[pensamento]Eu o hipnotizei para falar com o Duque.[/pensamento] A voz ecoava na sala, parecendo se dividir em duas.
[grito]“Por causa de quem?”[/grito]
[grito]“Fui eu… Fui eu, de fato…”[/grito]
Finalmente, o Duque admitiu a culpa que carregava.
[grito]“Você apenas deu o pretexto, mas fui eu quem levou a situação a esse ponto. Sou um pecador…”[/grito]
[pensamento]É o que eu penso também. Se o Duque não tivesse declarado o rompimento, Agera jamais teria feito a transmutação humana por querer ver a filha.[/pensamento]
Aproveitei a oportunidade para manipular um pouco a mente maleável do Duque, mas uma nova interrupção veio de fora. Desta vez, não era um cavaleiro, mas Lico.
[grito]“Duque, temos visitas. Devo acompanhá-los à sala de recepção?”[/grito]
[grito]“…Faça isso.”[/grito]
[grito]“Sim, senhor. Entendido.”[/grito]
O som de passos se afastando acompanhou a resposta. [pensamento]Visitas? Quem viria em uma situação como esta?[/pensamento]
Enquanto tentava adivinhar a identidade do visitante indesejado, o Duque me deu uma ordem.
[grito]“Evangeline Rohanson, vá e receba os convidados.”[/grito]
[pensamento]Eu? Mas não sou da família Ducal![/pensamento]
[grito]“Não tenho o direito de receber convidados.”[/grito]
[grito]“Não. Você não é uma estranha, então tem o direito.”[/grito]
[pensamento]O quê? Eu ouvi errado? Se não sou uma estranha e estou na posição de receber convidados, isso significa que ele está me reconhecendo como neta, não é?[/pensamento]
[grito]“Acompanhe-a até a sala de recepção.”[/grito]
O Duque chamou um criado e deu a instrução. Saí do escritório atordoada, com a mente cheia de interrogações. Eu havia provocado o Duque com todas as minhas forças para que ele definisse sua posição, seja me tratando como inimiga, aliada ou o que fosse.
Mas não esperava que ele mudasse de atitude tão rapidamente. Pensei que, com sua personalidade exigente e teimosa, ele só me reconheceria antes de morrer, ou agiria como um tsundere.
[pensamento]Não sei que tipo de mudança de coração o fez me reconhecer.[/pensamento]
[grito]“Vou acompanhá-la, Jovem Lady.”[/grito]
Segui o criado, ainda sem entender, com pontos de interrogação flutuando em minha mente.
[pensamento]Será que o convidado que está vindo é perigoso e ele está me usando como escudo?[/pensamento]
***
O homem que ostentava o nome Hosaquin estava imerso em arrependimento no quarto solitário.
O ar parecia ter peso, oprimindo-o. Assim, o [glossario termo=”Duque Hosaquin”]Duque Hosaquin[/glossario] não conseguia levantar a cabeça, embora não houvesse ninguém a quem pedir perdão.
Para onde vai uma alma que não é acolhida por Deus? Se a alma manchada de Amaranto se dissolveu na terra, era compreensível que o Duque tivesse tanta dificuldade para respirar.
[grito]“…Amaranto.”[/grito]
Mesmo depois que Evangeline saiu do quarto, ele não conseguiu levantar a cabeça facilmente. Se ele se endireitasse, sentiria que veria a filha o repreendendo.
Ele havia declarado que não reconheceria [glossario termo=”Evangeline Rohanson”]Evangeline Rohanson[/glossario], mas a presença dela naquela casa era inquietantemente semelhante à de Amaranto. Claro, já que Amaranto a havia criado, não poderia ser diferente.
As palavras duras de Evangeline se tornaram as acusações de Amaranto, e sua própria atitude fria para com Evangeline se tornou a repetição do passado.
[grito]“Arrependo-me.”[/grito]
Até pouco tempo, o [glossario termo=”Duque Hosaquin”]Duque Hosaquin[/glossario] nunca havia se arrependido de suas ações. Muitos dependiam de sua vida, e ele carregava o peso de inúmeras responsabilidades.
Por isso, na época do auge do [glossario termo=”Massacre de hereges”]massacre de hereges[/glossario], quando Amaranto disse que ele havia feito uma escolha errada, o Duque, sem hesitar, a deserdou.
Amaranto deveria arcar sozinha com os pecados que cometeu. O [glossario termo=”Duque Hosaquin”]Duque Hosaquin[/glossario] pensava assim. Ele tinha o sol como um farol a seguir, e por isso nunca duvidou de suas ações.
[grito]“Fui tolo. Só agora entendo Amaranto.”[/grito]
Se [glossario termo=”Agera”]Agera[/glossario] não tivesse se envolvido com [glossario termo=”Magia Negra”]magia negra[/glossario], ele jamais teria entendido.
Após a morte de Amaranto, [glossario termo=”Agera”]Agera[/glossario] perdeu a razão. Seria melhor se ela o culpasse, mas [glossario termo=”Agera”]Agera[/glossario] era uma pessoa tão frágil que não conseguia impor fardos aos outros. O tempo de [glossario termo=”Agera”]Agera[/glossario] parou.
O Duque precisava viver com alguém que desafiava o tempo.
O [glossario termo=”Duque Hosaquin”]Duque Hosaquin] seguia o sol, envelhecendo a cada nascer do sol. Mas [glossario termo=”Agera”]Agera[/glossario], ao contrário, virava as costas para ele, ficando mais jovem a cada pôr do sol.
No entanto, ao contrário de Amaranto, o Duque não conseguiu abandonar [glossario termo=”Agera”]Agera[/glossario]. Ela era a coisa mais importante para ele. Mesmo nessa situação, o Duque desejava que Deus cuidasse de [glossario termo=”Agera”]Agera[/glossario] com misericórdia. O amor do Duque por sua esposa era maior do que a culpa por sua filha. Certamente, para Amaranto, Evangeline, aquela criatura monstruosa, era algo assim.
O Duque tirou uma carta antiga de uma gaveta e a acariciou com cuidado. Eram cartas enviadas por Amaranto depois que ele a deserdou. Ele nunca as leu, com medo do que poderiam dizer, e as guardou por toda a vida.
[grito]“Pai.”[/grito]
Um [glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario] saltou de debaixo da mesa. Não, era sua filha. O Duque não impediu que o [glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario] subisse na mesa. Aproveitando a confusão e a fraqueza mental do Duque, o ‘[glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario]’ tentou seduzi-lo.
Se Evangeline soubesse disso, ela ficaria tão furiosa que tentaria queimar vivo o ‘[glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario]’ que cobiçava sua parte.
[grito]“Por que você me abandonou, pai? Por que não me entende? Eu cometi um erro tão grande? Você me abandonou, me deixou morrer sozinha. Vou morrer em breve. Por favor, me salve, pai. Quero voltar para a [glossario termo=”Ducado Hosaquin”]Ducado Hosaquin[/glossario].”[/grito]
O [glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario] parecia recitar o conteúdo da carta que o Duque não havia lido. A voz do [glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario] era, estranhamente, semelhante à de Evangeline.
[pensamento]Será que a voz de Amaranto era assim? De tanto tentar esquecer, a memória corroída do passado havia perdido até mesmo a voz da filha.[/pensamento]
[grito]“Engula-me. Coma-me. Mastigue-me. Sou um [glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario] muito saboroso. Se me comer, eu o perdoarei. Não odiarei você, pai.”[/grito]
O Duque, sem perceber, segurou o [glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario] como se estivesse enfeitiçado.
[pensamento]De fato. Se Evangeline não tivesse me avisado antes, meu coração teria afundado. Este era o destino que a segunda filha de Agera, esmagada pelo Duque, deveria aceitar. Uma raiva intensa subiu no Duque. Ficar mais zangado com a criatura invocada do que com Agera, a própria conjuradora, era uma atitude realmente parcial.[/pensamento]
[grito]“…Odie-me por toda a vida.”[/grito]
O Duque apertou ainda mais a mão, seus olhos injetados de sangue. O [glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario] arranhava e tentava escapar de sua mão.
[grito]“Amaranto, minha filha. Não espero seu perdão. Então, continue me odiando mesmo depois da morte.”[/grito]
[onomatopeia]Croc.[/onomatopeia] O som de ossos se quebrando. O Duque não afrouxou o aperto. Os ‘[glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario]s’ ressuscitavam mesmo depois de mortos, e se o Duque os soltasse, eles fugiriam e seriam devorados por outras pessoas na mansão.
Então, o Duque continuou a matar os [glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario]s cada vez que eles reviviam.
Por muito tempo, até que Evangeline, que se parecia mais com sua filha do que com o ‘[glossario termo=”Rato”]Rato[/glossario]’, retornasse ao escritório.
***
Lico já havia preparado tudo para receber os convidados, mesmo sem minha ajuda. Se eu não tivesse me aliado a Lico e a tivesse tratado como inimiga, minha vida na [glossario termo=”Ducado Hosaquin”]Ducado Hosaquin[/glossario] teria sido bem mais difícil.
Enquanto esperava na sala de recepção, os convidados que o Duque mencionou chegaram. Eram pessoas com mantos cobrindo o rosto, mas assim que os vi, soube quem eram e quase soltei um grito de alegria.
[grito]“Sir Gabriel.”[/grito]
Ao me ouvir, [glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] afastou o manto. Sua beleza melancólica e estonteante foi imediatamente revelada. [pensamento]Alguém acendeu as luzes para a entrada de Gabriel? Senti que o ambiente ficou mais claro.[/pensamento]
[grito]“Fico feliz que me reconheça de imediato.”[/grito]
[glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] sorriu suavemente. [pensamento]Agora até um refletor foi colocado. Fazia tanto tempo que não o via que minha imunidade deve ter diminuído, pois quase levantei o polegar para elogiá-lo por sua beleza inalterada. Quase perdi minha pose de vilã.[/pensamento]
[grito]“Não esperava que o senhor viesse pessoalmente.”[/grito]
[pensamento]Não é à toa que o Duque me mandou. Deve ser porque Gabriel veio.[/pensamento]
[pensamento]Mas não é perigoso para o [glossario termo=”Bispo Marik”]Bispo Marik[/glossario] vir pessoalmente, com os olhos bem abertos, observando? É por isso que enviei a carta em nome de Misha.[/pensamento] Ao ouvir minhas palavras, [glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] baixou os olhos, parecendo envergonhado.
[grito]“Não é sempre que tenho a oportunidade de ver a Jovem Lady. Por não a ter visto por um tempo… vim, mesmo sabendo do perigo.”[/grito]
De fato, fazia muito tempo. A última vez que o vi foi quando salvei Jeremia.
O cavaleiro honesto e diligente não tinha mais vestígios de sua antiga personalidade. [pensamento]Gabriel realmente se estabeleceu no meu harém. Percebi isso de repente. É por isso que ele está me ajudando, abandonando sua fé e sua posição.[/pensamento]
Ainda assim, como [glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] era o único no meu harém, minha consciência doía menos. [pensamento]Mas se é o único… então não é mais um harém, certo? Enfim.[/pensamento]
[grito]“Seria bom se a Jovem Lady também sentisse minha falta.”[/grito]
[glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] acrescentou com um tom de lamento. Ele parecia certo de que eu não sentiria sua falta. [pensamento]Eu senti falta dele, sim. Queria perguntar por que ele me jogou no apocalipse dos ratos sem nenhum aviso.[/pensamento]
[grito]“Eu também senti falta de Sir Gabriel.”[/grito]
[pensamento]Embora fosse apenas por necessidade. O significado era o mesmo, então caprichava nas palavras. Já que o vi depois de tanto tempo, precisava dar bastante isca.[/pensamento]
[grito]“É mesmo?”[/grito]
[glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] arregalou os olhos ao ouvir a resposta. Ele não questionou se minhas palavras tinham outro significado, mas sorriu, puramente impressionado por eu ter sentido sua falta.
[grito]“A Jovem Lady Evangeline pensou em mim.”[/grito]
Seu sorriso radiante atraiu meu olhar naturalmente.
[grito]“Fico muito feliz que eu tenha ocupado parte do tempo da Jovem Lady.”[/grito]
[glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] agiu como se minhas poucas palavras de que pensei nele fossem mais doces do que qualquer bajulação do mundo. Os cantos dos olhos de [glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] estavam vermelhos e inchados, embora ele não estivesse chorando. Parecia que suas emoções transbordariam a qualquer momento.
Nunca tinha visto alguém tão completamente preenchido por uma única emoção… por felicidade. Era estranho ver o sempre frio [glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] sorrir com tanto fervor, e saber que eu era a causa de tal emoção. Meu coração disparou, e senti náuseas. Cobri a boca.
[grito]“Jovem Lady?”[/grito]
[glossario termo=”Gabriel”]Gabriel[/glossario] rapidamente desfez o sorriso e me olhou preocupado. Desviei o olhar.
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