu quarto ontem?
— O-ontem? Se foi ontem, deve ter sido Donau.
— Onde ele está agora?
— Bem… Donau não apareceu hoje…
Será que isso é o famoso “dar o golpe e sumir”?
Pensando bem, por causa do erro do tradutor, o texto parecia estranho apenas para mim, mas para os outros podia estar normal. Ele deve ter visto o método de invocação incrível enquanto limpava meu quarto e roubou na hora. Se tivesse jogado fora achando que era lixo, não teria motivo para faltar ao trabalho hoje!
— …Por acaso Donau fez alguma coisa?
— Fez. Acho que ele roubou algo meu.
Evangeline é uma vilã, mas a configuração era de que ela era frequentemente intimidada. Eu não queria bater na cara dos outros nem usar meu status, então fiquei quieta, mas, mesmo que não fosse para bater, eu deveria ter demitido esse cara há muito tempo. Não, espera, ele roubou justamente a minha rota de personagem apelona de Isekai?
— Diga a todos que, se alguém tocar nas minhas coisas daqui para frente, cortarei o pescoço, não importa quem seja.
Vou decapitar todo mundo! Vou abusar do meu poder de contratação.
Fui direto ao mordomo e peguei o endereço da casa de Donau. Não esperava que minha primeira saída após a possessão fosse por um motivo tão lamentável.
Como não conheço bem a geografia, Henna, que mora nas redondezas, me acompanhou. Pudim também veio junto, achando que estávamos indo passear.
Quando disse o endereço ao cocheiro, ele nos deixou em uma periferia bem longe da mansão. A partir dali, Henna nos guiou.
— É aqui.
Finalmente chegamos! Espere só, seu ladrão. Vou recuperar minha rota de personagem apelona de Isekai.
Esqueça bater na porta, chutei a porta com força.
***
— …Ugh… ugh!
A garota se contorcia. Ela não se cansa? Donau, que lia o texto sentado em uma cadeira enquanto bebia chá calmamente, estalou a língua diante dos gemidos que atrapalhavam sua leitura.
Embora sua boca estivesse amordaçada, era possível interpretar tudo. O que ela tinha a dizer era óbvio. “Por favor, me salve”, “me desculpe”. Seriam palavras covardes como essas. Haha, que engraçado, ela nem sabe o que fez de errado e já está implorando.
Donau, que olhava para a garota como se fosse um inseto, logo desviou o olhar.
Como não havia cortinas, ele havia tapado a janela apressadamente com tábuas de madeira e pregos para que ninguém visse o interior. Uma luz avermelhada entrava pelas pequenas frestas. O pôr do sol já estava acontecendo.
Agora, realmente não restava muito tempo. O brilho vermelho desapareceria e a escuridão chegaria em breve.
Donau olhou para o papel que estava lendo como se fosse algo precioso.
Era um bilhete que ele pegou na mansão do Conde Rohanson, onde trabalhava. Na noite passada, enquanto organizava o quarto de Evangeline Rohanson, encontrou esse tesouro.
[҉C҉o҉m҉o҉ ҉i҉n҉v҉o҉c҉a҉r҉ ҉o҉ ҉d҉e҉m҉ô҉n҉i҉o҉]
Para uma pessoa comum, o conteúdo pareceria uma brincadeira de criança. Mas Donau, que trabalhava na mansão Rohanson, percebeu com seu olhar aguçado que aquilo era real.
Evangeline Rohanson, que havia se enforcado e morrido, ressuscitou. Se não foi um demônio, quem mais poderia ter feito isso?
Seus colegas estúpidos diziam que ela estava possuída por um fantasma! Que ela tinha virado um demônio! E ficavam apavorados com uma simples garota. Que nível baixo! O importante era como ela ressuscitou Evangeline Rohanson!
E quem invocou o demônio!
Apenas Donau conseguia entender o motivo.
A família materna de Evangeline Rohanson é o Ducado Hosaquin. Desde que Evangeline era pequena, o Conde Rohanson recebia um enorme apoio financeiro para tratamento médico, usando a desculpa de que ela era doente.
Donau testemunhou o banquete de números que se estendiam vertiginosamente enquanto limpava o escritório do Conde. A memória ainda estava fresca, talvez por ter apanhado por ter roubado documentos.
Mas se Evangeline morresse, todo aquele dinheiro desapareceria. Então, o Conde Rohanson deve ter feito um contrato com um demônio para ressuscitar sua filha!
Aquele Conde maldito! Por mais que finja ser uma boa pessoa, no fundo não passa de um nobre ganancioso! Donau já suspeitava das intenções sujas do Conde há muito tempo.
E Donau se tornará um nobre muito mais respeitável do que alguém como o Conde Rohanson.
҉Ó, ҉a҉q҉u҉e҉l҉e҉ ҉q҉u҉e҉ ҉e҉s҉t҉á҉ ҉n҉o҉ ҉f҉i҉m҉, ҉c҉o҉n҉t҉a҉m҉i҉n҉e҉ ҉a҉ ҉t҉e҉r҉r҉a҉ ҉c҉o҉m҉ ҉o҉ ҉m҉a҉r҉t҉í҉r҉i҉o҉ ҉d҉o҉ ҉i҉n҉n҉o҉c҉e҉n҉t҉e҉.҉ ҉D҉e҉s҉e҉n҉h҉e҉ ҉u҉m҉ ҉c҉í҉r҉c҉u҉l҉o҉ ҉c҉o҉m҉ ҉s҉u҉a҉s҉ ҉m҉ã҉o҉s҉ ҉s҉u҉j҉a҉s҉ ҉d҉e҉ ҉s҉a҉n҉g҉u҉e҉.҉ ҉S҉u҉p҉l҉i҉q҉u҉e҉ ҉c҉o҉m҉ ҉r҉e҉v҉e҉r҉ê҉n҉c҉i҉a҉ ҉p҉e҉l҉a҉ ҉s҉a҉l҉v҉a҉ç҉ã҉o҉.҉
҉F҉a҉ç҉a҉ ҉a҉s҉ ҉u҉v҉a҉s҉ ҉a҉m҉a҉d҉u҉r҉e҉c҉e҉r҉e҉m҉ ҉n҉o҉s҉ ҉e҉s҉p҉i҉n҉h҉e҉i҉r҉o҉s҉ ҉e҉ ҉f҉a҉ç҉a҉ ҉o҉s҉ ҉f҉i҉g҉o҉s҉ ҉b҉r҉o҉t҉a҉r҉e҉m҉ ҉d҉o҉s҉ ҉c҉a҉r҉d҉o҉s҉, ҉r҉e҉v҉e҉r҉e҉n҉c҉i҉e҉ ҉e҉ ҉a҉d҉o҉r҉e҉.҉ ҉R҉e҉c҉e҉b҉a҉ ҉o҉ ҉a҉n҉j҉o҉ ҉d҉a҉ ҉l҉u҉z҉ ҉q҉u҉e҉ ҉r҉e҉t҉o҉r҉n҉a҉r҉á҉ ҉à҉ ҉t҉e҉r҉r҉a҉ ҉e҉ ҉d҉e҉s҉c҉e҉n҉d҉e҉r҉á҉ ҉a҉o҉ ҉m҉u҉n҉d҉o҉.҉
A preparação estava pronta.
Sequestrei uma garota que estava rondando por perto. Desenhei o padrão para invocar o demônio no chão com o sangue de Donau. Seus braços e dedos estavam cheios de cortes por ter desenhado aquele padrão enorme.
Agora, bastava esperar o sol se pôr e invocar o demônio em troca da vida daquela garota…
Donau repetiu o procedimento várias vezes e, depois de memorizar, rasgou o papel em pedaços e engoliu. Comer aquele papel seco parecia doce, como se estivesse comendo uma fruta bem madura.
Não podia deixar que qualquer um visse uma informação tão especial. A chance de se tornar especial deveria ser apenas dele.
— Finalmente!
E, finalmente, o sol se pôs. Donau riscou um fósforo e acendeu a vela.
Pegando uma faca bem afiada sobre a mesa, Donau dançou ao som da respiração ofegante da garota. Era uma valsa que um cavalheiro dançaria. Com o movimento de Donau, a chama da vela oscilava e a sombra projetada na parede dançava.
Donau, dançando com sua sombra como parceira, imaginou o futuro após invocar o demônio. Ele não estaria naquela casa velha, mas sob um lustre brilhante.
Comentários